sábado, 22 de dezembro de 2012

Bom Natal


Escrevedura de 2009, reeditada com alterações
Um repente sacudiu-me, despertou-me, e vi-a chegar. Não me pareceu uma estrela entre estrelas. Provavelmente, nem estrela seria. Mas que se despegou do manto tricotado a luzes, lá em cima, e veio rodopiando pelas encostas do céu, cá para baixo, é verdade!
Tive-a, sentada, a meu lado. Perguntei-lhe ao que vinha. Cumprir uma ordem, disse. Uma ordem? Que ordem? Uma ordem, e basta, replicou, seca.
Não são muito de fiar, as estrelas que falam. Desconfio que aquela, pois que fosse estrela e não um qualquer objecto desassossegado e perdido, sem nome, seria a do anúncio do nascimento de um Menino, a querer dizer-me que vai ser Natal. És tu, não és? Carregou-se-lhe o olhar, crispou-se-lhe a face. Disse não dispor de tempo para conversas, a noite poderia esgotar-se rapidamente. Não desfez a minha desconfiança.
Falei-lhe que não, que não queria que nascesse outro Menino, o fizessem crescer e depois o pregassem vivo a uns paus cruzados, ali o deixando até a morte o desamarrar da dor e do sofrimento. Não, insisti, já bastam os milhares de outros meninos e meninas que todos os dias morrem de fome, pregados aos braços de mães moribundas. Não, teimei, já bastam os milhares de outros meninos e meninas que, todos os dias, as guerras mutilam, aniquilam. De outros milhares, que todos os dias são atirados para as ruas apodrecidas da prostituição, ou devorados pela pedofilia predadora. De outros milhares diariamente acorrentados a trabalho escravo. De outros milhares a quem todos os dias põem armas na mão, maquinando-os para o mal, dizendo-lhes vão, vão matar.
Não, não quero que faças nascer outro Menino! Não quero que ergas mais cruzes.
Quero que ensines os botões de flor a sorrir, o mar a cantar e o vento a embalar sonos livres. Quero que mates a fome, cures a doença, pares a guerra e apagues a violência. Quero que não roubes almas, mas lhes dês forma e beleza, as enchas de valores e as forres de Natal. Quero que cuides de todos aqueles meninos e meninas, e não faças nascer outro Menino. Quero que corras, com o chicote que já usaste, as mentiras dos homens. E, não te esqueças, corre com a canalha, o bando de más consciências, que tomou o poder no meu País.
Sem me olhar e nada dizer, cabisbaixa, envergonhada me pareceu, a estrela regressou. Foi, por ali acima, esconder-se por detrás das nuvens de portas fechadas.

5 comentários:

São disse...

Apesar de tudo, o Natal simboliza a alegria e a esperança que sempre acompanham a vinda-à-Terra de uma criança!

Quanto às coisas feias, Amigo, que infelizmente lhes acontecem por crueldade ou indiferença, continuemos a nossa luta para que não fiquem impunes quam as pratica.

Para si e para os seus, Carlos, com todo o carinho desejo um Natal com amor e paz e um 2013 que não seja tão mau como aquele que nos estão preparando.

Abraço estreito

folha seca disse...

Caro Carlos Albuquerque
Depois deste texto que subscrevo (se me permitir) só lhe posso deixar um grande abraço e já agora um bom Natal, tenha para si o significado que tiver).
Rodrigo

rosa-branca disse...

Meu amigo, até as estrelas sentem vergonha da falta de consciência de muita gente. Gostei do texto. Desejo-lhe um feliz Natal com muita saúde, paz e amor. Beijos com carinho

Janita disse...

Caro Carlos Albuquerque.

Nesta minha ronda pelos blogues amigos, não poderia deixar de visitá-lo, ainda que a hora um pouco tardia. Amanhã o dia vai ser de maior azáfama e, por tal, aqui vim hoje.
O texto é daqueles que nos faz reflectir e que o Carlos tão bem sabe escrever e tocar-nos fundo.

Desejo, para si e sua família um Santo Natal, com a esperança que 2013 seja o melhor possível, dentro dos sacrifícios que nos impõem.
Deixo-lhe um abraço com amizade, Carlos.

Janita

Rogério Pereira disse...

De 2009 até agora, ou até mesmo de antes dessa data, não há outro destino para as estrelas... ir por aí acima, esconderem-se por detrás das nuvens de portas fechadas...

De qualquer forma, um Bom Natal é coisa que pode acontecer e eu espero que lhe aconteça