quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Do Mwata

Outono

Na terra linda, menina e morena, do mar da Kyanda, que os homens tão mal viriam a tratar, raiava o dia mais lindo dos dias de Cacimbo. Foi quando, naquele lugar sem Outono, o deixaram para nascer. Rápido se fez adolescente, que a parca o tempo para ser menino lhe roubou. Mais rápido, ainda, conheceu o andar de homem com que se pôs a percorrer as picadas da vida, sem nunca o Outono ter conhecido.
Um dia, outras paragens o chamaram. Para elas foi, levado por um equinócio.
Terra estranha! Cinzento era o céu, embora, a espaços, por ele espreitassem olhos azuis. O ar perscrutava, cirandando num vento frio e húmido, mordendo-o por dentro da roupa, gretando-lhe os lábios. Por isso, quiçá, deu-se ele a pensar, as pessoas não andavam como na terra da sua nascença, mas corriam dum lado para o outro, parecendo apressadas em chegar. Aonde? Provavelmente, a lado nenhum, vá lá saber-se!
Árvores de troncos e galhos despedidos do verde, humedecidos pelo chorar das nuvens, tendo por chão não terra e capim, mas tapetes de folhas amarelecidas, viu pela primeira vez, surpreso. Daquele chão, feito húmus, subiram-se-lhe odores só agora sentidos, aconchegando-se-lhe como aromas de um tempo novo. Diferentes, é certo, mas igualmente aprazíveis, dos das terras vermelhas e quentes molhadas pela chuva, deixadas para trás. Ao partir da tarde, agasalhou-se, deixando o coração liberto… Assim se entregou à chegada do sono.
Na manhã seguinte viu o Sol pintar o céu com azul de matizes mil, e dar luz aos cinzentos e brancos da terra, trazendo, também, um braçado de frio fino. O dia cresceu com amarelos e outras cores por si vistas pela primeira vez. Cores de uma paleta nova, que ele não sonhara existirem, dando vida a gentes e coisas, tirando-as das sombras. Por elas se encantou.
No repousante recanto da noite, antes do novo leito de amor o ter chamado, aprendeu a escolher as pinhas, a caruma e a lenha para acender a lareira de onde se libertou, qual mimo de mãe, calor acariciante. E ao borralho disseram-lhe toma, come, é uma castanha assada, quente e boa, e bebe, é vinho do porto. O que fez a um tempo, logo perguntando que tempo é este? Outono, responderam-lhe.




9 comentários:

MARIINHA disse...

Olá Carlos,
Meu visitante número 50.000. Ontem não esperava que fosse assim, mas não há dúvida que apesar da hora marcada ser a mesma o primeiro comentário postado foi o seu. Obrigado por passar pela Mansarda e por ter colaborado.
Agora quanto a este seu post,gostei muito. Eu gosto do Outono,especialmente das suas cores, das folhas caídas, das vindimas e das castanhas assadas.
E até do ar fresco,que sabe bem depois de tanto calor.
Um abraço

Rogério Pereira disse...

Este outono, contado assim, parece a primavera da vida...
Mais uma vez, parece um retrato meu com uma pequena diferença: eu não precisaria de preguntar em que tempo estava...

Abraço

rosa-branca disse...

Olá amigo, adorei o seu Outono, embora goste dos tons do mesmo o Outono dá-me nostalgia... recordações de outros Outonos que chegaram mesmo a ser Invernos da vida. Beijos com carinho

Sheila disse...

Que beleza Carlos ,brindar com o vinho do Porto,as alegrias trazidas pela chegada do outono em nossos corações e em nossas vidas, que bela visão da estação,pois é
quando desabrocham as mais belas flores e juntamente com elas os mais belos sentimentos.

acácia rubra disse...

O lá e o cá num (des)equilíbrio entre Outonos.

Como sempre um texto lindo cheio de sensibilidade, poesia e arte de narrar.

Beijo

Fernanda disse...

Querido amigo Carlos!

Aqui estou e estarei como dantes... consiga ou não entrar no meu Blog!!!
Mudei de template, descarreguei-o o mais possível e agora ninguém se queixa...
Lamento a sua "ausência" mas entendo-a!

Os seus textos são sempre admiráveis, este, até me fez gostar duma estação do ano da qual não sou particularmente fã.
Eu sou mais da Primavera e do Verão.

Gostei do calorzinho da lareira, das castanhas e do Porto.
Nos dias mais frios e cinzentos, enterro-me num sofá instalado perto da lareira com o meu livro do momento e um dos meus licores caseiros ou um bom "Old Tawny Port".
Assim, sim... consigo ver o sol nas chamas que dançam nos meus olhos.

Amanhã vou à vindima do meu tio António(irmão do meu querido e já falecido pai)em Santo Amaro. Lá passarei o dia com toda a família...somos muitos! Será, como sempre, uma festa.
Bola de sardinhas de farinha milha e cabidela de frango caseiro, com vinho da Quinta.

Beijinhos amigo e bom fim de semana.

A.Tapadinhas disse...

O seu texto é, formalmente, e pelo conteúdo, muito apelativo para a minha imaginação.

Transmite-nos as sensações de uma paleta com as cores dos nossos sonhos.

Talvez por isso, me tenha tocado de uma maneira tão especial. Parabéns!

É um privilégio ler os seus textos!

Abraço,
António

maria teresa disse...

Mais um texto que me leva a percorrer veredas das minhas memórias, ao lê-lo a minha imaginação solta-se e caminha por um espaço infinito e intemporal....
Abracinho

TERESA SANTOS disse...

Donde se concluir que o Outono tem sempre qualquer coisa de mágico. Quer por terras do mar da Kyanda, quer por outros "mundos" onde ele também exista.
Abraço, meu Mwata.