domingo, 6 de Dezembro de 2009

Até já!

Até já!

É chegado o momento.
Avanço na busca do meu outro eu, que deixou de reparar em mim, e se perdeu seguro a um silêncio calado, dorido. Hei-de trazê-lo e, com ele, os dias de novo nítidos, amanheceres renascidos, palavras com voz. Hei-de, afinal, trazer este nada, que é o meu tudo!
Estou a caminho de um internamento para ser submetido a uma cirurgia, a primeira de duas que terei de fazer, e que me reterá no hospital por quinze dias, provavelmente. Vou, já com saudades vossas. Sentirei a falta de todos, Amigas e Amigos.
Conto regressar ao vosso sempre desejado convívio a 22 ou 23, a tempo, ainda, de convosco consoar. A todos um abraço. Mais não vos digo porque…, desculpem…
Até já!

100 Seguidores!



100 Seguidores!

Nascido num dia do último Abril o meu e vosso blog, entrou, gatinhando, no oitavo mês de vida. Existência curta, ainda desabrochando, mas já com 100 Seguidores! Há quem não ligue a isto. Não é o meu caso. Estou feliz, vaidoso e agradecido!
Quantos, chegados daqui e dali, entraram, porta dentro, por cá ficando à conversa! Conversa de bem, em fala de amigos. Palavras deixadas, não para enfeitarem, mas para dizerem, umas vezes concordantes, outras não, mas sempre largando a semente do conhecimento, que se foi acumulando, e da amizade, que despontou.
A todos, Amigas e Amigos, o meu abraço de gratidão por me terem vestido com o orgulho de estar entre vós, por me estarem a enriquecer com a vossa amizade.
Permitam, agora, que aqui coloque mais um dos prémios que recebi, bem como um selo assinalando o aniversário de um blog amigo.
De: Renata Maria Parreira Cordeiro - http://blogrenataeuedai.blogspot.com/, dizendo assim: "Para o irmão Carlos." De: Elaine Barnes - http://nasasasdacoruja.blogspot.com/

Como se diz na terra onde nasci, um kandandu muito grande para todos.

sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Barbas

O avô, por parte da mãe, o outro nunca o conheceu, era um artífice da vida. Reformado da Companhia das Águas, criava canários e jardins encantados. Num mar de gaiolas, na varanda traseira, moravam os cantores, alimentados também com gema de ovo cozida e pingos de Vinho do Porto, para que, dizia ele, a cantoria fosse mais sonora e afinada. Nos jardins da frente cresciam cravos, rosas, dálias, amores-perfeitos, e outras flores de cores invulgares, matizadas, que ele apurava com enxertias delicadas.
Lembra-se de o avô o levar a passear por entre as plantas cujas corolas, sorridentes, pareciam ter vida, quase falavam! Por vezes, quando o passeio acontecia já à noitinha, julgava ver estrelas a bailarem sobre as flores. Ele era menino, mas sabia, de um saber só dele, que aquilo era magia saída das mãos incansáveis do avô. Nunca lhe viu cansaço, o mais certo, pensava ele, é que o avô vivia o cansaço a sós. Assim, aprendeu a fúria de sonhar.
O reformado era um homem feliz, pai de muitos filhos, avô de inúmeros netos. Quando lhe falava ficava pregado às suas palavras. Escutava-as com avidez. Foi dele que um dia ouviu:
- O mais importante da vida é a felicidade, temos é que ser dignos, e não a deixar avariar!
Na quadra natalícia o avô mudava de afazeres. A consoada era em sua casa. No quintal das traseiras, sob um tamarindeiro lá residente, que enfeitava e iluminava, pondo-o a fazer de Árvore de Natal, não se esquecendo da Estrela nem do Presépio, mandava montar a mesa, acrescentada com umas tábuas sobre barris, para que toda a família coubesse. Não o largava. Acompanhava-o nas suas andanças da mesa para a cozinha, e desta para aquela.
O avô espreitava as travessas das rabanadas e das filhoses, os pratos da aletria, do leite-creme, e as terrinas das sopas de cavalo cansado. Perguntava se já tinham chegado a batata-doce, a mandioca, as mangas e os abacaxis, e se também havia cajus. Destapava a panela onde fervia o bacalhau, provando a água com o dedo, a ver se o peixe fora bem demolhado. Chamava a atenção para que as couves e os ovos não cozessem demais. Depois, enquanto outras mãos recheavam a mesa, deixava junto aos pratos dos netos, como era de seu costume, rebuçados e chocolates. Ainda dizia para a avó, não esqueças que o que hoje não for comido ficará para a roupa velha de amanhã.
Em celhas encostadas ao tamarindeiro mandava colocar as bebidas, refrescos para os gaiatos, outras para os adultos, tudo coberto com pedras de gelo. Sentada a família, era o último a tomar lugar, à cabeceira.
Iam consoando. Um pouco antes da meia-noite notava que a cadeira do avô ficava vazia. Lá foi ele outra vez, pensava. Então, alguém gritava chegou o Pai Natal! Traquina, desalinhada e aos gritos, como o avô a gostava de ver, a meninada saltava das cadeiras.
De trás do tamarindeiro, que também fazia a vez de chaminé, surgia um senhor alto, de bata e capuz vermelhos, com uma barba branca quase até lá abaixo, arrastando um saco de serapilheira, enorme. Sentava-se num banco, ali aparecido sem que se tivesse apercebido, saco entre as pernas. Tocava uma sineta. Punha-se a chamar a miudagem pelos nomes, entregando prendas. E era um rasgar de embrulhos, pinotes, e uma algazarra que chegava à rua. Pouco depois, por cima do barulho, ouvia-se a voz forte do avô, então meninos, vamos acabar a consoada. Voltava à mesa e via, de soslaio, que o senhor do capuz vermelho, bem com o banco, tinham desaparecido! No tamarindeiro a estrela brilhava, de lampadazinha às costas.
De regresso a casa, abraçado às prendas, sentado no banco de trás do velhinho Chevrolet de seu pai, ia pensando, eu sei, eu sei quem é o Pai Natal!
Hum… mas o meu avô não tem barba!



(Participação no desafio Natal da Fábrica de Letras)

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

O meu país não é cinzento

Não há muitos dias, li na coluna de “opinião” dum jornal diário, qualquer coisa como isto (cito de cor): …este é um país triste, cinzento e, ultimamente, até mal frequentado… Não digo, por pudor, o nome do jornal nem do autor de tais palavras.
É certo que a fome e a miséria ainda cá estão, que os cuidados de saúde continuam por chegar a todos, que o desemprego está onde está, que o vendaval do desentendimento, que se abateu sobre a Educação, tarda em desaparecer. Que nos tabuleiros do xadrez da Justiça os reis avançam nus, as rainhas meio despidas, e os peões, esses ,vão ardendo e tombando como pedras de dominó.
É certo que à maioria dos políticos, no poder e na oposição, falta um olhar para ver e um ver para reparar, como diria Saramago. Deste estar certo nasce a tristeza, é verdade, mas brota, também, a esperança de que a tristeza deixará, um dia, de o ser. Assim saibamos afastar os profetas da desgraça, que enxameiam os media, e peroram, alguns, no Parlamento, regando a terra com sal e vinagre, matando a semente antes que dela brote o porvir. É gente de coração enrugado, de alma mirrada, de espírito tacanho, que se esconde atrás do medo e da inacção, gente de que não gosto. A gente do meu país, ressuscitado numa madrugada de Abril, não é assim. Aquela é invasora, vinda do passado.
Cinzento, o meu país!?
Não, não é. Passe o cinzentismo de alguns que se arvoram em pensadores e educadores das massas. A juventude já de mim se despediu! Agora, vejo os jovens do meu país, alguns incertos, inseguros, não nego, mas muitos deles, senão a maioria, agarrados ao sonho, ao fulgor com que querem escrever o futuro! Riem, choram, revoltam-se, interpelam, questionam, exigem, apontam! Eles são as sementes germinando na terra fecundada com o húmus das estrelas. Sei que eles não querem que o meu país volte a mergulhar na noite escura em que, por décadas, o enjaularam. Bem hajam os jovens do meu país, que lhe dão cores vivas e quentes. Com eles reaprendo o caminhar e a esperança!
Ultimamente mal frequentado!
Não, não, e não!
Que alegria me dá, quando saio à rua, cruzar-me com gente de outros povos, de uma cor de pele que pouco tem a ver com a que nasci, de sorrisos e risos diferentes, de trajares exóticos, dum jeito de estar que não é o meu, de prantos e orações desconhecidas, de certo linguajar que mente e fala verdade! Que, como a minha, rouba, esconde, e até mata! Que alegria me dá ver essa gente por cá, pelo meu país! Com ela aprendo outros pensares, outros sentires, nem todos me agradam, é certo, mas o que é verdade é que fico mais rico! Mal frequentado foi, de facto, o meu país, durante quase cinquenta anos, mas isso a História já guardou.
Perigos!? Por certo. Mas não foi viajando pelo perigo da aventura que a minha gente de então dobrou o Bojador e deu novos mundos ao mundo, lançando-lhe o fermento que o fez crescer? E não foi com as suas lágrimas que o mar se salgou e ficou como hoje o temos e dele gostamos? Venha, venha mais gente para o meu país! Quero vê-lo continuar a erguer-se por entre perigos e aventuras. Como diria Ulisses, se aqui estivesse, quero que o meu país não deixe de procurar as imperfeições perfeitas.
Prefiro o perigo, a viver só na noite obscura das mentes que erguem fronteiras, que matam a liberdade, que tolhem o pensamento, que calçam botas remendadas.

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Vestida de gente

Chega vestida de parca, guarda-chuva e luvas, a minha manhã.
Deixou o Sol envergonhado recolhido atrás das nuvens, como chamazita tremelicando com o frio da noite passada. Vem por entre o chapinhar da chuva. Não de água, forte, mas de gotejar fino que, pacientemente, e batido pelo vento, tudo molha, não só os tolos.
Sol envergonhado ficou dito.
Pois está. Com que timidez o vejo a querer sair das nuvens! Agora, finalmente afoito, desvia-se dos pingos que caiem, põe um calor acariciante na minha janela, que a Lúcia Lima, os caluquetas, o bambu e o Ficus muito agradecem.
Até me viram as costas, pondo as folhas a olhar lá para fora, de tão inebriados estão!
Acreditasse eu, e diria que se meteram à conversa com o Sol e a chuva. Estarão, provavelmente, eu é que os não entendo! Hoje, porque ainda ontem, bem me lembro, respondi às perguntas que me fizeram. Sim a água tem as vitaminas, as folhas amarelas já as tirei, e os galhitos secos também. Nem as deles nem as minhas foram palavras inúteis. Percebi que lhes matei os desassossegos.
Os habitantes da minha janela têm traços humanos, provocam estranhas sensações. Talvez por isso tenham decidido fazer, hoje, o que fizeram!
Arrependidos? Afigura-se-me que sim, pelo menos os caluquetas, os mais faladores deles todos, estão para ali aos gritos.
- Anda cá, vê!
Escapado das nuvens um raio de Sol leva-me o olhar até lá abaixo. Cruzam-se, vindos de pontos diferentes, dão vida às ruas, procuram o quente das pastelarias ou do “take away”, uns apressados, outros não, parecendo quererem levar a chuva pela mão. De pata alçada um canito rega o pneu do carro do vizinho, não tarda chegará a vez do meu!
Afinal, a minha manhã veio vestida de gente!

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Os meus selos

Hoje é dia de continuar a pôr ordem na casa. Os selos acumulam-se, há que os colocar antes que os meus amigos me tenham por um mal agradecido. Mais alguns, que recebi com carinho e amizade.
De http://babyvelvet.blogspot.com/

De http://miuikablogspotcom.blogspot.com/


De http://naquintadorau.blogspot.com/
De http://eu-rabiscando.blogspot.com/



Com um grande abraço, agradeço a distinção.

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Saudade da saudade

No andar das minhas saudades abre-se uma clareira, um espaço sem caminho, uma terra a que faltam chão e céu, em que ar não há, para onde uma se escapa e se perde. É a saudade do que nunca verei, das palavras que ficarão por dizer, do sono que não terei, do sonho que não virá. Da tristeza, sempre saudosa dos instantes felizes.
É a saudade das flores que nascerão, sem que as veja, dos rebentos brotados, da dor que me não magoará. Do olhar reluzente em que deixarei de mergulhar. Das carícias de mãos de veludo. Dos murmúrios e sussurros, que ficarão por escutar. Da vidraça da janela do meu olhar. Do colo do meu descanso e aconchego. Da Lua e das estrelas, espreitando noites de amor sob as casuarinas sopradas pela brisa nascente nas águas da Kyanda.
É a saudade de outras saudades, inquietas e agitadas, mas também de meiga e profunda ternura. É a saudade do mar e rios porque nadei na minha infância, do mundo que mudará sem que o veja. Duma véspera que chegará sem amanhã. Da embriaguês com os odores da terra vermelha beijada pelo choro das nuvens. Das tempestades vencidas.
É a saudade da escola, da fisga de caçador furtivo, das correrias por aventuras loucas, do gesto destemido, na guerra, a segurar a paz, do assobio reunindo amigos, da ximbica aprendida. Da rebeldia. Do grito da Liberdade. Do encontro com a consciência. Das fogueiras crepitantes, dos merengues nas rebitas mussequeiras. Das denguices requebradas das meninas do baile, do calor enleante das esteiras. Das sementes encantadas de tamarindo, do beijo da pitanga. Da ardência dos caluquetas.
É a saudade de ausências e presenças, do meu outro eu, companheiro de muitas andanças. Do relinchar dos cavalos à solta do meu espírito. Do choro da solidão.
É a saudade do barro que um dia amassei, moldando o amor com que vivo, no arco-íris da minha tribo.
É a saudade desta saudade fugitiva, que, num dongo sem leme, me leva para anoiteceres e alvoreceres desconhecidos.

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Viu o Pai Natal


O Natal está a germinar.
E ele, ali, a soprar poeiras acumuladas, que ao soltarem-se da caixa de memórias, lhe lembram sabores de quando era menino. Escrevinhador desajeitado mergulha nas águas que lhe chegam do passado.
A cozinha perdeu a solidão. Lhe encheram de gente de fazer tarefas.
Rabanadas bóiam sobre o óleo que as frita. No alguidar a farinha molhada recebe o fermento, o seu tempero de crescer para a massa das filhoses. Fazem-se as sopas de cavalo cansado com vinho tinto de garrafão de capacete, canela e açúcar. A aletria e o arroz doce, com caracóis de canela a enfeitá-los, estão já em pratos e tigelas. Limpa-se o bacalhau demolhado, separam-se as couves apanhadas no canteiro do quintal, fatia-se o repolho, lava-se a mandioca e a batata-doce, que a quitandeira vendeu, o alho lhe tiram a casca, a pimenta lhe pisam, a farinha de milho lhe cozem, o leite-creme lhe queimam o açúcar por cima.
Mãos, com o saber da mãe, escolhem os ovos, não vá algum trazer pinto!
Ele num vaivém, soltando suspiros gulosos a que ninguém cede, nem a lavadeira que está ali, de filho às costas, a preparar, como só ela sabe, a quiquerra e a quitaba. A jinguba já lhe seleccionou e torrou, e pôs, para um lado, o montinho do mascavado recebido do Caxito, para outro, os caluquetas e a farinha de pau, preparos necessários.
O peru marina, mas é para amanhã lhe assar.
Lhe fecham a porta da cozinha! Lhe vedam, com duas vassouras cruzadas sobre a pá do lixo, o caminho para a senhora que lava a roupa, hoje não, que está de fazedora de delícias! Ó gente! Monandengue sofre!
Não há curva que consiga fazer. Enfia-se no quarto procurando a maior meia. O que veio a meia aqui fazer? Santo desconhecimento! É a meia, que logo mais à noite, quando tudo estiver arrumado na sala fechada para a consoada, irá pôr, não na chaminé, que a não têm, mas no forno do fogão. Explica. A meia é para a encherem de prendas.
Já estão à mesa, ao fundo a árvore com a estrela no cimo e as luzes piscando, ele de dente fisgado numa rabanada, que lhe sabe melhor que o bacalhau (são gostos!). É quase meia-noite. Não espera. Sem mesmo pedir licença (no Natal perdoa-se) salta da mesa e vai direitinho ao fogão.
Curioso! Está de porta aberta, nunca antes o tinha visto assim! Espreita. De dentro sai um senhor de longa barba branca, com um barrete vermelho e uma meia gorda nas mãos. Olha-o. Nele vê um sorriso de luzes brilhantes, a cintilarem nuns olhos que lhe parecem a Lagoa do Kinaxixe. Antes que desapareça, ainda o ouve dizer: t’acreditas?
Agarra na meia, tão gorda que pesa, e corre, alvoraçado, para a sala, aos gritos:
Vi o Pai Natal, vi o Pai Natal!
O gira-discos canta Jingle Bells, Jingle Bells…