quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

2011

Vestido de capicua, aí vem ele, o ano 11. Diz-se que ao número, que também é primo, se atribui boa sorte. Nem sempre o ditado acerta. Será o caso deste Novo Ano, que má sorte para muitos (sempre os mesmos, e mais alguns) trará. Para outros (sempre os mesmos) não. Mas, creio que 2011 poderá ser, também, o ano da recuperação de oportunidades perdidas.
A oportunidade de não nos acomodarmos, mas de nos alarmarmos. A oportunidade de rompermos com o conformismo. A oportunidade de soprarmos o mar, levantando-o em ondas alterosas, nelas afogando a da apatia.
Anda por aí muita gente a brincar à caridade. Nada tenho contra a caridade, rejeito, contudo, de todo, a hipocrisia que a envolve. Por outro lado, penso que a caridade disfarça apenas o instante (muitas vezes importante, eu sei), e por aí se fica. É preciso ir mais longe, estender o gesto solidário e fraterno aos que entendem dever ser o Estado em que vivemos uma pessoa de bem que garanta o apoio social a quem dele precisa, seja no combate à pobreza, como no garante da saúde, da educação, da justiça e na procura da criação de emprego. Que queiram estreitar, cada vez mais, o arco das desigualdades. E, enquanto desprotegidos houver, que o Estado, que quero social, lhes estenda a mão amiga.
2011 será ano de eleições. Das presidenciais, em Janeiro e, provavelmente, meses depois, das legislativas.
Abre-se nova oportunidade de não ficarmos pelo pensamento zero, de não nos acomodarmos. De romper!
Temo, porém, que o povo que somos tenha deixado de ser temerário, e prefira caminhar sobre o lodo a fazer-se às águas alterosas.
Desejo a todos um Novo Ano com tudo de bom. Quanto mais não seja com paz, harmonia e amor. E em família.
Um abraço.

domingo, 26 de dezembro de 2010

O Menino o Papagaio e a Estrela

O Natal já foi!

Para muitos terá partido, sem mesmo ter chegado.
Naquela Noite a estrela, que eu vi, andava confusa, à procura de um Menino perdido. Num instante fugaz mostrou-me o que eu não queria ver: muitos outros meninos, olhando o céu, também eles buscando. O que eles encontraram foi apenas um céu escuro, sem luzes brilhando, mas apenas com lágrimas chorando.
Um dos meninos é aquele que ali está sentado à porta da cubata na Libata da Ilha da Quianda. A mãe, quitandeira, bate, numa panela entre as pernas, o funge que há-de juntar ao pirão do jantar, já feito na fogueira com a rama das casuarinas. O pai, pescador, dá jeitos na arte da pesca, que há-de lançar ao mar ximbicando por ele adentro, mal chegue a madrugada, procurando o peixe do sustento.
O menino sentado tem nas mãos um fio, que sobe por ali acima, segurando, na ponta, um papagaio de papel feito pelo pai. Acredita o menino (que ninguém lhe diga não ser assim) que o seu papagaio há-de passar o tecto do céu e entregar à Estrela o seu pedido: Ela que venha até cá abaixo, ao chão da sua Libata, para que a mãe e o pai não voltem a chorar.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal

Já conhecia “Little Drummer Boy”, mas não a interpretação de Celtic Woman, que encontrei na casa do Rogério. Encantou-me! Bati à porta e disse-lhe vou levá-la comigo.
Aqui a partilho com todos vós, horas antes da chegada do que para muitos é a Noite Mágica. Voltarei no Dia de Natal.
Um abraço a todos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Bom Natal!

A todas as amigas e amigos da minha cubata desejo um BOM NATAL, e que o Novo Ano vos traga tudo de bom. Ofereço-vos esta canção na voz inesquecível da mulher notável que foi Mercedes Sosa.
Espero que gostem.
Um abraço a todos.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Do Mwata

O Sorriso
(Transpirar de uma memória)

Aumentou o som do gira-discos para que todo o pelotão ouvisse Jingle Bells, naquela véspera da Consoada. Ordenou, de seguida, que verificassem as armas e munições, e distribuíssem a ração de combate pelos bolsos dos camuflados. Ao pescoço pendurou a máquina fotográfica, companheira de andanças, guardadora de memórias.
Com o nascer da manhã, cinzenta e cacimbeira, chegara a ordem para avançarem ao encontro da sanzala à beira da lagoa, bombardeada de véspera por ser tida como abrigo do inimigo. Natal sem presépio seria o seu, vivido a verificar danos, registar baixas infligidas, marcar a sanzala como território vencido e domado.
Ultrapassada a ourela da mata, caminharam separados pelos contornos das árvores, dobrando-os como esquinas cortantes num andar penoso, procurando pisar com cuidado pedaços de chão não estalantes para que o solo se não fizesse ouvir, denunciando-os. Ele ia pensando que este, como todos os outros passos que até ali o tinham levado, mais não eram do que um procurar da inutilidade, de um obstinado e cego adiar do que a História iria escrever.
Chegados, a névoa confundia-se com o fumo que subia da terra queimada, das lavras ardidas, das cubatas em destroços. A paisagem já não era verde, como a deixada para trás, mas turva. Diante dos olhos teve ele, surpreso, gente a chegar do outro lado da lagoa: crianças, mulheres e homens idosos. Vindos de mais atrás, ouviu latidos e cacarejos. Baixem as armas! Ordenou.
Com uma criança pela mão, um dos velhos, quiçá o soba, caminhou, lento e desconfiado, ao seu encontro. Bom dia, disse. Bom dia, respondeu-lhe, perguntando a seguir: onde estão os homens novos? Aqui não tem, já não tem deles faz muito tempo, foram na guerra da guerrilha, anunciou a voz do velho. Na guerra?! Então, velho, o que aconteceu aqui? Aqui, senhor, só nos mandaram bombas, nos queimaram as lavras, secaram a terra e nos fizeram fugir com os cães, os cabritos e as galinhas. Não teve guerra, não senhor. Os soldados de matar só chegaram agora. E mortos? Não tem deles, senhor.
Franziu-se-lhe a testa, entregou-se ao esforço de tentar compreender o que acabara de ouvir. Soldados de matar…!? Nisto estava, com o pensamento querendo correr para longe, quando a criança se soltou do velho e lhe puxou por uma das mãos. Tenho fome, mais velho da tropa, me dá comida. O dizer do menino entrou, turbulento, por ele adentro, fazendo-o cerrar os punhos e levá-los ao peito.
Num repente esvaziou os bolsos, deitando para o chão o que lhe restava da ração de combate. A criança atirou-se a uma embalagem. Pediu-lhe, por gestos, que a abrisse, levou à boca o que dentro dela saiu, trincou e logo fez o mais lindo sorriso, com uma mosca pousada na ranhoca à mistura, que ele alguma vez vira, sorriso acompanhado por um tagradeço amigo! Deste-me o meu presente de Natal, pensou sem o dizer. Guardou o riso na máquina das memórias. À noite dormiu ao relento. No céu apenas brilhava uma estrela com ar de andar à procura, e um fulgor diferente do que era hábito ver-se por ali luzir.
Aquele sorriso transformou em paz a agitação do seu interior, mudou-o para sempre, já não era o que nunca fora nem quisera ser, um soldado de matar, mas um amigo.
Regressado ao aquartelamento o seu pelotão foi autorizado a ajudar na reconstrução da sanzala. Semanas passadas o quimbo ajeitou-se. Reergueram-se as cubatas, os animais regressaram ao seu andar à solta, mulheres e homens idosos estavam de novo entregues ao amanho das lavras, as crianças brincavam, a velhice dos homens voltara a ser aquecida pelo sol, as mandioqueiras voltaram a crescer, bem como o caxinde. O soba podia, de novo, sentar-se à porta da cubata. Pela lama das franjas da lagoa já não corriam pés em fuga. Ele terminou o tempo de andar fardado.
No avião que o levou de regresso à terra da sua casa distante, releu a carta escrita à mulher no dia de Natal. Nela lhe contara a festa de despedida na sanzala da lagoa, e que tinham dado o seu nome a uma mandioqueira. Depois, tirou do bolso a fotografia do sorriso e falou-lhe: tagradeço amigo!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Laços de amizade


A Fê do “Só te peço 5 minutos” abriu espaço no seu blogue para um conto colectivo de Natal. A ideia era a de que cada visitante deixasse um ou mais parágrafos, a que outros dariam continuidade. Assim nasceram os “Retalhos de Natal”, fruto da amizade com que bloguistas responderam ao apelo do convívio, lançado pela Fê.
Um dos participantes, o Rogério, bloguista de conversa avinagrada, mas de coração que nunca mais acaba, puxou da imaginação, meteu mãos à obra e construiu a bela árvore de Natal que ali está. Fui buscá-la ao quintal dele, prometendo-lhe que a trataria bem. Aqui a plantei, à porta da minha cubata, para que as minhas amigas e amigos a possam admirar. E, digam lá, não é verdade que a blogosfera é um espaço aberto à Paz, Concórdia, Convívio e Cultura, como bem disse a Licas no seu blogue?
Um abraço a todos.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Natal apresta-se.

Há quem seja feliz a dizer que passa a vida a pensar na infelicidade dos outros.
Há os que têm dinheiro e os que têm fome.
Há os que têm a consciência na alma que lhes não dói.
Há os que a têm na carne que sangra.
---
(Hoje o sol-posto demorou-se, encarrapitado num nuvem que ficou. Depois, partiu triste.)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Pedido ao Pai Natal

Sei que andas cansado, de bússola na mão, de dores às costas. Sei que olhas em redor, observas a intolerância, a estupidez, a ignorância, a fraternidade desaparecida, a ingratidão, e meditas. Meditas, e de ti não se desgruda o travo amargo da vida que vais vendo.
Sei que acordas, por vezes, mais cedo do que gostarias, sem nada que queiras fazer.
Sei que, no teu passo já curto e algo incerto, quando te pões a andar caminhas contra o vento, não deixando que ele te sopre pelas costas, e sei que as tuas mãos continuam fortes, com elas agarrando a trovoada.
Sei que sabes que o tempo não espera. Por isso deixaste de andar só pelos caminhos. Por eles vais com o amor por companhia.
Sei, sei tudo isso, e mais: sei que te inventas a cada momento, revigorado, com a liberdade no peito onde o teu coração sente e sangra.
Por isso sei, Pai Natal, que me podes dar o presente que quero: um País sem gentes postiças.
Obrigado.
Para ti, um Bom Natal.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Tempo da poetisa (Alda Lara)

Hoje a chuva intimidou-se, entaramelaram-se-lhe os pingos. Ficou por chegar. Em seu lugar trouxe a manhã um cacimbar frio, cortante, e, com ele, a saudade da terra quente e distante, onde nasci e vive parte do meu coração de alma perdida num constante vaivém. Com ele também a saudade e um sentir de solidão.


Quadras da minha solidão

Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...
(Alda Lara, poetisa angolana. Benguela, 1930, Cambambe 1962)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Do Mwata - Políticos contam histórias infantis

“Contos Pouco Políticos” é o título de um livro de histórias infantis escritas por políticos de diferente matriz ideológica, como Ribeiro e Castro (CDS), Maria de Belém Roseira (PS) e Jerónimo de Sousa (PCP), entre outros, recentemente publicado.
Na apresentação do livro, alguns dos autores apareceram com os seus netos. Um deles, Jerónimo de Sousa, disse isto:

“Sou um avô contador de histórias. Contei-as às minhas duas filhas e agora conto-as aos meus dois netos. Umas vezes dos livros, outras de improviso. Com uma vida tão intensa, esta é uma das formas de atenção e partilha que temos.”

Gostei!
Até dá para acreditar que nem tudo está perdido no reino dos políticos. Não vos parece?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Do Mwata


Mais alguns dias, não tantos que não se possam contar pelos dedos das mãos e dos pés, mais alguns, e é Natal!
E depois?
Vá, digam.
E depois?
Bom dia, para uns; boa tarde, para outros; e para outros, ainda, boa noite!
Para todos, um abraço.
Que cada um responda à pergunta: E depois?


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Conversa minha (Monotonia)

Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim.”
(Bernardo Soares – Livro do Desassossego)
Ah, a monotonia!

Veio átono o dia que hoje chegou. Mudei o olhar, fugindo ao monótono. Na palma da mão detive-me em linhas que são minhas, as linhas da minha mão. Em tempos quiseram lê-las. Disse que não. Elas nunca seriam para outros o que são para mim. Para além disso, perscrutá-las é um acto íntimo, só meu. É por elas que se vão escrevendo e guardando pedaços de vida, que vida me vão dando e tirando. Por vezes embaraçam-se, é certo. Ocasiões há em que erguem tabuletas com sinais sempre, ou quase, indecifráveis. Em momentos de reflexão guardam segredos, ciosas. Noutros soltam-se, vadias, correndo em busca do que sabem ser uma quimera. Fingem, como o poeta. As linhas da minha mão não conseguem nunca libertar-se do que são – as minhas linhas da mão!
E agora, para onde vão elas? Insisto. Por estranho que pareça soltam-se-lhes palavras, palavras não vazias. Entendo que desatinaram, e, em tal desatino, desafinado me chamam.

domingo, 28 de novembro de 2010

O casamento (Memórias)

Na sanzala da família do amigo, de que o pai é o seculo, está marcado casamento. Aceita o convite. Mete-se à viagem. O Sol inclina-se cento e trinta e cinco graus para poente. Estar-se-á entre as três e as quatro da tarde. Os nimbos ao fundo prenunciam tempestade. Viajar em plena estação das chuvas por esta África escondida, longe das estradas alcatroadas, tem que se lhe diga, e muito mais para contar, quando o parceiro de aventura é um pequeno VW carocha, como aquela traquitana pintada de preto que ali vai galgando mato.
Há muito que se está a ver o quanto se esforça o carrito para transpor buracos e deslizar pela lama, às vezes em situação de equilíbrio instável na passagem pelos autênticos abismos que são os trilhos deixados pelos rodados pesados dos camiões nas picadas de lama. O carocha vence, chega ao destino. Vê, então, o que longe estava de imaginar.
Fora feito à terra o que ela mais gosta: dera-se-lhe amor.
Durante duas noites e dois dias, o mundo enfeitou-se nas terras do seculo. O chão à entrada das cubatas foi varrido, mas antes borrifado para assentar a poeira. A bicharada doméstica, cães incluídos, recolheu às cercas circulares de pau a pique e a outras clausuras.
No último dia as gentes do povoado churrascaram cabritos, galinhas cabiris, pedreses, algumas capotas, batata-doce e banana-pão. Cozeram mandioca. Bateram funge. Cozinharam feijão com óleo de palma. Apuraram muamba de pungo seco. Fizeram sopa de jimboa.
Refrescaram garrafões com marufo em poças de água da chuva entre o capim. Atestaram cabaças com vinho tinto. Ao sol-posto encheram com papaias maduras, fruta-pinha, sape-sape, caju e abacaxis, estes vindos de outros quimbos, pequenas quindas feitas de tiras secas de mabu.
Pela primeira vez, na história da sanzala, mãos negras amassaram farinha branca de trigo até todos os grumos desaparecerem, sem esquecerem a junção do sal e de fermento em pó, que ele oferecera ao amigo, e levaram o jimbolo a cozer num forno a lenha, escavado na terra com paredes de argila.
A matriarca, a mulher mais velha do seculo, em idade de apenas dar conselhos, não mais do que isso, pisou quitaba com caluqueta maduro bem picante, mais cahombo, destinada ao noivo por, na opinião dela, ser comida de pôr vigor no homem que vai casar! Depois de tudo aprontado, foram espalhados luandos pelo centro do terreiro da sanzala, e toros encostados como bancos corridos. Adornaram-se as mesas para o almoço, que seria jantar, ceia também, e, na manhã seguinte, mata-bicho.
Terminados os afazeres, homens e mulheres assearam-se em banhos no rio das choupas e dos cacussos, esfregando os corpos com sabão de óleo de dendê, por eles passando depois, a perfumá-los, pétalas e rebentos da floresta. Rasparam as plantas dos pés, os tornozelos e os cotovelos com seixos parecidos com pedra-pomes, ou talvez o fossem. Todos preparando-se a rigor. Com panos novos esmeraram-se elas no vestir, cada uma se ataviando com voltas de missangas ao pescoço. Para além destes ornamentos, as mulheres do seculo em idade parideira usaram também, nas pernas a caírem-lhes sobre os tornozelos, argolas de fios metálicos delicadamente entrelaçados, sinais da sua realeza, previamente esfregados com cinza e areia do rio, para se lhes avivar o brilho.
Depois rufaram tambores, percutiram-se marimbas, escutaram-se cânticos. Os noivos casaram, desapareceram num piscar de olhos, efeitos da quitaba, quiçá! A festa começou parecendo não mais querer acabar, o povo entrou na dança. Já a noite ia alta, com o céu vestido de estrelas, cansado do baile, sentou-se à beira duma fogueira, lado a lado com o seculo e a matriarca, sorridentes os três, bebericando marufo. Na manhã seguinte, ao dirigir-se para o carocha que o levaria de regresso, olhou para trás, fez um aceno, ouviu o seculo dizer "obrigado amigo". Não conseguiu evitar as lágrimas.

sábado, 27 de novembro de 2010

Do Viajante

Finalmente, ao cabo de duas semanas de árduo trabalho, o rio profundo e caudaloso, fora vencido. Concluíra-se a ponte de toscos troncos de árvores a suportarem as longarinas metálicas levadas do aquartelamento. À frente a anhara de capim alto ondulante e arbustos pouco mais que rasteiros, uns ao dependuro doutros, serpenteava, qual jibóia gigantesca, a caminho do horizonte. Dum e doutro lado, mata cerrada. A ordem era para avançar, deixando a picada.
Metros andados sob o capim alto silvaram as balas. Atiraram-se para o chão na fuga ao projéctil que pudesse trazer destino agarrado a um nome. Ergueu os olhos, buscando os homens. Viu vultos colados ao solo, confundindo-se com o chão lamacento. A seu lado estendido o furriel enfermeiro sussurrou-lhe não saber da arma. Olhou-lhe para as mãos, entre elas estava apenas, fortemente segura, a caixa dos primeiros socorros.
Cessaram os tiros, a emboscada fora levantada. Possivelmente seria montada mais tarde, noutro local onde a tocaia pudesse resultar melhor. Regresso à picada. Não havia baixas, mas um soldado estava em falta. Uma procura rápida resultou em nada. Passou-se para o inimigo, pensou. Era tempo de voltar para o aquartelamento.
À chegada grande alvoroço.
Um soldado negro, um cuanhama com ar aterrorizado, estava rodeado por outros que, vociferando, o ameaçavam por ter fugido. Era o soldado que lhe faltava no pelotão. Afinal não se passou para o inimigo, disse para si. Aproximou-se e perguntou-lhe: Porque fugiste? A resposta surgiu com palavras não hesitantes: Não gosto da guerra, meu alferes!
Ouviu a voz do capitão, a seu lado: Mande amarrar este homem e prenda-o na masmorra, irá a tribunal militar. Não, capitão, jamais prenderei um homem que não gosta da guerra! O capitão, jovem miliciano recém-chegado ao teatro de operações, olhou-o, olhos nos olhos, e retirou-se em silêncio.
A guerra continuou. Em cada saída o soldado cuanhama colocava-se ao lado do alferes, sem que voltasse a fugir. A comissão terminou. O pelotão não teve uma única baixa. No seu registo de operações não ficaram a constar mortes infligidas ao inimigo.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O "talvezeiro"

(Palavra em título roubada a Mia Couto)
“May be Man”, o texto cuja leitura vos proponho, escreveu-o Mia Couto, sobre Moçambique. Qualquer semelhança com a realidade portuguesa é mera coincidência.
“Existe o “Yes man”. Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar. O May be man vive do “talvez”. Em português, dever-se-ia chamar de “talvezeiro”. Devia tomar decisões. Não toma. Sim­plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um “talvez” não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio. A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no “yes”. É que o “may be” é, ao mesmo tempo, um “may be not”.
Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior. Sem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên­cia. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo­gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se “comissão”. Há quem lhe chame de “luvas”. Os mais pequenos chamam-lhe de “gasosa”. Vivemos uma na­ção muito gaseificada.
Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be Man, uma oportunidade de negócios. De “business”, como convém hoje, dizer. Curiosamente, o “talvezeiro” é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enqua­dra-se no combate contra a pobreza (…)
(…) O May be Man é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de-conta. Para um país a sério não serve.”
(Para a leitura integral do texto, façam o favor de ir aqui.)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Do Viajante

A primeira vez:

Estava prestes a meter-se pelo segundo sono. Um som indecifrável comichou-lhe os ouvidos, acordou-o. Abriu os olhos. Por instantes breves, viu uma imagem ondulante. Era a de uma figura de mulher, braços abertos, cabeça levantada, vestida até aos pés, a sorrir. Foi a correr lá acima, em busca do rosto daquele sorriso. Nada! Quando lá chegou já aquilo se tinha esfumado, desaparecido. Levantou-se. Na casa de banho banhou os olhos, a apagar o que neles pudesse ter ficado. Regressou à cama. Dormiu, sozinho, até de manhã.

A segunda:

Dias depois, ou dizendo melhor, umas noites a seguir, quase logo após ter pegado no primeiro sono, voltou o tal som, agora um barulhito agudo. Descolaram-se-lhe as pálpebras. Não, não, não estava lá nenhuma mulher, mas sim uma cabeça de homem e um par de braços, a querer abraçá-lo, assim lhe pareceu. Desta feita ergueu as mãos. Em vão. Só ao vazio elas chegaram. Não se levantou. Chamou a si lençol e o cobertor. Atirou-se ao sono e por lá se quedou até um raio da manhã ter entrado pela persiana mal fechada a despertá-lo, sem que outro importuno chegasse.

A terceira:

Agora mais de mansinho. O som franzino parecia um zunido. A imagem de uma mulher, sim de uma mulher de cachecol ao pescoço, sorridente (quase lhe viu os dentes, mas os olhos não, não estavam lá, só uns redondos escuros!), de braços alçados, vestida até aos pés como a da primeira vez. Esta pareceu-lhe mais adelgaçada. Tocar-lhe foi impossível, sumiu-se num ápice! Levantou-se, andou pelo corredor, virou à esquerda para a sala, ligou as luzes. Estava tudo no sítio. Ficou por saber o porquê de tal verificação. De que andaria à procura? A verdade é que o fez. Deu a volta ao interruptor, voltou para trás. Um arrepio roçou-se-lhe pelas costas. Viu se a persiana estava completamente fechada. Deitou-se. Mandou o frio às urtigas com o lençol e o cobertor, virou-se para a direita, pôs a mão desse lado debaixo da almofada e, antes de fechar os olhos, perguntou à vida:
- És tu que andas por aqui, ou é a tua irmã?

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Tempo do Poeta

Há poetas onde me encontro. Fernando Pessoa é deles o maior. Porquê? Se as palavras perguntam, também respondem. Talvez porque como a de Bernardo Soares, a sua leitura me desassossegue.
Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.
E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.
(Fernando Pessoa, “Novas Poesias Inéditas”. Lisboa, Ática, 4ª ed. 1993).

Como na poesia há prosas únicas. Proponho-vos, a seguir, a leitura do que sobre Fernando Pessoa escreveu José Saramago:

“Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um Camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um Camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa.(…)”
Aqui podem continuar a ler.
Um abraço para todos e bom fim-de-semana.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

José Saramago


Faria hoje 88 anos. Recordo-o com palavras da mulher com quem viveu os últimos 24 anos de vida, a sua viúva Pilar del Río:

“Saramago escrevia como se fosse um camponês: preparava a terra, adubava-a, limpava-a, semeava. Tudo a seu tempo, duas páginas por dia, sem impaciências, sem omitir um sulco, uma responsabilidade. Às vezes tinha que deixar descansar a terra, e então aproveitava para pôr em dia a correspondência com os amigos, tarefa nunca acabada, lia, relia, ia às escolas e às universidades que insistentemente solicitavam a sua presença, como em Mafra, apresentava livros em países que lhe eram mais próximos emocionalmente, militava, ainda que este militar, militar como cidadão, fosse, como o pão, coisa de cada dia. Saramago não desfalecia nunca, por isso os seus livros têm, como a espiga colhida, tanto para dar de comer. Que é uma necessidade de todos, comer, ler (…)”

Aqui poderão continuar a leitura.

sábado, 13 de novembro de 2010

Memórias

O nosso grupo das pescarias nas Palmeirinhas, aquele pedaço do Paraíso a Sul de Luanda, tinha um pisteiro, de nome Santana. Era um homem de idade muito andada com barbas branqueadas pelo correr do tempo e iluminadas pelo cacimbo soprado do mar. Casca das mãos rugosas de tanta vida fiar, pernas arqueadas e uma ligeira corcova nas costas. Cigarro de enrolar sempre nos lábios, com a ponta acesa virada para dentro. O amigo Santana, como ele queria que o tratássemos, era pai de muitos filhos, tantos que lhes havia perdido o número, avô de netos que os dedos de mãos e pés não chegavam para contar (dizia ele), e homem de muitas mulheres.
Nascido ao lado do mar, e abraçado a ele sempre ter vivido, Santana sabia da vida nas águas das Palmeirinhas como ninguém. Tal era o seu conhecimento, que o tinha como um ser abençoado e protegido pelos criadores do saber. Dele sabíamos, também, que não gostava de andar a correr atrás do tempo.
Ao nascer da noite, Sábado sim, Sábado não, lançávamos ao mar o barquito com motor fora de bordo e o Santana sentado à popa, de petromax na mão. Meia hora depois de cortados os caminhos do mar, o velho dizia “deita ferro”. O ferro era a âncora. Escuro como breu, nada víamos, mas ele dizia “aqui tem peixe”. E tinha! Lá vinham os roncadores, os parguetes e uma ou outra macôa. Quando deixava de dar, ouvíamos: “tira o ferro”. Levantando o braço direito com o petromax na mão, para que víssemos, indicava-nos novo rumo. Assim continuávamos até que ao amanhecer o Santana ordenava o fim da faina, proclamando ser tempo do mata-bicho. Abríamos o farnel, tirávamos umas cucas da geleira portátil e, dum saco especial, uma garrafa de vinho tinto, só para o nosso amigo não apreciador de cerveja. Ali sobre aquelas águas, avistando terra feita uma ténue linha ao fundo, embalados pela pequena e acariciante ondulação de um mar sem igual, nos púnhamos à conversa, saboreando um delicioso arroz de azeitonas.
Muitas perguntas fizemos ao nosso pisteiro. Poucas respostas nos deu. Um dia, fomos mais persistentes. Porquê que ele, uma espécie de soba da sua sanzala, por todos respeitado e obedecido, perdia uma noite de Sábado à pesca connosco, a troco de um farnel, uma garrafa de vinho e um pacote de tabaco de enrolar, nada mais querendo, por muito que oferecêssemos, incluindo dinheiro?
Porque, respondeu, com o jeito da nossa conversa não sou mais como a cola que quando seca ninguém mais lhe usa.


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Do Mwata


Momentos
Únicos!

Almoço de família. Mesa cheia. Ouve-se a voz do neto caçula:
- Quero fazer chichi!
Logo outra se escuta, a da prima mais velha, sentada a seu lado:
- Queres que te ajude?
Resposta do caçula:
-Não! A minha pilinha sabe fazer chichi sozinha!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Porque não?

No post aqui deixado pelo Mwata, intitulado NÃO, em que se fazia referência à greve geral do próximo dia 24, a Maria João, amiga muito estimada desde que cheguei à blogosfera, do blogue Pequenos Detalhes, de leitura imprescindível, imperdível (visitem-na …) deixou este comentário:
“Estou em todas as palavras, solidária com o seu pensamento.
A minha revolta cresce, dia a dia, na mesma proporção da indignação e do sentimento de injustiça.
Sou, portanto, pela manifestação colectiva deste estado de espírito e desta indignação, pois quanto maiores forem os gritos mais elevados e fortes os seus ecos.
O que não sei, no momento presente, é se esta manifestação deva ser feita debaixo de um protesto de greve efectiva ao trabalho. Porque independentemente das responsabilidades e culpas, o certo é que o país está em falência económica e, nesta conjectura, não me parece que seja essa a melhor forma de nos pronunciarmos enquanto cidadãos de um país que amamos tanto, apesar de tudo.
Porque não uma mega manifestação em todo o país, a um sábado ou domingo, onde as pessoas de cada freguesia, cada cidade, cada concelho, viessem para a rua gritar o quanto estão tristes, insatisfeitas e revoltadas com tudo o que lhes foi e será sonegado?”
Estou inteiramente de acordo. A greve geral, convocada pelas centrais sindicais, vai acontecer. Com que adesão, com que participação? Nunca o viremos a saber. Depois da greve seguir-se-á a costumeira e azucrinante guerra de números entre os sindicatos e o Governo. Pegando na ideia da Maria João, daqui lanço um apelo aos sindicatos, como fortes mobilizadores da vontade popular, e à sociedade civil em geral, para que depois da greve todos se empenhem numa mega manifestação, duma ponta à outra de Portugal, sem esquecer as regiões autónomas. Num Sábado, num Domingo, ou mesmo por todo um fim-de-semana. Deixemos as peregrinações aos centros comerciais, os passeios, as idas aos restaurantes, as tardes de cinema, o doce nada fazer do sofá, o recolhimento ao só, o encolher de ombros que tolhe e diminui. De braço dado com filhos e netos, outros familiares, homens ou mulheres, companheiros e amigos, percorramos o chão do País, gritando bem alto a nossa indignação, com cada um erguendo uma bandeira branca com a palavra NÃO.

domingo, 7 de novembro de 2010

Do Viajante

A Corrupção mata

"Dos seis mil milhões de habitantes do planeta, cinco mil milhões são pobres. Partindo desta realidade, cada vez mais associações se mobilizam, em redor da OIT e da UNICEF, para pôr fim a um dos mais revoltantes escândalos do nosso tempo e para exigir o direito sagrado de todas as crianças a uma vida decente.
Essas associações dirigem-se em primeiro lugar aos chefes de Estado e de Governo de todo o mundo. E verificam que, mesmo ao mais alto nível, vários desses dirigentes políticos, na altura da mundialização, se deixam apanhar pela febre do dinheiro fácil e da especulação, sucumbindo à corrupção
."

Li isto no blogue da São. Não pude deixar de pensar que a Humanidade continua violenta no seu caminhar, indiferente aos que sofrem, atirando para a morte, pela doença e pela fome, milhões de vidas. Em que saco irão cair apelos como este? Em Angola fui testemunha de situações que, lamentavelmente, continuam a ocorrer por todo o mundo. Deixo-vos à reflexão:
(…) Os 16 anos (1975 a 1991) do primeiro grande conflito armado entre os angolanos, deixaram o país exaurido e com o aparelho produtivo reduzido a zero. O três caminhos-de-ferro destruídos. A rede das rodovias alcatroadas, das estradas de terra batida e das picadas estava intransitável, por força do grau de destruição provocado por bombardeamentos, pela passagem das lagartas dos carros de combate e, ainda, pela erosão resultante da falta de assistência. E, porque ocupadas nos seus nós estratégicos de ligação, ora pelas FALA da UNITA, ora pelas FAPLA do MPLA, ninguém se atrevia a circular. A tudo isto acrescia a malha de minas colocadas em todo o País (portuguesas, sul-africanas, russas, cubanas e angolanas), barrando os caminhos que as populações percorriam a pé, nas suas trocas comerciais: as do Litoral com sal, peixe, óleo alimentar e sabão; as do Interior com produtos da terra e carvão. Estimativas da ONU apontavam para a existência de 10 milhões de minas. Uma por cada habitante!.

Foi então montada a mais gigantesca operação de abastecimento por via aérea do mundo. Recebidos de doadores internacionais e da Comunidade Europeia, alimentos e outros bens de primeira necessidade começaram a ser transportados regularmente para as províncias, em enormes cargueiros de fabrico soviético (Tupolev e Antonov) e norte-americano (Boeing). Registaram-se, durante semanas, 17 voos diários, com origem em Luanda, outros ocorrendo a partir do aeroporto da Catumbela, a Sul, entre Lobito e Benguela, aproveitando o desembarque, no porto do Lobito, de produtos doados.

Agências especializadas da ONU (PAM e UCAH) coordenavam os envios das doações, que eram entregues no destino a organizações humanitárias como a Cruz Vermelha e a Caritas. Estas, por sua vez, responsabilizavam-se por fazê-las chegar às populações carenciadas. Para custear o transporte de cada tonelada entre a entidade que a recebia e os necessitados, os doadores entregavam também 100 dólares. Contas da altura: transportando cada avião, em média, 20 toneladas, os 17 voos traduziam-se em 340 toneladas diárias, equivalente a qualquer coisa como 34 mil dólares. O que era feito com aquele dinheiro? Esbarrando em silêncios e sistemáticas indisponibilidades das fontes de auscultação indispensável (PAM e UCHA), resultaram frustradas quaisquer investigações. Foi-me apenas possível saber, junto das organizações humanitárias de destino, que estas nunca tinham ouvido falar de verbas para transportes.

Outra situação nada clara: a venda, em alguns mercados paralelos, de produtos de consumo, como leite, azeite, óleos alimentares, farinha, açúcar e sabão, em embalagens da ajuda humanitária. Visitei vários desses mercados, um deles no Huambo (antiga Nova Lisboa) acompanhado por dois elementos do PAM e por um oficial do Comando da Polícia local, a quem manifestei e minha estranheza e pedi uma explicação. Obtive sorrisos, encolher de ombros e um uníssono «foram roubados».

Ficou-me, para sempre, a certeza de fortes conivências das autoridades angolanas e dos agentes humanitários, na candonga dos bens recebidos dos doadores internacionais para os mercados paralelos, onde eram vendidos a preços que a maior parte das pessoas não podia pagar. E outra certeza: a de que a caridade internacional ajudava a engordar a fortuna de alguns, e a prolongar a agonia da morte de muitos outros. As denúncias que então fiz, nas minhas reportagens, de nada valeram. Tudo continuou na mesma (…)
(In Angola a Cultura do Medo, edição Livros do Brasil, 2002)


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Do Mwata

NÃO
O descontentamento, a revolta e a indignação são uma constante no quotidiano dos portugueses. Hoje, para subsistirmos, tornamo-nos subservientes da Europa dos poderosos e dos mercados. Impõem-nos leis, políticas e até o OE.
Se o hoje continuar como está, que amanhã teremos?
Há culpas portuguesas? Por certo que sim. A incompetência e a incapacidade da classe política que, de há décadas, tem estado à frente dos destinos do país são por demais evidentes para que possam ser negadas. Incompetência e incapacidade para se opor e controlar os abusos do poder económico e financeiro dos poderosos e dos sacrossantos mercados. Basta recordar, por exemplo, a destruição do aparelho produtivo das pescas e da agricultura que nos foi imposta, a troco de uns tostões, no tempo em que o actual PR era Primeiro-Ministro.
Culpas também nos pesam pelo medo, apatia e resignação do povo que somos.
E não só. Sobre nós pende o anátema da mesquinhez, da inveja, da insinuação, dos pequenos ódios. Dos especialistas do mal-dizer. Do regabofe do consumismo que nos cega. Da sedução pela corrupção. Queremos, creio, ser um povo de corpo inteiro. Mas querer ser não pode ser deixarmo-nos ir como um rebanho. Queremos ter o direito à opinião. Tenhamo-lo, sem nos aquartelarmos na exiguidade da indiferença, sem pensarmos que a dignidade se conquista com a renúncia à participação.
Há dias, no debate parlamentar sobre o OE, a deputada Manuela Ferreira Leite (ex-líder do PSD) defendeu a necessidade de “acalmar” os tais mercados que, na sua opinião, não devem ser atiçados já que, acrescentou, “quem manda é quem paga”! Virando-se para o Governo e para os deputados do partido que o apoia (o PS) prescreveu a terapia: “Finjam, finjam que estamos todos muito amigos”!
Quando o maior partido da Oposição, amanhã eventualmente no poder, entende que o grande milongo para os nossos males é o fingimento, o que nos resta? Dizer que não, certamente! Basta de hipocrisia!
As duas centrais sindicais (CGTP e UGT) marcaram uma greve geral para o próximo dia 24. Paralisar o país para dar um abanão nos políticos, despertando-os para a realidade, forçando-os a corrigir erros, é o objectivo. A esmagadora maioria dos portugueses parece estar de acordo com a greve, embora apenas uma minoria nela esteja disposta a participar, talvez por receio de represálias, ou, tão só, por mera fuga à responsabilidade de cada um, aquele permanente encolher de ombros, aguardando que outros façam por nós o que a cada um de nós cabe. O manifesto da indignação pode não ser gratuito, mas o não só será efectivo se colectivo for.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Prémio Dardos

«O Prêmio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc... que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, e suas palavras.

Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web».

Como referido na banda lateral desta minha cubata, já por duas vezes recebi o Prémio Dardos. Desta feita chega-me da Malu (Infinito Particular) e da Carla Farinazzi (pequenos barulhos internos). Vindo de quem vem não o podia recusar. A Malu é professora no Estado de São Paulo, Brasil. Os seus posts são de uma escrita elaborada e sensível, provocando-nos o comentário. Nem sempre o faço, porque, confesso, nem sempre me chegam as palavras para tal. Mas aqui digo à Malu, e a todos os que queiram ir visitá-la, que não perco a leitura de um único dos seus textos. Agradeço, sensibilizado, esta distinção que muito me alegra e honra. Obrigado, Malu.

As regras:

- Exibir a imagem do Selo no blogue;

- Revelar o link do blogue que me atribuiu o Prémio;

- Escolher 10, 15 ou 30 blogues para premiar.

Estando as duas primeiras já cumpridas, respeito a terceira:

http://mariaescrevinha.blogspot.com/

http://cronicasdorochedo.blogspot.com/

http://conversavinagrada.blogspot.com/

http://blogcronicasdateresa.blogspot.com/

http://mundocatso.blogspot.com/

http://beijinhosembrulhados.blogspot.com/

http://rubraacacia.blogspot.com/

http://pensasentimentos.blogspot.com/

http://lusibero.blogspot.com/

http://em-prosa-e-verso.blogspot.com/

http://euquicas.blogspot.com/

http://zambezianachuabo.blogspot.com/

http://agulheta.blogspot.com/

http://devaneios-marilu.blogspot.com/

http://naquintadorau.blogspot.com/

Podiam ser mais, tantos são os blogues a que reconheço qualidade, mas hoje fico por estes.

Um abraço a todos.

(À Graça Pereira (zambeziana) e à Fernanda Ferreira (naquintadorau): não consigo entrar nos vossos blogues para vos comunicar a atribuição do prémio. Esta impossibilidade é, aliás, responsável pela minha não presença nas vossas caixas de comentários. Continuarei a tentar)

domingo, 31 de outubro de 2010

Do Mwata

OE.

Para que não haja confusões, OE quer dizer Orçamento do Estado. Fica a explicação para que não surjam leituras, estranhas à boa linguagem, clamando que OE mais não é do que Ocidental (e lusitana) Estupidez.
Não é, não senhor! Veja-se a gritaria que por aí vai: Ufa, até que enfim há acordo!
A vaga habitual de analistas, comentaristas e politólogos (a mais recente estirpe dos faladores) alagou jornais, rádios e televisões. Todos, sem excepção, se extraviaram em jogos semânticos, anunciando vencedores e perdedores, azucrinando-nos o juízo. Tempo perdido, trabalho inútil.
Vencedor há apenas um. O leite achocolatado!
O PS do engenheiro José Sócrates, partido que apoia o Governo e que se diz de esquerda (gandas malandros!) sempre disse que o leitinho com chocolate era coisa para endinheirados. O PSD do Dr. Passos Coelho, partido de matiz neo-liberal, que se esgadanha contra o Governo, dizia que não, aquilo é um bem de consumo adquirido pela classe média, havia que não o subir de preço.
Entre os 23% de IVA pretendidos pelo Governo e os 6% exigidos pelo PSD, a vitória foi para os últimos. Ganhou o leite achocolatado!
Mexe aqui, toca ali, foi o acordo assinado, logo aparecendo o ministro das Finanças a gritar que o entendimento tinha aberto um buraco de 500 milhões de euros no OE. Não encontro no ministro características de alfaiate, quero com isto dizer que não estou a vê-lo pegar num pedaço de ganga de umas calças já muito roçadas, a um passo do lixo, e com ele remendar o rasgo orçamental. Como também não me parece que o ministro seja ser de fugir com o peito às balas (pelo menos até agora), não me custa admitir que nos próximos tempos andará por aí numa correria desenfreada à procura de um Norte que lhe traga a solução.
Tenha calma, senhor ministro. Não se afadigue.
A solução está à mão. Devolva um dos submarinos à senhora Merkel, sim, essa que quer ser imperatriz da Europa, tendo por bobo da corte o senhor Sarkozy, que toca piano e fala francês. Mete ao bolso os 500 milhões. O OE flutuará e Portugal também, nem que seja por uma ou duas semanas, logo se verá. Não se importe que digam submarino ao fundo. E depois? Pedimos uns dongos aos angolanos, não há salalé que lhes dê. Se a coisa der para o torto, não se preocupe, cá nos desenrascaremos. Não são os portugueses um povo desenrascado como não há igual?
Mas, pelo sim pelo não, não vá o diabo tecê-las, arranje aí uma quinhenta de jeito. Mande comprar uns coletes salva-vidas e distribui-los à rapaziada.
E agora, senhor ministro calce as pantufas, chegue-se à lareira e beba um leitinho com chocolate, bem quentinho. Deixe-se estar. Nas eleições que aí vêm escolheremos outros. Poderá, então, tirar a tal fotografia que queria ao lado do Dr. Catroga, o seu "adversário" nas conversações, ambos por nós colocados na reforma. Quando a um e outro perguntarem a profissão, responderão apenas: pensionistas.
Entretanto cá a populaça continuará no tinto carrascão, mesmo que lhe ponham 23% de IVA às costas.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Do Mwata

O OE e os cabelos brancos


Dizia o povo português: “Velhos são os trapos”.
Passando pelo tempo em que assim se falava, escreveu Saramago:

“(…) Velhos seriam, claro, mas não inúteis, não incapazes de meter a sovela no lugar certo do sapato, ou de guiar a a relha do arado com que andassem lavrando. A vida tinha uma coisa má: era dura. E tinha uma coisa boa: era simples. Hoje continua a ser uma coisa dura, mas perdeu a simplicidade (...)”

Os cabelos brancos não se entenderam. A vida continuará a ser ainda mais violentamente severa. No lugar dessa coisa tão simples que é a simplicidade, plantaram um nó de sarilhos.
E aqui chegado, deixo-vos com uma pergunta de Almeida Garrett:

“E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”

sábado, 16 de outubro de 2010

E agora?

Até quando?
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O PM comunicou aos autarcas da sua área política (PS) que as verbas para as autarquias vão ser reduzidas em 5%. Aos jornalistas, disse um dos autarcas, cito de cor: temos que cortar nas gorduras. Como sabem há deslocações em autocarros e almoços para idosos, de quinze em quinze dias. Isso custa dinheiro, vamos ter que cortar nas gorduras. Quem assim falou é presidente de câmara, tem à porta do município, para seu uso, um automóvel de fabrico alemão, quase topo de gama, com motorista às ordens. Porque não manda vendê-lo, bem como os dos vereadores, e comprar outros mais baratos? Porque não determina que dia sim, dia não (para que o emagrecer não seja brusco) ele e a vereação andem de transportes públicos. Com a poupança já não tinha que cortar os passeios e almoços dos idosos, que bem os merecem. E, já agora, uma linguagem de respeito para com os idosos não lhe ficava mal. Faltou-lhe o chá, em pequenino, está visto!
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Farinhas, margarinas e óleos alimentares vão ser taxados em 23% de IVA, o valor máximo do imposto. São três bens essenciais, senão mesmo vitais, na dieta alimentar de gente que vive no limiar da pobreza. Porquê tanta violência sobre os mais frágeis e carenciados?
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Uma sociedade livre, justa e solidária, com observância do direito à dignidade humana. É o que queremos. Em seu lugar, porém, vivemos no reino da hipocrisia. Os nossos dias vão sendo cada vez mais marcados pela impaciência e pela falta de respeito mútuo entre os cidadãos, que advêm de constantes ataques à ética e a preceitos morais nos diversos sectores do poder político tutelar do poder público e no poder financeiro tutelar do poder privado.
O desbaratar do dinheiro dos contribuintes, a par de uma violenta agressão tributária, alargam o espectro da fome e da miséria, numa ameaça, já realidade, de desestruturação das famílias.
Entramos numa era de caos, desordem nas instituições públicas e privadas, na família, na sociedade em geral. Confrange que o notemos, mas que apenas critiquemos, critiquemos, alheando-nos da consciência do papel que cada um de nós, por si e em conjunto, deveria desempenhar no resgate de sentimentos e comportamentos indispensáveis a um ideal de vida.
A crise não pode servir de desculpa. Não deve acomodar-nos ao encolher de ombros. Há que exigir justiça e verdade na gestão da coisa pública. Aos que governam há que exigir, sem tibiezas, que terminem com a ineficiência e a ineficácia do aparelho estatal, que ponham fim à corrupção e ao tráfico de influências, que deixem de ser capatazes de um latifúndio para amigos.
Os portugueses estão prestes a gritar viver para quê?!
Antes que o façamos, clamemos a nossa indignação. Não é necessário que sejamos super-homens, basta não deixarmos que o ruído das querelas político-partidárias dos que se dizem pertencer ao chamado arco do poder, abafe as nossas vozes.
Há que resgatar, quanto antes, o sentimento da esperança, fugindo à morte de desânimo pela vida.
E hoje, que o meu país assim está, com um PM que se chama José e um Pedro que PM quer ser, chegou-se-me à memória o poema José, de Carlos Drummond de Andrade. Extractos:

“E agora José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? (...) a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? (...) Com a chave na mão, quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou. (…) José, e agora? (...) Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja do galope, você marcha, José! José, para onde?!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Desafios

Partidas e chegadas...

O que faz você feliz?

Chamando-lhe brincadeira a Acácia Rubra convidou-me para este desafio. Convite aceite, resposta dada:

Entre partidas e chegadas sopram, por vezes, ventos desencontrados, horríveis. Terá sido, provavelmente, um desses ares agitados que fez das areias de Ogígia e dos braços e colo da bela nereida Calipso uma chegada para Ulisses. Chegada de que o mais sublime dos homens, como lhe chamou Eça, não gostou. Sete anos, para ele longos e vazios, partilhou, forçado, o leito da ninfa do mar dela recebendo um amor quase divino, um bastão de príncipe dos povos e a promessa de vida eterna. Nada o fez feliz. A tudo reagiu com uma indiferença persistente. Perdeu o fulgor. Enclausurou-se em si próprio, passando o tempo de olhar perdido na distância. Calipso não conseguiu arrebatar-lhe o coração.
Ulisses desejava uma outra partida para uma nova chegada. Assim aconteceu. Sete anos depois partiu de regresso a Ítaca para a chegada feliz, finalmente, aos braços da sua amada Penélope.
Entre as muitas chegadas e partidas porque passou, só a chegada ao amor o fez feliz!
Estou com Ulisses!
E as minhas amigas e amigos?

(Dizem as regras para copiar o selo e colocar o link do blogue desafiador. Já feito. Por fim passar o desafio a cinco blogues. Quebro a regra. Acho o desafio interessante. Assim, lanço-o a todos os que por aqui passarem. Vá, peguem nele e dêm largas à imaginação. Ah, outra regra, se aceitarem o desafio devem vir comunicar-mo. Valeu?)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

É tempo

É tempo de percebermos que políticos, salvo excepções que disso não passam, banqueiros e economistas não vivem senão o sentido doente porque o mundo e eles próprios caminham.
É tempo de nos libertarmos da confusão entre o que nos faz falta e o que querem que desejemos. De virarmos costas ao engano.
É tempo de entendermos que políticos, banqueiros e economistas são homens vulgares, mas que dentro de cada um deles pode existir um homem fatal.
É tempo de nos precavermos, de nos deixarmos de ir atrás.
É tempo de, um a um, nos irmos ensinando a ser o povo que queremos.
É tempo de abrirmos a janela ao vento revolto.
É tempo de passarmos a ser.

domingo, 10 de outubro de 2010

Perguntando


Este Domingo
10-10-10
Dia 10.
Mês 10.
Ano 10.

Como vamos de superstições?
E de crenças?

sábado, 9 de outubro de 2010

Do Viajante

(Consultas a serem comparticipadas pelos Serviço Nacional de Saúde, que há quem queira implantar em Portugal)
Um abraço e bom fim-de-semana para todos.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Do Mwata

A Kuxingila

São já muitos os caminhos andados por Paulo à procura de Sabrina. Com ele deambula também André, o seu amigo negro, pisteiro de caminhos difíceis, pesquisador de destinos.
Hoje, entram numa sanzala onde Paulo conhece um soba de carapinha branca, homem de grandes ciências, diz-lhe André, a que, porque é sábio, juntou outro, o da sua matriarca, a kuxingila que anda sempre de saquito de pele de bambi à cintura, cheio de poderes mágicos como pós de fumo e cheiro e um manipanço, e vazio de ilusões, estas, coisas para ela desconhecidas. A velha, porque de mulher antiga como a vida se trata, aparece-lhes enrolada num pano das cores da mata em redor, com o tal saquito pendurado numa trança de mateba envolvendo-lhe a cintura, voltas de missangas ao pescoço, que parecem rir ou chorar, consoante o ângulo de que se olhe para elas, de onde se dependuram, também, dois dentes de javali, e argolas feitas de fios metálicos, entrelaçadas em pele de um qualquer bichano do mato, do tornozelo até meio das pernas.
De entre todos na sanzala é com ela que têm de falar, pois só ela conhece o tempo certo em que os pós de fumo devem queimar para que os chamamentos resultem, não se falando, é bom dizer-se, da sua capacidade de mezinhar para atrasar a ida do corpo para as terras do sono sem despertar, e das palavras raras, para outros segredos, de seu conhecimento exclusivo, quase em desuso no mundo que se conhece, e sem as quais não há madjau ou mariábu – como por ali chamam aos sortilégios –, que valham.
Sentada num cepo à beira do crepitar de uma fogueira, a matriarca ouve o que André lhe transmite na língua falada por ambos. Adquire uma postura de estar perdida, provavelmente não isso, mas achada noutras paragens. Só as mãos se lhe movem lançando pós para as chamas dançantes.
Ao vê-la assim, sabendo já o que sabe, Paulo pergunta a André, se ele acredita que a Kuxingila tem, de verdade, arte para chamar e usar poderes.
- Ché, meu irmão! Não sei se acredito. Te juro sim que os mais velhos falam que ela tem uma data de sabedorias, que não faz nada à toa, que é mesmo capaz de andar de ligações com um ser que tudo sabe – um ou mais, agora sou eu que te digo, sei cá!
- Então, André, não é mesmo uma quinhenta de conversa fiada?
- Ué! Para quê saber tanto? A nossa África não gosta que lhe perguntem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Fotomaton

A República apaga as velinhas do bolo.
O tempo pôs-se a caminho. São cem, os anos percorridos…

“A globalização é um totalitarismo. Totalitarismo que não precisa nem de camisas verdes, nem castanhas, nem suásticas. São os ricos que governam e os pobres vivem como podem.”
(José Saramago)
“Aos ricos, o favor da lei, aos pobres, o rigor da lei.”
(José Saramago)

Retrato do meu país, em fotomaton, tirado hoje depois das cerimónias do centenário da República:

Políticos incapazes e um povo indiferente…

(Para que não haja mal entendidos, ou quaisquer distorções – SOU REPUBLICANO)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Presente!

O porquê do silêncio.

Os seguidores e leitores do Conversas Daqui e Dali ter-se-ão, eventualmente, interrogado sobre o silêncio a que me remeti desde o dia 25 do mês passado, data do meu último post, bem como sobre a ausência nas caixas de comentários de cada um. Alguns já me enviaram mails a quererem saber. Porque como amigos virtuais vos tenho, devo-vos uma explicação.
Não desertei da blogosfera. Se, porventura, tivesse pensado em desistir do blogue, tal vos teria já comunicado. Sucedeu, apenas, que um contratempo, um transtorno de saúde, já ultrapassado, me bateu à porta. Não tendo sido nada de por aí além, a verdade é que os meus neurónios se meteram por um lapso do tempo, correndo a aconchegar-se no repouso. E por ali ficaram como bonecos articulados a que de repente se tira a pilha – paralisados! Nem um ténue feixe de energia lhes encontrei para vos ir visitar e dizer um olá que fosse.
Passado que está o percalço aqui estou. Presente!
São muitas as visitas por fazer, mas a partir de hoje voltarei aos vossos blogues, reiniciando, igualmente, a edição de posts.
Sei, pelo contador de visitas, que muitos por aqui têm passado. A todos muito obrigado.
Um abraço.

sábado, 25 de setembro de 2010

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Do Mwata

Outono

Na terra linda, menina e morena, do mar da Kyanda, que os homens tão mal viriam a tratar, raiava o dia mais lindo dos dias de Cacimbo. Foi quando, naquele lugar sem Outono, o deixaram para nascer. Rápido se fez adolescente, que a parca o tempo para ser menino lhe roubou. Mais rápido, ainda, conheceu o andar de homem com que se pôs a percorrer as picadas da vida, sem nunca o Outono ter conhecido.
Um dia, outras paragens o chamaram. Para elas foi, levado por um equinócio.
Terra estranha! Cinzento era o céu, embora, a espaços, por ele espreitassem olhos azuis. O ar perscrutava, cirandando num vento frio e húmido, mordendo-o por dentro da roupa, gretando-lhe os lábios. Por isso, quiçá, deu-se ele a pensar, as pessoas não andavam como na terra da sua nascença, mas corriam dum lado para o outro, parecendo apressadas em chegar. Aonde? Provavelmente, a lado nenhum, vá lá saber-se!
Árvores de troncos e galhos despedidos do verde, humedecidos pelo chorar das nuvens, tendo por chão não terra e capim, mas tapetes de folhas amarelecidas, viu pela primeira vez, surpreso. Daquele chão, feito húmus, subiram-se-lhe odores só agora sentidos, aconchegando-se-lhe como aromas de um tempo novo. Diferentes, é certo, mas igualmente aprazíveis, dos das terras vermelhas e quentes molhadas pela chuva, deixadas para trás. Ao partir da tarde, agasalhou-se, deixando o coração liberto… Assim se entregou à chegada do sono.
Na manhã seguinte viu o Sol pintar o céu com azul de matizes mil, e dar luz aos cinzentos e brancos da terra, trazendo, também, um braçado de frio fino. O dia cresceu com amarelos e outras cores por si vistas pela primeira vez. Cores de uma paleta nova, que ele não sonhara existirem, dando vida a gentes e coisas, tirando-as das sombras. Por elas se encantou.
No repousante recanto da noite, antes do novo leito de amor o ter chamado, aprendeu a escolher as pinhas, a caruma e a lenha para acender a lareira de onde se libertou, qual mimo de mãe, calor acariciante. E ao borralho disseram-lhe toma, come, é uma castanha assada, quente e boa, e bebe, é vinho do porto. O que fez a um tempo, logo perguntando que tempo é este? Outono, responderam-lhe.




segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Do Mwata

Aberturas e Fechaduras

Ali por baixo, na base do monte onde na praia-mar as águas largam o espumar de zanga das ondas, vê um tridente apontando. Segue o sinal, que o conduz até à boca duma caverna. Sendo, embora, o que não parece, depara-se-lhe uma porta fechada. A um dos lados, na pele curtida de um qualquer bichano apanhado numa saída incauta das profundezas quentes da terra, está escrito: Casa do Demo, encerrada para obras. Não force a entrada. Volte daqui a sete dias.

Respeita a recomendação, dá meia volta, segue encosta acima. Ao entardecer, queixam-se-lhe os pés do farto e duro caminhar. Encosta-se a uma rocha, nascida de dentro do mato. Em frente descobre um portal. Da soleira desce uma placa de pechisbeque, segura por um cordão de mateba. Nela lê: deuses em retiro, não perturbe. Tente no próximo milénio.

Resignado deita-se, aninhado sobre si próprio.

Acorda-o uma manhã de sol promissor. Deita mão ao seu bordão de caminhante. Parte em busca do pico da montanha. Passa anos entre tempestades e bonanças. Vagabundeia por planícies vazias. Vence medos. Vive silêncios. Vê nascer e morrer o Sol, a Lua, e as estrelas. Descansa em sombras de confiança. Encontra gentes de cuja existência jamais suspeitara. Aprende outros falares. Conhece diferentes sentires e viveres. Não crendo que a terra seja maior do que ele próprio, prossegue. Chega, finalmente, sendo certo que, onde a terra termina, começa ele agora, conquistador, erguendo-se, olhando em redor. Nada havendo a dizer-lhe que não, abre a porta meio escondida entre nuvens.

Numa estopa meio esfarrapada, talvez fruto de maus-tratos de mãos por si passadas, tombada num chão de cascalho solto, lê, a custo: vedada a entrada a humanos.

domingo, 19 de setembro de 2010

Recordar Saramago

“(…) Diz-se que o mal não atura, embora, pela fadiga que traz consigo, pareça às vezes que sim, mas o que nenhuma dúvida se tem, é não durar o bem sempre. Está um homem em suavíssimo torpor, ouvindo as cigarras, não foi a comida fartura, mas um estômago avisado sabe encontrar muito no pouco, e além disso temos o sol, que também alimenta, eis senão quando ressoa a corneta, se estivéssemos no vale de Josafá mandávamos acordar os mortos, assim não há outro remédio que levantarem-se os vivos (…) “
(in Memorial do Convento, edição exclusiva do Círculo de Leitores 1988, pagina 213)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Palavras emprestadas

Tenho procurado por elas. Avaras, escondem-se. Umas, em terras e mares distantes deste mundo. Outras, num dongo vazio no fundo dum rio que deixou de correr. Vi algumas, mas quando as chamei mostraram-me uns olhos cansados. Fugindo ao encontro seguiram num caminhar tímido e arrastado, sem sequer um adeus, um sorriso que fosse. Dobraram a esquina, não olhando para trás. Então, porque sem palavras estou, peço emprestadas:

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
(Vinícius de Moraes)

Um bom fim-de-semana para todos.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Do Mwata

A teia
Numa noite lenta, dormindo sem sono, caminhou pelas margens de um sonho, de dentro do qual um vestido comprido, e, no interior deste, um corpo nu olharam para si.

Sendo já muzangala, entendeu que não, não era cedo para se pôr a pensar no que é isso de ser homem de ter mulher. Deste pensar falou ao Mwata, seu confidente de intimidades, quando estas se lhe chegam. Ouviu:
“O amor nasce espontâneo, como os trevos, o caluqueta, ou a erva da pedra para o chá dos rins, entre o capim, mas, tambula, a felicidade não vem com ele. Felicidade é coisa da gente fazer com cuidado para não avariar.”
E continuou:
“Quando um homem e uma mulher se ligam, não é por uma corrente só, um cabo. Nada disso. São vários os baraços, da alma e da consciência, a uni-los, terminando cada um deles, de um e de outro lado, em pontas finas, frágeis, que é preciso ir reforçando com o tempo, pois por elas entram e saem as forças da vida, as cores da felicidade, a compreensão, a partilha, a verdade, o afecto, a amizade, o carinho, os segredos comuns e a fidelidade.
Parte-se uma daquelas pontas e é um problema. Se pelo fio passar o carinho, este volta para trás, transforma-se em azedume, por vezes em ódio; se for a linha do afecto, ele recua do mesmo modo, transfigura-se em ciúme, desconfiança. A verdade passa a artimanha, a fidelidade a silêncios, e assim sempre sendo. As pontas de que te falo, uma vez desfeitas, não se conseguem atar de novo, perdem-se. Deslaçadas todas, acaba-se tudo. É aqui que a felicidade sofre danos e se avaria. Os dois separam-se, ficam afogando-se. A seguir bate o disparate e o arrependimento mordendo com dentes de víbora venenosa.
Entendes?”
Disse que sim. A partir dali fez, com desvelo e saberes que foi aprendendo, um novelo de fios das sedas de que o Mwata lhe falou. Quando um dia a encontrou, com ela teceu a teia da sua felicidade, uma casa grande onde as portas não rangem e os postigos não batem. Uma teia que todas as noites luzes descidas dos céus vêm beijar.