quarta-feira, 10 de março de 2010

A Menina do Shopping

(Imagem Net-Google)

Sentado na esplanada do Shopping, saboreava um café.

Acabara de ver “Amar…é complicado” (“It’s Complicated”), com Steve Martin completamente perdido e Alec Baldwin, bom, adiante… A minha tarde de cinema foi salva por Meryl Streep, o fulgor e o brilho de uma grande actriz, sempre ela!
Passou por mim um homem, aí nos quarenta, com uma menina pela mão, seis, sete anitos, não mais. Sentaram-se numa mesa, três quatro metros distante da minha. Olhei-os melhor. Ele pareceu-me pai divorciado, em dia com a filha à sua guarda. A menina sentou-se, com gestos suaves puxou os cabelos deixando-os cair pelos ombros, pousou as mãos sobre os joelhos, e mandou os seus olhinhos brilhantes percorrer as mesas na busca de algo. Assim ficou.
Com a largura da mesa a separá-los, o pai tomou a cadeira defronte dela. Acendeu um cigarro, levantou a cabeça e expeliu o fumo, ficando a ver as espirais trepando pelo ar. Espreguiçou-se. Depois, tirou do bolso o telemóvel, encostou-lhe o ouvido. Ficou tempos à conversa com alguém, presumi. De seguida, pousou o telemóvel, atirou o cigarro para o chão, esmagou-o com o pé. Provavelmente, imaginei, ter-lhe-iam falado de guerras, de terra queimada onde não florescem flores.
Rompendo o ruído da esplanada, ouvi o silêncio profundo que me chegou daquela mesa.
A menina fixou, então, os olhinhos no pai, num ver de quem continuava à procura. Ele reparou, passou-lhe o telemóvel, sem qualquer palavra, apenas com o gesto da mão estendida com o aparelho. A filha nele pegou, pondo-se a dedilhar, por certo abrindo um daqueles jogos que vivem nos telemóveis. Por um momento fugaz sorriu, como se os jogos lhe estivessem a fazer cócegas, ou parecendo estar a jogar às cinco pedrinhas. De pronto, recuperou o olhar triste.
Passaram minutos. O pai acendeu outro cigarro, desdobrou o jornal que levara debaixo do braço. Pôs-se à cata das letras gordas, assim me pareceu, dada a velocidade com virava as páginas. A menina continuava às voltas com o jogo, percorrendo, de quando em vez, com o olhar perdido, as mesas em volta.
Voltou a chegar-se-me, mais forte, o silêncio daquela mesa.
Correram outros minutos.
O pai dobrou o jornal, estendeu a mão a recolher o telemóvel. Levantou-se. Nos olhinhos dela vi pontos de interrogação. Seguiu, agarrada à mão do silêncio do pai, em direcção à porta, por aquele caminho por onde não saltava nem ria. Antes de deixar a esplanada olhou para trás. Vi, no seu olhar, agora ansioso, uma mão aberta, estendida, à procura….
Eu sei que nunca é demasiado longe, mas como eu gostaria de não ver e ouvir, nunca mais, silêncio como o daquela mesa.
Sorvi a última gota do café, já frio. Soube-me a amargo.

24 comentários:

Lala disse...

Infelizmente "cenas" destas acontecem muito mais do que imaginamos. Pais (pais e mães) presentes mas, no entanto tão longe! E as desculpas para não ser "ter tempo" para os filhos são as de sempre: 'tive que atender o telemóvel', agora não, que estou a fumar', 'espera só que agora estou a ler isto', estou/estive a trabalhar', estou cansado/a'... e por aí fora! Depois têm a lata de comprar os próprios filhos com bens materiais e pior que isso, ainda os insultam quando lhes perguntam: 'nunca te faltou nada, pois não?'
A verdade, Carlos, é que cada vez mais isto acontece. Aqueles que são hoje pais incutem essa estranha forma de amar aos seus filhos, que incutirão ainda com mais afinco aos seus e por aí fora...
Eu não tenho pais. Vivi numa instituição e tenho uma mãe adoptiva (aliás tenho um post sobre isso - http://memoriasdaminhacaneta.blogspot.com/2010/02/momento-de-infancia-feliz.html ). E se há coisa que esta mãe me ensinou foi a importância de saber amar. Agora que tenho uma filha (já com 9), espero saber transmitir ainda com mais afinco aquilo que a minha mãe me ensinou!

Beijinho**

Beta disse...

Isto aconteceu mesmo???

bj

quicas disse...

Silêncio que dói, TANTO!!!
Acho que todos nós, algum dia, já tropeçámos em quadros semelhantes, cada vez mais frequentes, tristemente frequentes, nos dias que correm: às vezes é tão difícil ser criança!...
Um grande abraço e, penso que em nome de todas essas crianças órfãs de pais vivos, Obrigado por, partilhando esta "história", me ajudar a mais uma vez pensar nisto!

Agulheta disse...

Amigo Carlos. No dia a dia a falta de amor, vem sempre acompanhada de alguma indiferença,pais principalmente. Depois dizem que as crianças tem traumas,são rebeldes!O amor é o caminho.Gostei do texto como sempre neste blog.
Beijinho Lisa

Graça Pereira disse...

Tantas histórias assim...mas no meio do silêncio que perturba, havia alguém atento à desilusão, à dor de uma garotinha... Não me admira que o café te soubesse a amargo.
Beijo amigo.
Graça

maria teresa disse...

Ser pai ou mãe não é ter uma "boneca" para brincar, que se arruma a um canto quando o "brincar" cansa... Há muitos pais, infelizmente, que não pensam assim...
Relatos sobre crianças tocam-me profundamente, este é um "retrato" que se vê vezes excessivas...e não se devia ver, nem sequer uma.
Abracinho

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Há tempos descrevi uma CENA idêntica, num restaurante, mas entre mãe e filho ( já espigadote). Também já falei de uma cena entre casais que não trocam palavra durante um jantar. Cada vez que presencio cenas assim, dou comigo a pensar no significado desses silêncios. E nos momentos preciosos de vida que cada um dos intervenientes perde.
Não deixa de ser estranho que na era das comunicações super rápidas, aumentem os silêncios entre as pessoas. Muito pano para mangas dava este seu pos, caro Carlos
Abraço

Maria João disse...

Carlos

Extraordinário relato de alguém que olha a vida com atenção, que a absorve para tirar dela o sumo, o néctar que importa saber, que importa reflectir.
Se todos, no nosso dia a dia, dedicarmos a nossa atenção a observar e a reflectir, no que à nossa volta acontece, encontraremos a origem de tantos problemas, na infância e na juventude, que preocupam a nossa sociedade.
Tantas crianças que assim vivem, tantos país que o foram sem estarem preparados para o serem e cuja existência de um filho é um fardo insuportável. Tantas crianças que sofrem assim a negligencia muda que ninguém valoriza, ninguém repara.
Esta é uma história frequente, no dia a dia, na rua e em tantas casas, tantas famílias. No silêncio das ausências, abrem-se feridas que sangraram a vida inteira. É urgente repensar atitudes, é urgente reflectir sobre a parentalidade, sobre as competências parentais. "Inventem-se novos pais" disse Daniel Sampaio. Inventem-se sim, urgentemente!



Um beijinho

ematejoca disse...

Foi com grande prazer, que li esta história no café, tão rica em pequenos pormenores, que a embelezam de uma maneira muito especial.

Caso esta história não seja producto da sua imaginação, meu caro Carlos, então já não gostei, porque é uma história triste, verdadeiramente triste.

Carlos Albuquerque disse...

ematejoca
Não, não é produto da minha imaginação. Provavelmente, até se me escaparam alguns pormenores. Decidi escrevê-la porque tudo o que envolve crianças me toca profundamente.

Maria João
"Inventem-se novos pais!". Terá Daniel Sampaio razão, ou só meia razão?. Penso que nos temos que reinventar a todos, enquanto colectivo, sociedade não alienada nem desumanizada. Reaprender valores. O Mundo acabará por despertar para a construção de uma Nova Ordem Humana e Social. Tenho esperança
Beijinho

Carlos Albuquerque disse...

Maria Teresa
É como diz, não se devia ver, nem sequer uma vez.
Abraço

Carlos Barbosa de Oliveira
Já tenho pensado no que diz. Como é que na era das comunicações super rápidas, aumentam os silêncios entre as pessoas!? Será que a tecnologia está a transformar-nos em meros robots, máquinas despidas de Humanidade?
Um abraço

Carlos Albuquerque disse...

Graça Pereira
O café soube-me amargo, e bem amargo.
Beijo amigo

Agulheta
Não tenho dúvidas, amiga Lisa, o amor é sempre o caminho.
Beijinhos

Quicas
Se dói!
Eu é que lhe agradeço o ter lido a história, e o comentário deixado.
Grande abraço

Carlos Albuquerque disse...

Beta
Claro que aconteceu!
Já fui ao seu blog dizer-lhe o mesmo
BJS

Lala
A importância de saber amar. Tocou bem no que talvez seja o principal problema.
BJS

papoila disse...

SE calhar , esse pai, também não teve pais "conversadores" e o ciclo continua...
Ás vezes não se "dá" porque nunca se recebeu.
Gostei do post, é pena deixar-nos tristes.:)
xx

Anónimo disse...

Olá Carlos!

Acompanho sempre os posts que escreves e qualquer que seja o assunto são sempre muito interessantes. No entanto, este tocou-me profundamente...
Se calhar, porque sou mãe e porque todos os dias corro contra o tempo para deixar os meus assuntos profissionais tratados e sair do escritório a toda a velocidade para estar com o SER que mais amo: o meu filho! Muitas são as tarefas que uma dona de casa tem que realizar quando chega ao lar, principalmente quando não tem uma ajuda ao seu lado... mas,não tenho vergonha de dizer, que muitas vezes prescindo dessas tarefas para dar atenção ao Tomás.
Qual é a criança que não gosta de ser ouvida? Que fica contente em partilhar as suas brincadeiras e pensamentos? Que gosta de ver um sorriso ou de receber um beijinho...? Realmente, fico triste quando situações destas se revelam com as crianças!
Não são os bens materiais que dão amor, não é o facto de deixar fazer e dar tudo que se transmite o verdadeiro afecto! Assim, cala-se da maneira mais fácil a voz de uma criança, amarram-se sentimentos, recalcam-se frustrações... e mais tarde como será? Que tipo de pessoa aquela menina vai ser?
Cada vez mais, ensino ao meu filho valores soberanos que a humanidade despresa e que actualmente não dá valor. E um desses valores é o AMOR!
O Tomás tem 6 anos e é incapaz de se deitar e não me dizer " amo-te muito, mama!"
O Amor além de se sentir também se deve ensinar!

Obrigada por poder partilhar o meu comentário! Eu sou uma fã incondicional do amor!

Bjs
Ritsmania

Carlos Albuquerque disse...

Papoila
Não sou tão peremptório, mas tendo a estar de acordo.
xi

Ritsmania
Grato por teres vindo deixar o teu comentário. Li-o com atenção. Concordo com o que escreveste.
Devo dizer-te que o teu Tomás é, com certeza, um menino feliz por ter uma mãe assim. Bem hajas.
BJS
--
Volta!

Sonhadora disse...

Meu amigo
uma bonita história, tocou-me muito.

beijinhos
Sonhadora

Teresa disse...

Carlos
Que história tão trite, e no entanto tão vulgar. Quantas vezes assistimos a cenas dessas e já nem damos por isso. As pessoas andam ocupadas consigo próprias e já não têm tempo para se darem um pouco aos outros, mesmo aos filhos. Isto fez-me lembrar a pretensão da Associação de Pais e Encarregados de Educação de terem as creches abertas até à noite e ao sábado de manhã. Santo Deus, para que é que as pessoas têm filhos?
Os silêncios, no entanto, não se instalam apenas entre pais e filhos...
Bjs

ney disse...

São cenas tristes. Sofri demais com elas. Bastou uma caneta, ao invés do coração, e meu neto se tornou mais um. Nem consultaram ele, programaram, determinaram, promulgaram e agendaram algumas horas de amor para ele, com quem ele mal conhecia. Poderia ao menos ser gradativo, um sorvete na esquina, um passeio no parquinho, para que se conhecessem melhor, mas foi logo um pacotão de final de semana. E os avós e a mãe vendo ele ir aos prantos, sendo mesmo carregado. Ah, sim, logo ele sumiu de novo. E ficou o amor. ///

Fernanda disse...

Querido amigo Carlos,

É completamente impossível não ficar sem lágrimas nos olhos depois de ler a tua narrativa.
Este é só mais um acontecimento verídico e tão frequente, para desgraça de tantas crianças, demasiadas.
Tanta solidão, tanto desamor, tanta tristeza.
Doí demais saber... e ver deve ter sido atroz, especialmente para alguém com a tua sensibilidade.

Muito triste o texto, mas suberbamente escrito, como sempre.

Olha amigo, senti uma enorme vontade de juntar ao meu post o teu comentário e o poema da amiga Teresa da ematejoca.

Lindo demais!

Obrigada amigo.
Beijinhos

Pedro Albuquerque disse...

Não sei bem o que dizer... Pois os meus pais às vezes também dizem «Estou cansado(a), agora não!» mas sei que gostam muito de mim como eu deles. É uma desculpa às vezes, outras verdade, mas quando é desculpa é porque não lhes apetece falar. Eu também tenho essa desculpa...!
O silêncio é melhor que o barulho numas vezes e noutras sem barulho podemos nem sobreviver!


Muitos bjs para ti, para a avó e para o Angelo.

Manuela Freitas disse...

Olá Carlos,
Gostei do texto, uma narração real, que me deixou triste. É tão comum agora a falta de comunicabilidade entre as pessoas, o silêncio pesado, o automatismo de gestos...Com as crianças tudo ainda é pior, as crianças precisam de comunicar e ter afecto...Hoje em dia os divórcios ocorrem facilmente, mas a reflexão necessária aos seres gerados, parece não estar presente...Dói bastante, que mundo sucederá ao nosso? Desculpe o meu pessimismo!...
Um abraço,
Manuela

Elaine Barnes disse...

Nossa, fiquei arrepiada com o seu relato, sua sensibilidade e observação. Colocou tão bem em palavras que pude assistir a triste cena.Infelizmente a falta de diálogo dos casais é uma doença. Muitas vezes incurável, colocam a culpa no outro,mas, está neles mesmos. Passa de pais pra filhos como se fosse hereditário.Triste, muito triste,ela crescerá com esse referencial de pai.Silêncio e descaso,quase uma indiferença.
Brilhante seu texto.Montão de bjs e abraços

Rosa Carioca disse...

Neste mês, comemora-se o Dia do Pai (mais um Dia de...). Neste mês, meu pai faria anos... Ao ler este seu post, lembrei-me que, sempre que eu ficava demasiadamente calada, meu pai não descansava enquanto não soubesse o que me preocupava. Sinto imensas saudades de meu pai por inúmeros motivos mas, principalmente, pelas nossas conversas. Para mim, o diálogo é fundamental em qualquer relação.