domingo, 31 de maio de 2009

Cogitações (Comer automóveis)




Coma
um
automóvel!




A notícia tem uns dias. Em Espanha, o governo oferece 1.500 euros a quem comprar carro novo. Poderá chegar aso 2.000 se as autarquias de residência dos cidadãos acrescentarem 500. Algumas, como a de Madrid, já disseram que não estão para isso. Objectivo da ideia do Governo: apoiar a indústria do sector, a passar, como muitas outras, por dias difíceis trazidos pela tal crise global desencadeada por patologias mórbidas que infectaram os sistemas financeiros e as economias, a partir da ganância, avidez e ausência de escrúpulos made in United States of América.
O executivo castelhano ter-se-á inspirado, ou não, vá lá saber-se, no livro “El hombre que compró un automóbil” do escritor, humorista e critico galego, Wenceslao Fernández Florez (1885/1964). Um diálogo extraído do livro:
“ A tua decisão de comprar um automóvel parece-me plausível – disse Garcés – e honra-te muito que a tenhas tomado. Os automóveis são as pernas dos homens modernos. Se não tens um automóvel não és nada. Não te envergonha ser um pobre peão?
- Sim; às vezes envergonha-me – balbuciei.
- Naturalmente. A Humanidade considerou sempre como um estigma o ter que andar a pé, e desde os tempos mais remotos procura redimir-se disso, ora montando a cavalo, ora movendo as alavancas de um avião, ora afrontando o ridículo em cima de uma bicicleta. Se andas a pé és um pária. Falta-te, desde logo, algo para seres um homem do teu tempo. Completa-te com um automóvel”.
Em nome da defesa de milhares de postos de trabalho assegurados pela indústria automóvel, como por outras, torna-se cada vez mais necessária a mão interventiva e fiscalizadora dos estados por muito que isso possa parecer, aos neo-liberais de lucros sempre garantidos, uma via socializante, uma afronta ao capitalismo. Mas haverá, certamente, outras formas de o fazer que não a de se andar por aí a dar dinheiro às pessoas para comprarem automóveis novos, em mais um apelo ao consumo desenfreado, que já levou as famílias a estarem como estão, com a corda na garganta! E é certo e sabido que a carne é fraca e a tentação grande.
Que dirá um qualquer dos milhões de cidadãos do mundo que não tem a que deitar a mão para comer, tecto para se abrigar, cavalo para montar, avião para viajar, bicicleta para pedalar, e muito menos um automóvel na malga da sopa dos pobres, quando a há e lhe pode chegar, só lhe restando pés para andar?
No mundo inumano que se anda a construir à mesa farta de uns quantos, a Zapatero, Berlusconi, Sarkozy, e outros, não haverá Wenceslao Fernández Florez que lhes valha!
Ainda nos vai restando algum alento para, apesar de tudo, olharmos com ironia e até com algum humor para o que nos rodeia.


Não tenho na minha biblioteca o livro de Florez. Dei com ele ao passar pelo blog A Cova do Raposo, cujo autor contactei e : "por suposto, podes reproducir o que queiras".

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O Pensador (Que fazer?)



Domingo na Praia Norte


Ali está o mar

a abrir portões

não sei para onde

Bravo, indomável, doce e fagueiro quando para tal lhe dá. Molha terra rochosa, de piso áspero, com gentes como outras quaisquer.
Olho-o. Indigno-me, encrespo-me como ele. Fica-me o corpo em pedra-pomes.
Grito, no meu silêncio, à espera que as pedras, ali atrás, escurecidas e enrugadas por sóis, ventos, águas e noites ao desatino, façam eco.
Mas não! O som, no silêncio, por mudo se fica.
Regresso às águas. Foram elas, as ondas de espuma branca, a razão do meu clamor por me terem mostrado restaurantes cheios de gente com marcação, outra à espera; ali almoçam quatro por um quarto do salário mínimo nacional; noutros, um inteiro não chega.
Levanta uma gaivota, desfaz-se uma onda. E agora, diz o mar, amansando as vagas, estás a ver ali? Pessoas, muitas, arrumadinhas em filas à espera que abra o novo shoping para o lotarem, consumindo, gastando, numa orgia sem fim. E, sabes quanto ganha um, ou uma, operador de caixa numa daquelas coisas, mesmo nas daquele que aparece na televisão todos os dias, sim, esse que fez uma operação ao estômago em Paris? Arroxeavas-te de vergonha!
Repara agora, insiste o Atlântico: vês os stands? Só utilitários, não é? Os outros? Os topos de gama (posso dizer assim, ou preferes que diga de luxo?) foram-se, já os compraram.
No Algarve, no México, em Cuba, na República Dominicana, e mesmo em sítios por descobrir, está tudo esgotado.
Escuta. Agora passa pelas rádios, televisões e jornais. Escândalos por todo o lado. A banca…a banca…! Só um está preso! Mas, então, as notícias não falam de fraudes e de outras falcatruas, jogos escuros, negócios fora da lei, nesta, naquela e naqueloutra instituição bancária, no tal sistema financeiro?
E nos centros de saúde? Isso mesmo, aí, tratam-te como perro. Perdoa mas o vocábulo espanhol soa-me mais brando, não quero ferir-te os ouvidos, já basta o que te vai carcomendo o coração e enegrecendo o espírito. Por isso é que o Benfica é terceiro, em espanhol. Dói menos e o Quique recebe euros e palmas, em português.
E os pedófilos? Viste-os condenados? Na Casa Pia continua o regabofe, troam as notícias. Aquilo está infectado até à medula. A ex-provedora gritou fechem-na! Para ela, porém, ouvidos de mercador.
Uns senhores jovens, outros não tanto, vão todos os dias às televisões. Há crise, dizem.
Alguns, à parte, mais andados na idade, uns meio gagos, outros com as palavras a enrolarem-se-lhes na boca com espuma branca de saliva a colar-lhes os lábios, proclamam com ar professoral que daquilo (crise) sempre houve. E continuará assim: os ricos aumentam a riqueza e os pobres a miséria. No meio fica o mexilhão destapado, que se lixe! Isto sou eu que o digo, com palavra menos cuidada.
Ah! E ali no banco emissor? Não querem os administradores, que já ganham mais do que os seus pares na América, aquela dos Estados Unidos, a tal do Obama, aumentos e retroactivos dos mesmos?
A gaivota, lá de cima, grita-me bem alto: nas ruas, nas ruas, tens visto? São aos montes, polícias, professores, operários, agricultores, estudantes, abastados disfarçados de o não serem (dá jeito para engrossar as massas), indigentes, sei lá que mais, numa gritaria, que se ouve muito mais do que a tua, a pedirem que saiam ministros, que o governo vá para cura lá fora e por lá fique. Nos passeios patrões a aplaudirem. E nas saunas dos health, vês quem lá está? A banda dos políticos lamechas, a fazer que desintoxicam para depois se meterem a dizer mal uns dos outros, especialmente dois – ambos com um par de óculos. Giram e giram, maldizendo-se, a pegarem-nos fogo à razão.
E chegam os bombeiros com a história da menina russa.
A ave, baixa, pousa num calhau perto de mim, olha-me de frente e glotera a meia voz: ajuda-me, não sei que fazer, tenho o compromisso de jantar todos os dias com um desempregado, mas já passam do meio milhão. Faltar-me-á, por certo, vida para tanto, o que vou eu fazer?

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Leituras (A História da Papisa Joana)



Releitura







Há livros que nos chegam às mãos porque alguém os leu, gostou, e decidiu que seria uma boa oferta. É o caso deste que recebi como presente da minha filha, fazia eu anos, em Agosto de 2008. Li-o. Escolha e oferta acertadas. Agora, quase um ano depois, voltei a ele.
Escrito, sob a forma de romance, pelo professor universitário mexicano Arturo Ortega Blake, com obras literárias premiadas internacionalmente, narra a história de Ioannes Angelicus a única Papisa registada na história eclesiástica. Diz a editora (Ambar) que “…seja realidade, mito ou lenda, é apaixonante a história de uma mulher que se disfarçou de homem e a quem chamavam João, o Angélico, pela beleza do seu rosto e o seu olhar luminoso. Governou a Igreja durante dois anos depois do Papa Leão IV (847/855), mas a sua ascensão foi precedida por uma vida difícil, cheia de riscos e aventuras. Nascida na Alemanha no século IX, foi vendida pelos pais a um circo de onde fugiu, refugiando-se num mosteiro beneditino, onde estudou disfarçada de monge. A partir daí, o seu percurso levou-a a Atenas, Bizâncio, Nápoles e Roma, prosseguindo os seus estudos e aventuras, até chegar ao mais alto cargo da Igreja Católica”.
Não é a editora a afirmá-lo, mas uma pesquisa minha: segundo uma lenda que circulou pela Europa ao longo de vários séculos, Joana foi a única mulher a governar a Igreja Católica durante dois ou três anos. A maioria dos historiadores modernos e estudiosos religiosos considera-a como uma figura fictícia, possivelmente originada numa sátira anti-papal.
Voltando ao livro que nos revela a bárbara, inumana e grosseira Europa do século IX como se lá tivéssemos ido, em viagem pelo tempo, e, simultaneamente, a história atribulada da Igreja tantas vezes manchada de sangue inocente, acompanhamos o percurso de Joana e o seu encantamento pelo bizantino Mustafá por quem se prende de amores e com o qual mantém uma relação íntima para toda a vida, tendo-lhe um dia dito: “São opostos os nossos mundos, mas são cativantes”.
A história acaba com a morte de Joana, depois de coroada Papa Ioannes Octavus, curiosamente o nome, Ioannes VIII, do primeiro Papa assassinado e não feito mártir, de acordo com os registos históricos. Joana morre ao dar à luz um filho de Mustafá quando, numa manhã de Abril, encabeçava, com o bordão papal na mão, uma procissão que saíra da Basílica de São Pedro para o Palácio de Latrão em Roma. Abraçada pelo seu amado Mustafá, diz-lhe, antes de morrer, enquanto tocava no menino recém-nascido: “Não me custa morrer, custa-me é deixar-vos”.
A gravura reproduzida foi retirada da Wikipédia

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Visitas ao blog





Porque será?

Verifico, pelo Sitemeter e pelo Feedjit, que visitantes acorrem a este blog. Andam por aqui, lêem e, alguns, sobretudo de fora de Portugal, até o colocam em páginas da Internet, a abrir em posts que lhes mereceram, provavelmente, particular atenção. Recorrendo ao Feedjit é fácil constatá-lo. Ainda bem que o fazem pois assim dão-lhe projecção para além deste espaço. Só peço que mantenham a identificação de autor e não copiem.
O que me surpreende e me desgosta, confesso, é que aqui não deixem comentários sobre leituras feitas, ou a darem-me conhecimento directo dos links para a Net.
Porque será?

Leituras (A Viagem do Elefante)





O Regresso
de
José Saramago

São muitas, e desejadas, as obras de Saramago na minha biblioteca.
Esta foi a última a chegar




Li com gosto, como sempre acontece com tudo o que me vem do autor, a viagem de um elefante indiano de Lisboa até Viena de Áustria. O paquiderme, Salomão de seu nome, foi prenda de casamento do Rei de Portugal D. João III, o Piedoso, e de sua mulher Catarina da Áustria, Rainha de Portugal e infanta de Espanha, a seu primo Maximiliano, arquiduque de Áustria, naquele tempo a viver em Espanha (Vallodolid), como regente do reino, no palácio do Imperador Carlos V, seu sogro, que era, também, irmão de Catarina.

O bicho lá foi, não sem antes, num cercado em Belém onde estava guardado, o terem lavado com uma escova de piaçaba de cabo comprido, do lixo acumulado por dois anos, num país que o trouxera da Índia mas que não sabia o que fazer com ele, enquanto a rainha Catarina, invejava a sorte do animal por este ir gozar a vida para a cidade mais bela do mundo, ficando ela “entalada entre hoje e o futuro, e sem esperança em nenhum dos dois».
Quando o apresentou Saramago considerou o livro um conto, e não um romance, porque, “lhe falta o que caracteriza em primeiro lugar um romance: uma história de amor – o elefante não conhece uma elefanta no caminho – e conflitos, crises”.
Para o autor A Viagem do Elefante é uma metáfora da vida humana: “ este elefante que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena, morreu um ano depois da chegada e, para além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas”.
Acrescentou: “Quando uma pessoa se põe a pensar no destino do elefante – que depois de tudo aquilo acaba de maneira quase humilhante, aquelas patas que o sustentaram durante milhares de quilómetros são transformadas em objectos, ainda por cima de mau gosto – no fundo, é a vida de todos nós. Nós acabamos, morremos, em circunstâncias que são diferentes umas das outras, mas no fundo tudo se resume a isso”.
Seguindo o narrador criado pelo autor, andar por A Viagem do Elefante foi, para mim, acompanhá-lo no olhar irónico e sarcástico sobre o mundo, na crítica política, social e religiosa da sociedade, enquanto, ao mesmo tempo, me dava conta dum manifesto de compaixão solidária com as fraquezas humanas observadas.
Andei, com a pena observadora e critica do narrador, pelo passado, presente e futuro, vendo com ele, de entre outras coisas, a acção de estrangeiros que, onde quer que estejam, gostam de se sentir em casa. Um dia no Algarve, previu-me ele, “ toda a praia que se preze, não é praia mas é beach, qualquer pescador fisherman, tanto faz prezar-se como não, e se aldeamentos turísticos, em vez de aldeias, se trata, fiquemos sabendo que é mais aceite dizer-se Holidays’s village, ou village de vacances, ou ferienorte”.

Que José Saramago possa, ainda, escrever mais.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Entrevistas (Dr. Marinho Pinto)

Bastonário
sem papas
na língua



No dia 22 de Maio, o Bastonário da Ordem dos Advogados, Dr. Marinho Pinto, foi entrevistado no Jornal Nacional da TVI apresentado por Manuela Moura Guedes (MMG), mulher do Director-geral daquela estação, José Eduardo Moniz (JEM).
A dada altura o entrevistado acusou a apresentadora de não fazer perguntas mas sim afirmações e condenações sumárias, acrescentando: “…este é o péssimo jornalismo que você faz. O que você aqui faz é um espectáculo degradante…”
Vamos ver e ouvir:

No dia seguinte, JEM foi ouvido pelo jornal Correio da Manhã. Defendeu a mulher e apontou: “ as palavras do bastonário não são dignas de uma pessoa com as responsabilidades que ele tem”. Quanto ao que disse a mulher, silêncio!
O Correio da Manhã ouviu também o Dr. Marinho Pinto: “Lamento que não haja respeito pelo valor do jornalismo e pela estação de televisão, pelos profissionais, pelos convidados e pelos espectadores. Porque um jornalista a sério nunca se prestaria a manipular os factos, a construir uma tese acusatória”.
Um parêntesis:
Recuando um pouco recordar-nos-emos do tempo em que MMG apresentava diariamente as notícias na TVI tendo, em determinado dia da semana, a seu lado Miguel Sousa Tavares para comentar os acontecimentos, o que este fazia, dizendo o que pensava, e não o que queria a mulher de JEM. Um dia aquilo deu para o torto. Miguel proclamou, em directo, que ela o não deixava falar e acabou-se! Chegaram os espanhóis da PRISA à TVI. MMG deixou de apresentar mas, pouco tempo depois, o marido recolocou-a no ecrã, dando-lhe o Jornal Nacional de 6ª feira. No lugar de Sousa Tavares sentaram Vasco Pulido Valente! Foi, e é, o que se tem visto!
Outro parêntesis:
Numa presença na SIC Notícias (antes de 22 de Maio), como comentador, o antigo bastonário da Ordem dos Advogados, José Miguel Júdice, acusou o Dr. Marinho Pinto de populista e demagogo mas, ao mesmo tempo, fugindo-lhe a boca para a verdade, de ser um homem inteligente, provocador e corajoso. Para Miguel Júdice o actual Bastonário pretende, com o seu comportamento, perfilar-se como próximo candidato da esquerda às eleições presidenciais contra Cavaco Silva, o que para ele é preocupante!

Tudo se começa, agora, a perceber. Porque foi dado o Jornal Nacional de 6ª feira a MMG que, em tempos idos, já depois de casada com JEM, passou pela política como deputada pelo CDS-PP de Manuel Monteiro e, depois disso, pela publicidade anunciando um detergente para máquinas de lavar roupa; porque trocaram Sousa Tavares por Pulido Valente, e por aí fora.
O Dr. Marinho Pinto diz as verdades com coragem e frontalidade. Tornou-se incómodo para certa gente. Por isso alguns se apressam a tentar desacreditá-lo. Mas, ao que parece, e graças ao descuido de José Miguel Júdice (terá sido?) o tiro está a sair-lhes pela culatra.

sábado, 23 de maio de 2009

Arte (Exposição no Pavilhão de Macau - Loures)





Presença
da

ARTE




Sábado.

Almoço de aniversário da mais velha da nova geração da família.
Depois, passeio pelo Parque da Cidade e ida ao Pavilhão de Macau para ver a exposição Desenho, Pintura, Escultura. Mostra organizada por Virgínia Ferreira (o seu a seu dono), professora de Oficinas das Artes da Escola Secundária Dr. António Carvalho de Figueiredo, de Loures, com o apoio da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia da cidade. Os trabalhos expostos são todos de alunos, elaborados ao longo de mais de uma década. Dois da Sara, irmã mais nova da aniversariante
Sara Albuquerque (2009)
Sofia Fernandes (1995)

Ana Ventura (1995)


Valeu a pena.
Lá nos deixámos envolver por percepções, emoções e ideias, em manifestações estéticas de talentos muito jovens, ali postas, em boa hora, pela escola, professora, alunos e autarquia. É o traço arrojado do pincel, a criatividade da composição, a leitura do estado de espírito pelo lápis, a moldagem da parafina, a escultura em pedra ou metal, enfim, tudo a ameigar-nos.
Outras haverão, certamente, pelo país. Por muitas que sejam, mais deveriam ser.
Esta, do Pavilhão de Macau, mantém-se aberta até 30 de Maio.





sexta-feira, 22 de maio de 2009

Eleições (Parlamento Europeu)


Parlamento Europeu



Leio jornais, vejo e ouço as televisões.
Não gosto do que me chega. Votar? Para quê?
Não, não ouvi nada, “só aquele gajo de óculos” (DN, 17 de Maio de 2009).
E, já noutro contexto, também vejo e ouço gente a dizer mal de tudo e de todos. Está-nos no sangue, mas há-de mudar.
Caramba, bolas, que raio!
O que foi preciso fazer-se para chegarmos à liberdade do voto sem medo. Até uma revolução com cravos numa madrugada de Abril! Se não se lembram peçam a quem não esqueceu para dizer como era.
É certo que, quase sempre, aqueles em quem votamos goram as nossas expectativas. É verdade que os eleitos mal se sentam na cadeira do poder, seja na Assembleia da República, no Governo ou no Parlamento Europeu tendem a esquecer-se. Olham para o lado, assobiam, encolhem os ombros e mandam as promessas às malvas. Mas é igualmente verdadeiro que alguns já vão silvando pouco, começam a olhar em frente, mexem menos as espáduas e recorrem, vez por outra, ao livro do prometido.
E nós?
Se os que lá pusemos nos deixaram mal, peguemos no voto e mudemo-los, sem deixar que nos pisquem os olhos. O voto não é um cheque passado a alguém ad eternum. Ouçamos os que se candidatam. Depois é escolher o que se aproxima do que pensamos e desejamos.
E se falharem? Continuemos, continuemos. Tanto os havemos de mudar que hão-de aprender! Não é verdade que água mole em pedra dura tanto bate até que fura?
E, depois, quem não participa não tem o direito de criticar ou de dizer que ouviu “aquele gajo de óculos”. E, outro depois, não vamos querer dizer aos filhos: ajudei a mudar isto. E que eles digam aos deles ainda mais e melhor? Por exemplo: este país é o meu!
7 De Junho – eleições para o Parlamento Europeu. Vamos lá. Aquilo é importante. Estamos na União Europeia. Cada vez mais os estados membros dependem das leis da União e se moldam por elas. Quanto mais deputados ali tivermos a pensar como nós (podemos dizer da nossa cor, recorrendo ao léxico partidário), mais a Europa será a que quisermos e, por arrasto, o país também. Então não vale a pena? Claro que sim!
Não vamos ficar em casa a ver à noite pela televisão e a dizer para a parceira (ou parceiro): já viste aquela cambada?
A propósito recorde-se que a primeira presidência do Parlamento Europeu foi exercida por uma mulher eleita em 1979 (manteve-se até 1982): Simone Veil (na fotografia, Wikipédia), uma política francesa de ascendência judia que, enquanto ministra da Saúde no seu país, elaborou, em 1974, e fez aprovar, em 1975, a lei que despenalizou a interrupção voluntária da gravidez em França.

Saudades de que gosto (As Barrocas do Bungo)


As Barrocas do Bungo
E
O Mar da Boavista


Éramos seis catraios desenfreados e reguilas, alunos do sábio e paciente professor Cardoso na Escola 8 em Luanda, onde frequentávamos a primária. Dois brancos, quatro negros.
Não éramos estudantes por aí além, mas também com aquele mestre bastava ouvi-lo atentamente e seguir o que ele escrevia e desenhava no quadro negro (o que fazíamos) que o saber ficava-nos para sempre. Diziam uns mais velhos que éramos “os putos que sabiam”. Não seria tanto assim, mas a verdade é que passámos sempre de classe com bom aproveitamento e abraços do Prof.! Que agradável era sentir aquele peito de homem bom encostado ao nosso! Também havia tabefes, reguadas e castigos, claro, mas aquilo era como o bater de mãe: não doía.
Não ficávamos pela escola. O nosso era um grupo de aventureiros. Tal e qual. E a aventura não estava na sala de aula (só havia uma), onde, pensávamos, já tudo tínhamos descoberto (para nós escrita e contas eram um tu cá tu lá, até sabíamos onde pôr a cedilha e o h do verbo haver, para já não falar da tabuada que dizíamos enquanto o diabo esfregava um olho), mas fora dela.
Viesse uma borla, ou decidíssemos uma gazeta (sim, também o fazíamos!) e pronto! Lá íamos os seis atravessar a rua a correr, guinar para cima em direcção ao Miramar e, aqui chegados, flectir para as Barrocas do Bungo, à procura dos sulcos de terra vermelha que desciam para o Mar da Boavista, lá muito em baixo. Só nos metíamos nestas andanças quando a luz que vinha do céu chegava sem nuvens, só deixando ver o azul. Chuva nas Barrocas era um Deus me livre!
Lá íamos, descendo o monte, numa correria trôpega e ziguezagueante, saquetas da escola bem agarradas ao pescoço e sandálias nas mãos. Chegávamos lá abaixo cansados, mas ainda com forças para o encontro com o mar. Entrávamos pisando a borda baixinha do Atlântico, que, embora por vezes envergonhado, parecia estar à nossa espera. Envergonhado, sim, porque havia dias em que nos acolhia com as águas barrentas tingidas pela lama vermelha arrastada das Barrocas por chuva violenta da véspera. E disso, estou certo, ele não gostava. Preferia banhar-nos com águas cristalinas.
Foi ali, esbracejando por espumas brancas e lamas, que me lancei na aventura do mergulho no oceano. Conheci-lhe a carícia. Aprendi a não lhe contrariar a força e a vê-lo por dentro. Tomei-lhe para sempre o gosto salgado como os das primeiras lágrimas que chorei. Demos e damo-nos bem.
Foi ali, à beira do Mar da Boavista que conheci amigos grandes: os pescadores, gente boa como pouca tenho encontrado.
Para além da sabedoria do convívio, conversávamos, sem pressas, sentados na areia, em círculo, ensinaram-me eles a arte de ximbicar as canoas: movê-las, não com remos, mas com bordões que fincavam no fundo do mar, impulsionando-as, o que exigia habilidade e perícia. Muitas vezes me aconteceu não subir o bordão a tempo, continuando a canoa a deslizar. Ficava, então, agarrado ao pau pendurado aos pinotes no ar, como um kamundongo preso pela cauda. Depois, está bom de ver, era a queda na água, o esbracejar e o vir à superfície com alguns pirolitos pelo meio e ranhoca a correr-me pelo nariz. Os pescadores riam e diziam: “munanga (miúdo branco) não lhe dá no jeito”. Mas, como mestres aplicados, insistiam. E eu aprendi!
A chegada a casa, sempre tardia, que o caminho demorava, era outra aventura: ralha, tareia da mãe e banho forçado com sabão Life Boy, pois então!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

TOURADAS

TOURADAS

Nem arte nem cultura

T O R T U R A
Andando pelo espaço onde vivem as minhas recordações encontrei fotografias do tempo em que, como repórter, elaborei uma série de trabalhos sobre o meio tauromáquico. Ambiente de que, por nada me dizer, antes me enfadando e me causando repulsa, me afastei.
Porque vi as fotos chegaram-me à memória as discussões que de vez em quando se travam sobre as touradas. Quem as defende fala muito de “tradição e vivência cultural da festa de touros”. Que tradição? Que cultura? Que festa?

A tourada não é arte nem cultura. É tortura.

Deixem que vos fale nisto:

Em 2007 Guillermo Vargas Habacuc, um susposto “artista plástico” costa-riquenho, apanhou um cão abandonado na rua e atou-o com uma corda curta à parede de uma galeria, em Manágua, na Nicarágua, onde expunha. Assim deixou o animal, sem água nem comida, durante dias, até morrer de inanição, seguramente depois de ter passado por doloroso, absurdo e incompreensível calvário. O “artista” considerou o seu feito como arte. A notícia encheu o mundo de vergonha e nojo. Chegaram a correr petições para impedirem a presença do “artista” em exposições. Veja:


Nas touradas há algo de parecido: a utilização abusiva de um animal que se leva à morte pelo sofrimento.

Em Portugal as autarquias de Viana do Castelo, Braga, Cascais e Sintra proibiram a realização de touradas nos seus concelhos. Porque continuam no resto do país?
Até a Igreja Católica as vem condenando desde 1567 (Papa Pio V)!

O vídeo que aqui coloco ilustra bem até que ponto se leva a tortura numa praça de touros. Não é aconselhável aos mais sensíveis.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Perguntei à Vida





És tu que andas por aqui?

Aconteceu.
A primeira vez:

Estava eu prestes a passar-me para o segundo sono e eis que um som, que não consegui decifrar, me fez acordar e descerrar os olhos. Por breves instantes, não sei quantos, não deu para pegar neles e contá-los, vi uma imagem a esfumar-se. A primeira foi uma figura de mulher, de braços abertos, cabeça levantada e coberta, pareceu-me a sorrir, vestida até aos pés.
Fui a correr lá acima, em busca do rosto daquele sorriso. Nada! Nicles! Quando lá cheguei já aquilo se tinha ido embora. Levantei-me. Fui à casa de banho, passei água pelos olhos e recolhi à cama. Dormi, sozinho, até de manhã.
A segunda:

Dias depois, melhor dizendo, umas noites a seguir, quase logo após ter pegado no primeiro sono, voltou o tal som, agora um barulhito agudo. Fez-me abrir os olhos. Não, não, não estava lá nenhuma mulher, mas sim um par de braços e uma cabeça de homem, que me pareceu familiar, mas só isso, a quererem abraçar-me (seria?). Desta feita ergui eu os braços. Em vão. Só pus as mãos no vazio. Não me levantei. Puxei o lençol e o cobertor. Atirei-me ao sono e por lá me quedei até um raio da manhã ter entrado pela persiana mal fechada a despertar-me, sem que nada me tivesse voltado a abrir os olhos.
A terceira:

Não ficou por ali. Já veio outra vez. Agora mais de mansinho. O som franzino parecia um zunido. A imagem de uma mulher, sim de uma mulher de cachecol ao pescoço, sorridente (quase lhe vi os dentes, mas os olhos não, não estavam lá, só uns redondos escuros!), de braços alçados, vestida até aos pés como a da primeira vez. Esta pareceu-me mais adelgaçada. Levantei-me, andei pelo corredor, virei à esquerda para a sala, liguei as luzes. Estava tudo no sítio. Não sei porque me dei a esta verificação. De que andaria eu à procura? A verdade é que o fiz. Dei a volta ao interruptor, voltei para trás. Um arrepio roçou-me as costas a arrefecer-me. Vi se a persiana estava completamente fechada. Deitei-me. Mandei o frio às urtigas com o lençol e o cobertor, virei-me para a direita, pus a mão desse lado debaixo da almofada e, antes de fechar os olhos, perguntei à vida:

- És tu que andas por aqui, ou é a tua irmã?

Saudades de que gosto (Um violino no Telhado)

If I Was a Rich Man
Porque me chegou esta saudade? Não sei!


“Um Violino no Telhado” (Fiddler on the Roof) foi um dos maiores espectáculos da Broadway. Estreado em 1964, foi representado por todo o mundo e transposto para o cinema, em 1971, num filme que obteve nove nomeações para os Óscares e ganhou todos os prémios Tony do ano da estreia. É hoje considerado um clássico da Sétima Arte.
“Um Violino no Telhado” é baseado nas histórias de Shalom Aleichem sobre a vida de um pequena cidade judia no Sul da Rússia, nas vésperas da Revolução de Outubro.
A história passa-se na pequena aldeia ficcional de Anatevka, na Rússia Czarista no início do século XX. Lá vivem, em boa vizinhança mas sem se misturar, as comunidades judaica e cristã ortodoxa seguindo as antigas tradições estabelecidas.
Tevye, um leiteiro judeu pobre que tem cinco filhas, uma mulher com uma língua viperina e sarcástica e um cavalo muito preguiçoso que não tem força para puxar a carroça do leite, leva uma vida tranquila até o dia em que pretende casar as suas duas filhas mais velhas, Tzeitel e Hodel. Ambas recusam os casamentos arranjados pelo pai e a tolerância de Teyve é levada ao limite quando outra das suas filhas, Chava, decide casar com um não judeu. O leiteiro debate-se nesta situação delicada quando um decreto do Czar obriga todos os judeus a abandonar a aldeia, condenando a sua família ao exílio e à dispersão.
Apesar da sua pobreza e da austeridade do ambiente, Tevye mantém uma abordagem alegre nas questões da família, dos vizinhos e do seu Deus, a quem ele se dirige como se fosse um dos seus vizinhos.
A comunidade judaica desta pobre vila está assente na tradição e a chegada dos ventos de mudança irá transformar os seus valores e princípios há muito estabelecidos e que são a base da estabilidade e coerência.
A mudança é personificada não só com o advento da Revolução Russa, mas também pelos jovens que procuram esquivar-se da tradição, determinando o seu próprio futuro.
O filme é, na realidade, uma das mais admiráveis obras cinematográficas de sempre. A notável interpretação do leiteiro pelo actor judeu Chaim Topol, ficará para sempre na memória de quem o viu. Topol nasceu em Tel Avive a 9 de Setembro de 1935 (não existia ainda o Estado de Israel. A região era então a Palestina sob administração britânica). Tem hoje 73 anos.
Topol a falar para o seu Deus – If I Was a Rich Man:

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa


Singularidades da língua portuguesa.

O Novo Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa está em vigor desde Janeiro de 2009. Só em 2012, porém, se tornará obrigatório. Até lá são permitidas as duas grafias. O novo acordo apenas altera a ortografia (escrita) e não a pronúncia.

Já por mais de uma vez foi ensaiada a unificação da ortografia da língua portuguesa. A primeira tentativa, em 1911, culminou, em Portugal, na Grande Reforma da língua. Depois disso a mais importante foi a de 1990, no Brasil, que se transformou, digamos, no arranque para o actual, e ao que parece definitivo (ver-se-á), Acordo Ortográfico.

Um pouco da história recente:
Em Julho de 2004 representantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), reuniram-se em São Tomé e Príncipe. Decidiram que para o novo acordo ortográfico (aprovado em 1990 no Brasil) entrar em vigor, bastaria que três países o ratificassem. O Brasil fê-lo em Outubro de 2004, Cabo Verde em Abril de 2005, São Tomé e Príncipe em Novembro de 2006.
Em Portugal o Governo ratificou-o a 6 de Março de 2008, o Parlamento aprovou-o a 16 de Maio e o Presidente da República promulgou-o a 21 e Julho, entrando imediatamente em vigor. Está, no entanto, prevista uma fase de adaptação até 2012, período durante o qual serão permitidas as duas grafias. Este está longe de ser um trabalho completo sobre o Novo Acordo Ortográfico. Trata-se, apenas, de uma referência a um acontecimento que terá, certamente, implicações no ensino da língua portuguesa, para já não falar da perturbação que causará nos que não conheceram senão a grafia que actualmente utilizam. Trabalho desenvolvido encontrará, por exemplo, aqui, de onde retirei, com a devida vénia, a fotografia que encima o texto, e também aqui.



Algumas mudanças que nos esperam:


O Alfabeto

O K, o W e o Y, são incluídos definitivamente no alfabeto que se alarga de 23 para 26 letras. Pronuncie-se o K como capa ou ; o W como dáblio, dâblio ou duplo vê; o Y como ípsilon ou i grego.

Novas regras para a utilização de minúsculas (caixa baixa) e maiúsculas (caixa alta):
  • Os dias de semana, meses do ano e os pontos cardeais passarão a ser escritos em minúsculas (caixa baixa) - segunda, domingo, janeiro, fevereiro, norte, sul, etc…
  • poder-se-á usar maiúsculas ou minúsculas em títulos de livros, no entanto a primeira palavra será sempre maiúscula (Memorial do Convento, ou Memorial do convento).
  • também é permitida dupla grafia em expressões de tratamento (Exmo. Sr. ou exmo. sr.) em sítios públicos e edifícios (Praça da República ou praça da república) e em nomes de disciplinas ou campos do saber (História ou história, Português ou português).


Supressão de consoantes mudas.

Desaparece uma de duas consoantes que se pronunciem de uma só voz:


  • cc - : transaccionado passa a transacionado, leccionar passa a lecionar. Mantém-se em friccionar, perfeccionismo, e outras, por se articular a primeira consoante.
  • cç – acção passa a ação; erecção passa a ereção; reacção passa a reação. Mantém-se em fricção, sucção.
  • ct – acto passa a ato; actual passa a atual; tecto passa a teto; projecto passa a projeto. Mantém-se em facto, bactéria, octogonal.
  • pc – percepcionar passa a percecionar; anticoncepcional passa a anticoncecional. Mantém-se em núpcias, opcional.
  • pç – adopção passa a adoção; concepção passa conceção. Mantém-se em corrupção, opção.
    pt – Egipto passa a Egito; baptismo passa a batismo. Mantém-se em inapto, eucalipto.

Supressão de alguns acentos gráficos em palavras graves
  • crêem, vêem, lêem, passam a creem, veem e leem.
  • pára, pêra, pêlo, pólo passam a para, pera, pelo e polo.

Ditongos perdem acento

As palavras acentuadas no ditongo oi e ei passam a ser escritas sem acento:


  • esstóico (estoico);
  • paleozóico (paleozoico);
  • asteróide (asteroide).
Supressão do hífen
O uso do hífen vai ser suprimido em:
  • palavras compostas em que o prefixo termina em vogal e o sufixo começa em r ou s, dobrando essa consoante: cosseno, ultrassons, ultrarrápido.
  • o prefixo termina em vogal diferente da incial do sufixo: extraescolar, autoestrada, intraósseo.
  • formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de. Não escreveremos hei-de, nem hás-de.

O hífen emprega-se em:

  • palavras compostas onde a última vogal do prefixo coincide com a inicial do sufixo, excepto o prefixo co- que se algutina ao sufixo iniciado por o: contra-almirante, micro-organismo, coobrigação.
  • palavras que designam espécies da Biologia ou Zoologia: águia-real, couve-flor, cobra-capelo.

Dupla grafia de algumas palavras

Está prevista no novo acordo por existirem diferenças na pronúncia de país para país. Sejamos claros, de Portugal para o Brasil. Ponhamos os olhos em algumas, de que se escreve primeiro a grafia portuguesa.
  • característica - caraterística
  • intersecção - interseção
  • infeccioso - infecioso
  • facto - fato
  • olfacto - olfato
  • conceção - concepção
  • súbdito - súdito
  • amnistia -anistia
  • amígdala - amídala
  • súbtil - sútil
  • académico - acadêmico
  • ingénuo - ingênuo
  • sénior - sênior
  • cómico - cômico
  • vómito - vômito
  • fémur - fêmur
  • abdómen - abdômen
  • bónus - bônus
  • bebé - bebê
  • puré - purê
  • judo - judô
  • metro - metrô
  • andámos - andamos

O novo acordo é polémico, havendo argumentos a favor e contra. Os que lhe são favoráveis defendem que se trata da aproximação natural da oralidade à escrita, enquanto os que o não querem (e nalguns casos se recusam mesmo a aceitá-lo) dizem tratar-se de uma evolução contra-natura da escrita.
Com o novo acordo calcula-se que cerca de 2% do vocabulário de Portugal será alterado. No Brasil apenas 0,45%.

Uma curiosidade:

Nos anos 40, Luiz Gonzaga um cantor do Nordeste do Brasil (Pernambuco), que ficou conhecido como o "Rei do Baião", deu-se conta dos trambolhões a que era sujeita a língua portuguesa. Compôs o "ABC do Sertão", com a oralidade e ritmo bem característicos da sua região. Ficam dois vídeos. O primeiro com as vozes de Fagner (parceiro de muitas interpretações) e do autor, o segundo um clip.
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O texto deste post foi redigido com a ortografia ainda em vigor

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Revisitar a História (fuga à República)




A fuga do último rei

“…A imensidade vazia das coisas, o grande esquecimento que há no céu e na terra…”
(Fernando Pessoa)
A cadeira está ali. Olha o mar com a gaivota a ver. Também nós a vimos, minha mulher e eu, da mesa onde almoçámos no restaurante mesmo ao lado, na Ericeira, a terra de que se gosta, sempre que se lá vai. A cadeira vive ali há dois anos, explicou-nos o empregado que nos serviu. Antes esteve lá outra, adiantou, mas o mar roeu-a, debilitou-a e acabou por comê-la. “Sabem, foi daqui que a família real portuguesa fugiu…”. Disto lembrávamo-nos nós, mas perdoe-me Fernando Pessoa, no céu não há, certamente, esquecimento. Aquilo não é campo para lá se plantarem recordações, nem memórias, é um vazio imenso, cheio de pouca coisa. Se insistirmos no plantio, nada medrará, decerto.
Fiquei por terra e dei uma volta pela História a avivar a memória.
Pois foi!
Da Praia dos Pescadores, ali mesmo ao lado das Furnas, onde está a cadeira, fugiu a família real portuguesa (D. Manuel II, a mãe Rainha D. Amélia e a avó, Rainha D. Maria Pia) para o exílio em Inglaterra. Aconteceu a 5 de Outubro de 1910. Vinda de Mafra, para onde já fora, escapando aos revolucionários republicanos, a família real, embarcou no iate D. Amélia, fugindo da revolução republicana que estalara em Lisboa e proclamara a República.
D. Manuel II não mais voltou a Portugal. Apesar de algumas tentativas de correntes restauracionistas, a República manteve-se. O monarca fugitivo acabou por morrer em Inglaterra em 2 de Julho de 1932. A ditadura de Salazar autorizou a sua sepultura em Lisboa, tendo organizado funerais de estado. Os restos mortais chegaram a Lisboa a 2 de Agosto e estão sepultados no Panteão dos Braganças no Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa.
Contei a história à cadeira.




Imagem retirada de Wikipédia

terça-feira, 12 de maio de 2009

Liberdade onde estás? (Bocage)

Poeta da Liberdade

Já Bocage não sou!...
À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei!
O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
(…)

As arrumações por vezes resultam nisto: dei com uma velhinha nota de 100 escudos. Escudos, sim, a antiga moeda portuguesa destronada pelo euro, em má hora para muitos portugueses que sentem, desde aí, a vida mais cara. Este, e outros, são preços a pagar por Portugal ter aderido à União Europeia, embora daí tenham decorrido muitos e inegáveis benefícios. O que me parece (sempre pareceu) é que quem negociou a paridade, se assim se pode dizer, do escudo com o euro o fez de modo apressado, incompetente, talvez até leviano. O escudo deveria ter sido mais valorizado. A Espanha lutou por isso e conseguiu-o, mas enfim!

A foto está aqui pela efígie que nela vi: a de Manuel Maria Barbosa du Bocage. Poeta mal tratado como o escudo.
Não é meu propósito deixar aqui a sua biografia. Outros já o fizeram com sapiência.

Então, porquê esta conversa daqui e dali?

Lá vou. Bocage foi um dos cinco filhos de José Luís Soares de Barbosa (advogado) e de Mariana Joaquina Xavier l’Hedois Lustoff du Bocage (de pai francês), nasceu em Setúbal a 15 de Setembro de 1765 e faleceu em Lisboa, vítima de um aneurisma, a 21 de Dezembro de 1805. Cedo foi para a tropa (Exército, depois Marinha). Desertou, voltou a ingressar, chegando a segundo-tenente da Marinha. Andou por África (Moçambique) e Ásia (Índia e Macau). Passou pelo Rio de Janeiro. Vivendo em plena época da Revolução Francesa, logo se deixou entusiasmar, como muitos dos intelectuais e pensadores portugueses da altura, pelos ideais soprados de Paris: Liberdade, Igualdade, Fraternidade, o que no Portugal da altura não era bem visto. Como fomos e continuamos a ser de ideias curtas!
Pina Manique, o Intendente da Polícia do Marquês de Pombal, prendeu-o e entregou-o à Inquisição. Foi submetido ao tribunal do Santo Ofício, mas a intervenção de alguns conhecidos e admiradores, salvou-o do pior. Enquanto esteve preso, e porque era um homem de cultura, traduziu para português textos de autores clássicos latinos como Virgílio e Ovídio e de franceses como Voltaire e La Fontaine.
Bocage assinava sob o pseudónimo Elmano Sadino. Não foi só o poeta do erotismo (que muitos à época confundiram, e ainda hoje tantos confundem, com pornografia), da sátira, ou das anedotas, tantas vezes primárias que lhe são atribuídas, exploradas por editores sem escrúpulos, e avidamente consumidas por um público culturalmente indigente.
Cresci com a liberdade de ler sem puritanismos a tolherem-me. Li Bocage. Em boa hora o fiz.
Claro que foi um boémio, frequentou o bas-fond, envolveu-se em amores, uns clandestinos, outros não, mais estes do que aqueles, e em desamores, de onde lhe brotou muitas vezes a inspiração. As mulheres eram as suas ninfas, fontes da excelência de muitos dos seus textos. E não é a beleza, por si só, um alento? Bocage foi, sobretudo, um poeta. Opondo-se à tirania da Monarquia portuguesa da altura, utilizou a poesia como arma na luta pela Liberdade. Parte da sua obra foi censurada e impedida de publicação.
Mas muito chegou até nós, embora os anátemas que sobre ele recaem, desde Pina Manique e da Inquisição, continuem a não o deixar ver e perceber em plenitude. Apesar de tudo e talvez para resgate de uma consciência nacional pesada, a sua efígie foi aposta numa nota de 100 escudos que esteve em circulação entre 1980 e 1990. Na cidade de Setúbal, que lhe erigiu uma estátua, o dia do seu nascimento (15 de Setembro), é feriado municipal.
Para quando falar-se de Bocage, sem preconceitos nem estigmas?
Recordemo-lo como Poeta da Liberdade:

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha... Oh!, venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!
Outros poemas: clique lá em cima em sapiência.
O quadro reproduzido Bocage e as Ninfas (Fernando Santos,1929) está exposto no Museu de Setúbal.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Tristeza (Benfica)





Rapazes sem jeito






Há muito que se sabe ser a terra redonda.
Os caldeus, os hindus, os egípcios, para não citar outros, já se referiam à esferacidade de terra. Na Antiga Grécia, o tema era assunto corrente.
No século IV antes de Cristo, Aristóteles demonstrou-o por A+B (quer dizer com argumentos seus), e elaborou mesmo uma teoria astronómica. Dois séculos depois Ptolomeu pegou nos argumentos de Aristóteles e defendeu-os.
Mais tarde vieram certezas científicas: a Terra é redonda ligeiramente achatada nos pólos e mexe-se com movimentos de duração variável. Cinco deles: Rotação, em torno de si próprio (24 horas); Translação em volta do Sol (365 dias e 6 horas), Precessão, deslocação do seu eixo como um pião (25.868 anos); Nutação, pequena oscilação periódica (ciclos de 18,6 anos) e Revolução em redor do centro da Vila Láctea, levando com ela o Sol, que também não está fixo lá em cima, (250 milhões de anos - nunca mais acaba!).

A bola de futebol não é, como a Terra, redonda e achatada. É só redonda, mas é chata!
Pelo menos para os futebolistas do Benfica, que não tendo Aristóteles ou Ptolomeu à mão, ainda não perceberam como é que ela se movimenta e como é que na dita se mexe.
Se a atiram para a baliza contrária é certo e sabido que há-de um espectador apanhar com ela, ficando o guarda-redes a ver a banda passar. Se a recebem de um companheiro, rente à relva, ficam sem saber que movimento ela traz, e que pé lhe hão-de chegar. Vai o esquerdo e ela escapa-se, esticam o direito e ela foge. Quando vem pelo ar, param especados à espera que o azimute lhes caia do céu. Entretanto, já o adversário lá foi. Então, caiem e pedem, por gestos, ao árbitro que mostre um cartão ao adversário (coisa feia!). Quando por teimosia da bola (o esférico, ou pelota – aí Brasil! – como também lhe chamam) esta lhes chega aos pés, ensarilham-se, sem saber o que fazer à criatura, que não se mostrando rogada vai à procura de outras canetas, ou rola sobre si mesma para fora. Depois, mãos à cabeça, olhos para o céu, um ar incrédulo e, muitas vezes, o sinal da cruz! Cristo nunca jogou à bola, que eu saiba, e Deus deve ter mais que fazer! A bola dos futebolistas do Benfica não é, como as outras, redonda, é mesmo só chata!
Sou um inculto futebolístico. Admito-o, mas aquilo dá para ver.
Gosto do espectáculo quando a televisão o passa. É muita gente, imenso ruído, águias a voar, grandes planos de crianças besuntadas por gelados, mães protestando com os falhanços, pais roendo as unhas, outros ao telemóvel, outros, e outras, ainda, a caretear para as câmaras. Ah! E também 22 futebolistas e um rapaz de apito na mão sobre a relva. Todos contra este (o árbitro), um intruso que ali foi posto para estragar o espectáculo. Lá aparecem marjoretes, no intervalo, a adocicar. Tudo aquilo enchendo o ecrã, mais os comentadores que me entram pelos ouvidos fazendo-me rir de tanta parvoeira: é o mágico, é o matador, é o fora de jogo à tangente (provavelmente há-os à secante) é o…, sei lá que mais.
Desde miúdo, talvez por um daqueles fascínios que nos seduzem sem sabermos porquê, torço (aí Brasil, de novo!) pelo Benfica.
E ando triste porque aqueles rapazes a que chamam futebolistas passam a vida a fazer queixinhas (detesto queixinhas) dos árbitros, do público, dos adversários e até dos colegas. Aqueles rapazes também se portam mal, porque tratam mal a desgraçada da bola e, por arrasto, tratam-me mal a mim. E têm a obrigação de o não fazer.
O que estudaram e sofreram Aristóteles e Ptolomeu para nos deixarem os conhecimentos de que ainda hoje desfrutamos, sem nada em paga.
Para maltratarem o futebol (ou nem isso, pois muitos deles passam parte da vida no banco dos suplentes, no corte e costura) aqueles rapazes do Benfica ganham, num só mês, o que um cidadão comum amealha, com esforço, ao longo de uma vida inteira de trabalho! Não há paciente que aguente!
Solução: passem a pagar-lhes, mensalmente, dois salários mínimos (vá lá quatro, que a bica está cara!). Talvez deixem as queixinhas e aprendam a tratar da bola, que é como quem diz a jogar futebol.
Se não resultar, mandem-nos para casa e arranjem outros mais baratinhos e com vontade de se ajeitarem. Pode ser que a minha tristeza benfiquista ganhe a esperança de um dia não ser mais triste não, como diz o poeta.
Então, e o treinador? Pois! O rapaz espanhol só se assemelha a um treinador, não é. Não me parece que seja treinador quem após uma derrota diz terem sido alcançados “objectivos invisíveis” (só ele, meus, só ele) e considere o 3º lugar uma boa classificação, ou afaste um futebolista, de provas dadas, com o argumento de que precisa de “ver o jogo de fora”e ponha outros no seu lugar que, estando dentro, nada vêem nem fazem. Falta-lhe, vontade, querer, ambição e o mais importante: sabedoria. Não me parece que seja treinador (aqui como líder e orientador de homens) quem trate um seu ex-futebolista como “uma pessoa que mostrou ser medíocre”. O rapaz é vazio de formação cívica, e desconhece a boa educação.
Solução: que saia pelo seu pé.
E os dirigentes? A raiz da tristeza benfiquista.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Bisbilhotices!


Meter o nariz onde não é chamado


Porque não deambular, de quando em vez, pelo mundo que anda por aí? É relaxante, dessetressante, como alguns preferirão dizer. Dei com esta foto num site que a retirou da Biblioteca Pública de New South Wales, o mais antigo e populoso estado da Austrália. Aqui a deixo pela beleza e qualidade artística, e por se me afigurar uma intimidade perfeita com o silêncio. Se conseguir recuperar o URL do site (por distracção não o gravei), colocá-lo-ei.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Morreu Vasco Granja




“Olá, amiguinhos”.





Era assim que Vasco Granja começava o seu programa “Cinema de Animação”, na RTP.

Lembram-se?

Vasco Granja nasceu em Lisboa (Campo de Ourique) a 10 de Julho de 1925 e faleceu na madrugada de 4 de Maio de 2009 em Cascais, com 83 anos.
Deixa-nos um vazio.

Ninguém, como ele, falou, ou fala, do cinema de animação com o carinho, a ternura, até mesmo amor, para além de conhecimentos profundos, com que ele o fazia. Utilizava palavras doces que seduziam as crianças. Pela forma, sem pressas, como descrevia as apresentações, os adultos aprendiam a descobrir a beleza e a magia dos filmes de animação.
Foi, desde muito jovem, um apaixonado pelo cinema.
No decorrer dos anos 50, durante o regime fascista do Estado Novo, associou-se ao movimento cineclubista Em Lisboa, participava no aluguer de salas e na projecção de filmes obtidos através das embaixadas, em formato de 16 milímetros. Os filmes tinham sempre que passar pela censura. Apesar disso, conseguiu mostrar obras do neo.-realismo italiano. Em 1952, foi detido pela PIDE, sob a acusação de financiar o movimento de resistência ao regime de Salazar com o dinheiro que obtinha da exibição dos filmes. Esteve preso durante seis meses, no Aljube.
Em 1960, viajando pela primeira vez para fora do país, representou Portugal no festival de animação de Annecy, em França (como representante do Cine-Clube Imagem), onde ganhou uma nova paixão pela animação. Acabaria por tornar-se divulgador da banda desenhada em Portugal, tendo editado, através da Bertrand, a versão portuguesa da revista Tintim (de 1968 a 1982), que, além do herói de Hergé, também contava as histórias de Spirou e Corto Maltese.
Escreveu em várias revistas e jornais, divulgando a arte da animação, e foi professor na ETIC (Escola Técnica de Imagem e Comunicação) durante dois anos. Foi agraciado com dois prémios: o Troféu de honra Zé Pacóvio e Grilinho, no 7.º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (1996) e o Grand Prix Saint Michel para a promoção da BD (1972).

Vasco Granja esteve ligado ao PCP e participou na festa do jornal do partido, a Festa do Avante.
Durante os anos 60, foi novamente detido pela PIDE, devido à sua ligação, na altura, ao Partido Comunista Português, mais concretamente à célula comunista dos cineclubes. Esteve preso durante 16 meses, tendo cumprido parte desse tempo em Peniche. Na prisão, foi submetido a várias torturas físicas e psicológicas, como a tortura do sono.
Em 1974, após o 25 de Abri, a RTP convidou-o para a apresentação de um programa. Vasco Granja chamou-lhe "Cinema de Animação", e manteve-o no ar durante 16 anos, com mais de mil emissões. No programa, dava a conhecer a animação de todo o mundo, desde a que era realizada nos países do leste da Europa, até à proveniente da América do Norte – Estados Unidos. Pretendia, com o seu programa, divulgar, para além da própria animação, uma mensagem de paz, que considerava estar presente em muitos dos filmes da Europa de Leste que apresentava.
Ainda em 1974, foi membro do júri do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême.
Em 1975, criou um curso de cinema de animação, a partir do qual viria a nascer a Associação Portuguesa de Cinema de Animação.
Em 1980, foi membro do júri da quarta edição do Animafest, o Festival Mundial de Animação de Zagreb, realizado na então Jugoslávia. Participara já como observador neste festival na edição de 1974 logo após o 25 de Abril.
Permaneceu na RTP até 1990.
Teve uma breve aparição no programa humorístico de televisão Herman Enciclopédia, em 1998, durante a qual parodiou os seus próprios programas sobre animação.
A Festa do Avante de 2006, contou com a sua participação na selecção de filmes de animação de diversas origens, com particular destaque para películas oriundas da antiga Checoslovaquia.
Em “Cinema de animação” Vasco Granja divulgou filmes de animação como Yellow Submarine, dos Beatles, e muitos trabalhos de qualidade realizados e produzidos na Europa de Leste. Uma criança chamou-lhe um dia “ O Pai da Pantera-cor-de-rosa”, personagem cujos filmes também divulgou. Assim ficou conhecido. Deu, igualmente, a conhecer ao público português os desenhos animados do Bugs Bunny.
Deve-se a Vasco Granja a utilização da expressão “banda desenhada” tradução do francês “bande dessineé”. Até ele as publicações eram conhecidas como “histórias aos quadradinhos”.
Colou durante 16 anos a crianças e adultos ao ecrã da televisão para verem animações de autor. Hoje o que as crianças vêm nas televisões são enlatados de animação, escolhidos a maior parte das vezes sem critério. Muitos deles indutores de uma cultura de violência contra a qual Vasco Granja sempre se bateu.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Com medo da surucucu



Os kalús e o Milagre



Éramos seis putos, andando pelos sete e os oito anos, companheiros na Escola 8 de Luanda. Entre nós, o «Gungunhana» um negro mais preto do que tudo. Oito cacimbos pouco altos, mas pesados – ele era anafado! Nunca lhe percebi qualquer particularidade física, ou outra, a justificar a alcunha que, aliás, foram os professores a pôr-lhe. Também em tempo algum lhe ouvi um nome a sugerir-nos a troca pelo epíteto. Jamais se nos espevitou a curiosidade na procura de uma denominação mais parecida com as nossas. Seria ele Hermenegildo, Ezequiel, Malaquias, Saul ou Cláudio? Porque não Carlos, Francisco ou Paulo? E, depois, qual de nós se atrevia a questionar os mestres? Não os ouvíramos chamarem-lhe assim, sem que ele fosse à emenda? Naquele tempo, as coisas eram como quem mandava queria que fossem. Ficou «Gungunhana!» Quanto a mim continuo desconfiado de que ele gostava de ser anunciado, dito e chamado daquele modo. Teria ouvido falar de personagem histórico de nome idêntico, agradando-lhe a similitude? Provavelmente.
Sempre que apanhávamos um intervalo maior, uma «borla» por falta de professor, a escola encerrada por força de uma daquelas chuvadas fortes, que caíam sem aviso prévio, ou ainda porque nos apetecia gazetear, lá voltávamos costas às aulas, correndo para a Lagoa do Kynaxixe, na altura o limite da cidade. Depois dela, era o mato. Para lá íamos em algazarra ululante de miúdos kalús.
Com as sandálias, de pano e sola de pneu velho, ensacadas nas mochilas, seguíamos descalços tocando de mansinho a terra com as palmilhas dos pés, todas brancas. Até mesmo as dos negros e mulatos o eram, o que então muita confusão me fazia porque cor igual em todos também, só nas palmas das mãos e no sangue que via, assustado, quando algum de nós se arranhava numa das piteiras que estendiam os braços de picos eriçados por entre o capim. Aquilo deixou de me afectar, quando um dia aprendi que nos reproduzíamos todos pela mesma cor – a vermelha do sangue –, e nos amávamos e matávamos igualmente com a mesma – a branca da palma das mãos.
Da Escola 8 à Lagoa eram para aí novecentos metros, mil, contas ajeitadas, sempre a correr pelo capim, galgando um ou outro arbusto. Fazíamo-lo não se nos ouvindo um único resfolgo. O cansaço só mais tarde nos colhia. De súbito, estávamos ali, junto da água barrenta, alguma da chuva, outra, talvez a maior parte, vinha de baixo, das veias da terra, ou fosse lá de onde fosse, trespassando pedras e areia fina.


No Cacimbo, aquela água chegava a ser transparente e conseguíamos ver um ou outro bagre pequeno, esse estranho peixe que consegue sobreviver na lama, indo buscar oxigénio a reservas que ele próprio constrói dentro de si, por alquimias secretas. No Calor, como era o tempo em que ali estávamos, ela ficava turva, do tom da terra vermelha da zona, e, também, mais alta. A Lagoa enchia, prenhe das chuvas grandes do nosso fascínio.


Sempre que aquelas águas caíam e andávamos por ali à solta, os calções e as camisas juntavam-se às sandálias nas sacolas escolares. Todos nus corríamos de um lado para o outro, caras viradas para cima. Bocas abertas, bebíamos o céu deixando a água fresca tanger-nos as gargantas e voltar a sair, correndo-nos pelo peito, excitando-nos o coração de meninos mais valentes do que os heróis das histórias do Mosquito.
Éramos capitães de um só medo: pisar a água da Lagoa sem antes ouvirmos o Velho. Só ele sabia se a surucucu andava por ali naquele dia, ou não.


E, outras coisas!
O Velho, – o Mwata de nome Milagre –, homem de servir em casa dos meus pais, no Largo da Tendinha. Também ele se evadia para a Lagoa, sempre que podia, para falas com os «mininos da Escola». Magro e seco como um abacateiro, igual aos que nas roças crescem esguios até ao Sol, lá abrindo a copa maior que um capacete colonial parecido com o que o meu avô usava, protegendo com a sua sombra os cafeeiros de muitos braços carregados de ouro negro, que faziam a riqueza de uns quantos e, aprofundavam a escravidão e miséria de muitos outros. O Milagre era alto como as mangueiras da Funda agora mirradas, vá-se lá entender isto, e velho como um embondeiro (baobá). Tal como este, já nem sabendo a idade ou mesmo se menos velho alguma vez tinha sido. O meu Mwata nasceu já assim, de certo: com idade crescida, e sábio.
Com o Milagre, ficávamos até o Sol avisar serem horas do regresso a casa. As suas mãos secas de dedos finos e compridos como os dos artistas, esculpiam no ar histórias de encantamentos, que escutávamos seduzidos. De quando em quando interrompia-se, quedando-se em silêncio a fumar um cigarro enrolado com a parte acesa virada para dentro da boca, como fazia a lavadeira da minha casa enquanto esfregava a roupa com o filho dormitando agarrado às costas por um pano envolvendo-lhe o peito.
Às vezes, o Milagre alçava os braços.
Não entendia porque o fazia.
Pareciam-me impulsos do coração do Velho, em busca de mistérios perdidos ou de acontecimentos para anunciar, lá por cima, nas terras de Deus. Olhava-o, a ver se sim, mas permanecia inescrutável. – Não resisti. Um dia, perguntei-lhe:
- Porque te chamas Milagre?
Virou-se para mim. Ameigou-me o queixo e o cabelo com as mãos. Levantou-me suavemente a cabeça. Deixou repousar os seus olhos nos meus, e respondeu:
- Porque Deus me fez, e a minha mãe me disse assim!
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O resto da história, e outras, aqui.

domingo, 3 de maio de 2009

Dia da Mãe


De onde vem o Dia das Mães, ou Dia da Mãe


Dia das Mães, ou Dia da Mãe. Usarei a segunda designação.

O que de mais antigo se conhece, como aproximação à criação do Dia da Mãe, chega-nos da Grécia Antiga e de Roma Imperial. Na Grécia Antiga o povo entregava-se a comemorações sempre que chegava a Primavera, em honra de Rhea, a mãe dos deuses e também dos seres comuns. Em Roma, 250 anos antes de Cristo, começaram a realizar-se festas dedicadas a Cybele, a mãe dos deuses, mas esta dos deuses romanos. Mães com muita trabalheira e canseira, tantos eram os deuses!
No século XVII, em Inglaterra, celebrava-se o 4º Domingo da Quaresma (40 dias antes da Páscoa) como “Domingo da Mãe”, em homenagem às mães inglesas. Neste período, a maior parte da classe baixa inglesa trabalhava longe de casa e vivia com os patrões, mas não propriamente em casa destes (muitas vezes em celeiros e cubículos contíguos a currais)! No Domingo da Mãe, os servos tinham um dia de folga e eram encorajados a regressar a casa e a passar esse dia com a mãe.
Com a expansão do Cristianismo pela Europa passou a homenagear-se a força espiritual que “dava vida aos cristãos e os protegia do mal”: a “Igreja Mãe”, em homenagem a Maria, mãe de Jesus. Uma festa da Igreja que, com o correr do tempo, deixou de chamar-se Dia da “Igreja Mãe”, passando a Domingo da Mãe. Num só dia, os cristãos passaram a homenagear tanto as suas mães como a própria Igreja, evocando a Virgem Maria.

Porque razão se exalta a Mãe de modo quase universal?

De certo porque, pela maternidade, a mulher participa no poder divino (para os crentes) de transmitir a vida e de entregar a sua própria pela que gera. Há uma lenda que conta o seguinte: um jovem bastante pervertido, desejava que a mãe morresse para poder usufruir do dinheiro que receberia como herança. Um dia, num acto de loucura, mata a mãe, abre-lhe o peito e arranca-lhe o coração que mete num cofre. Depois corre em direcção a um bosque para aí enterrar o cofre. Ao correr tropeça e cai. Nesse momento, de dentro do cofre ouve-se uma voz carinhosa perguntar: “Magoaste-te, meu filho?”. Até onde vai o amor de Mãe, mesmo que de lenda se trate!

É hoje comummente aceite que a ideia da criação do Dia da Mãe que chegou aos nossos dias surgiu nos Estados Unidos e partiu de Anna Jarvis, que em 1904, quando a sua mãe morreu (uma mulher admirada por ter prestado relevantes serviços comunitários durante a Guerra Civil Americana) , pediu na igreja de Grafton, apoiada por um grupo de amigas preocupadas com a depressão que se apoderara dela, que se estabelecesse um dia especialmente dedicado a todas as mães.

Grafton é uma pequena cidade semi-rural, no estado norte-americano de Massachusetts, na região da Nova Inglaterra, com uma população rondando os 15 mil habitantes e maioritariamente de fé católica (47%).

O primeiro Dia da Mãe celebrou-se três anos depois, a 10 de Maio de 1907, na igreja de Grafton, com a presença de praticamente toda a família e amigos de Anna. Nessa ocasião, Anna Jarvis enviou para a igreja 500 cravos brancos, que deviam ser usados por todos, e que simbolizavam as virtudes da maternidade. Ao longo dos anos enviou mais de 10.000 cravos para a igreja de Grafton – encarnados para as mães ainda vivas e brancos para as já desaparecidas – e que são hoje considerados mundialmente com símbolos de pureza, força e resistência das mães.
Para Anna e amigas o objectivo era o de sensibilizar as pessoas para a necessidade de se ter sempre presente a lembrança da mãe e de a esta proporcionar prazer e felicidade através de palavras, ofertas e manifestações de afecto, ao longo da vida.
Aceite a ideia na comunidade local, iniciaram contactos com gente influente, como membros do Governo, homens de negócios e políticos, com o intuito de estabelecer um Dia da Mãe a nível nacional.
Tiveram êxito!
Em 1911 o Dia da Mãe era já celebrado em praticamente todos os estados da América, e, em 1914, a data foi oficializada pelo Congresso Norte-Americano. A lei que declarou o Dia da Mãe como festa nacional no 2º Domingo de Maio, foi aprovada pelo presidente Woodrow Wilson, presbiteriano convicto do Partido Democrata. Após isso muitos países seguiram o exemplo, mas a data, porém, ganhou um carácter comercial. A essência da data foi praticamente esquecida. O objectivo passou a ser a compra de presentes, largamente publicitados pelo comércio, na mira do lucro. O facto desagradou a Anna Jarvis, que, desapontada, liderou, em 1923, uma campanha contra a comercialização do dia. Nada conseguiu mudar!
Em Portugal, até há alguns anos atrás, o dia da mãe era comemorado a 8 de Dezembro (para a Igreja Católica o Dia da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, feriado nacional). Apoderando-se do dia um certo espírito de exploração comercial, que só o evocava como Dia da Mãe, a Igreja Católica, para evitar que a festa da Imaculada Conceição caísse no esquecimento, transferiu o Dia da Mãe para o 1º Domingo do mês de Maio, em homenagem à Virgem, Mãe de Cristo, excepto se esse dia for o Domingo de Pentecostes (50 dias depois da Páscoa).
No Brasil começou ser assinalado em Maio de 1918 pela Acção Cristã de Moços (ACM). O presidente Getúlio Vargas determinou, em 1932, que o dia passasse a ser comemorado no 2º Domingo de Maio.
Em Israel o dia não se celebra. Neste país há o Dia da Família, em Fevereiro.
Pelo mundo fora o Dia da Mãe é celebrado em datas diferentes.

Celebrações em Maio, como em Portugal:

Dia 10 – México, Guatemala, Barém, Hong Kong, Índia, Malásia, Qatar e Singapura;
Dia 26 – Polónia;
Dia 27 – Bolívia e República Dominicana;
Primeiro Domingo – Portugal, Lituânia, Hungria, Cabo Verde, África do Sul, Espanha e Moçambique;
Segundo Domingo – Austrália, Bélgica, Brasil, China, Dinamarca, Alemanha, Estónia, Finlândia, Grécia, Itália, Japão, Canadá, Holanda, Nova Zelândia, Áustria, Peru, Suiça, Formosa, Turquia, Estados Unidos e Venezuela;
Último Domingo – França (se coincidir com o Pentecostes é transferido para o primeiro Domingo de Junho) e Suécia.

Fontes:

Datas - Wikipédia

Texto - Arquivos do autor e Diciopédia

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Revisitar a História (1º de Maio)






O Primeiro de Maio







A 20 de Junho de 1889, a Segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, decidiu convocar anualmente os trabalhadores para uma manifestação de luta pela conquista das 8 horas de trabalho diário. Em homenagem aos trabalhadores “ Mártires de Chicago” (a cidade que era o principal centro industrial dos Estados Unidos naquela época), o dia escolhido foi o Primeiro de Maio. Em 23 de Abril de 1919, o Senado francês aprovou a jornada diária de 8 horas e proclamou feriado o dia 1 de Maio desse ano. No ano seguinte a Rússia adoptou o Primeiro de Maio como feriado nacional, exemplo que foi seguido por muitos outros países. Instituíra-se o Dia Mundial do Trabalho.
Como se chegou aqui:

Há que retroceder aos primórdios da Produção Capitalista, quando ainda eram comuns práticas selvagens. Não apenas se procurava, desenfreadamente, a mais-valia, através de baixos salários, como até mesmo a saúde física e mental dos trabalhadores era comprometida por jornadas que se estendiam até 17 horas de trabalho diário, prática comum nas indústrias da Europa e dos Estados Unidos no final do século XVIII e durante o século XIX. Férias, descanso semanal, cuidados de saúde, apoio à maternidade e reformas não existiam. Para se protegerem, os trabalhadores criaram vários tipos de organização – como as caixas de auxílio mútuo, precursoras dos primeiros sindicatos.
Com as primeiras organizações, surgiram também as campanhas e mobilizações reivindicando maiores salários e redução das horas de trabalho diário. Greves, nem sempre pacíficas, explodiam por todo o mundo industrializado. Chicago, um dos principais pólos industriais norte-americanos, era, também, um dos grandes centros sindicais. Duas centrais lideravam os trabalhadores em todo o país: a AFL (Federação Americana de Trabalho) e a Knights of Labor (Cavaleiros do Trabalho). As organizações (centrais), sindicatos e associações, que surgiam, eram formadas principalmente por trabalhadores de tendência socialista, anarquista e social-democrata. Em 1886, Chicago foi palco de uma intensa greve operária. Os trabalhadores reivindicavam melhores salários e a passagem da jornada de trabalho de treze para oito horas diárias. À época, Chicago não era apenas o centro da máfia e do crime organizado, era, também, o centro do anarquismo na América do Norte, com importantes jornais operários como o Arbeiter Zeitung e o Verboten, dirigidos respectivamente por August Spies e Michel Schwab.
As entidades patronais controlavam igualmente jornais, onde os líderes operários eram descritos como “preguiçosos e canalhas” que só procuravam a desordem. O Chicago Tribune foi mais longe e publicou em editorial: "Para estes vagabundos esfarrapados, a melhor comida é uma carga de chumbo no estômago". No decorrer da greve, uma passeata pacífica, pela Avenida Michigan, de trabalhadores no activo, desempregados e familiares, vestindo roupas de Domingo, e empunhando cartazes onde se lia "8 horas para trabalhar, 8 horas para descansar e 8 horas para fazermos o que for de nossa vontade", silenciou momentaneamente tais críticas, embora com resultados trágicos no curto prazo. Do alto dos edifícios e nas esquinas a polícia vigiava, fortemente armada. A passeata terminou com um comício.
No dia 3, a greve continuava em muitos estabelecimentos. Diante da fábrica McCormick Harvester, a policia disparou contra piquetes de greve e outros operários, matando seis, deixando 50 feridos e deteve centenas. August Spies convocou os trabalhadores para uma concentração na tarde do dia 4. O ambiente era de revolta apesar dos líderes pedirem calma.
Os oradores revezavam-se; Spies, Parsons e Sam Filiem, pediram a união e a continuidade do movimento. No final da manifestação um grupo de 180 policiais atacou os manifestantes, espancando-os. Uma bomba explodiu no meio dos guardas. Sessenta foram feridos e vários morreram. Chegaram reforços policiais que começaram a atirar em todas as direcções. Morreram centenas de pessoas: mulheres, homens e crianças.
Os acontecimentos ficaram conhecidos como A Revolta de Haymarket
A repressão foi aumentando num crescendo sem fim: o Governo decretou o “Estado de Sítio”, e o recolher obrigatório, com a consequente proibição de circulação pelas ruas. Milhares de trabalhadores foram presos, muitas sedes de sindicatos incendiadas, criminosos e gangsters, pagos pelos patrões, invadiram casas de trabalhadores, espancando-os e destruindo-lhes bens.
A justiça levou a julgamento os líderes do movimento, August Spies, Sam Fieldem, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Michel Shwab, Louis Lingg e Georg Engel. O julgamento começou a 21 de Junho de 1886 e desenrolou-se rapidamente. Provas e testemunhas foram inventadas.
A sentença foi lida a 9 de Outubro. Parsons, Engel, Fischer, Lingg, Spies foram condenados à morte por enforcamento; Fieldem e Schwab, à prisão perpétua e Neeb a quinze anos de prisão.
Linng, ao centro, na foto, não foi enforcado por ter sido encontrado morto na sua cela.
Gerou-se, então, um movimento de solidariedade internacional pressionando o governo dos Estados Unidos a realizar um novo julgamento, o que acabou por acontecer em 1888. O novo júri, entretanto constituído, reconheceu a inocência dos trabalhadores, admitiu, como provado, que fora um capitão da polícia a mandar rebentar a bomba em Haymarket, culpabilizou o Estado norte-americano e decidiu a libertação dos trabalhadores presos, incluindo os condenados a prisão perpétua.
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Em Portugal só a partir da Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974, é que se voltou a comemorar o Primeiro de Maio, livremente, e este passou a ser feriado nacional. Hoje, as duas centrais sindicais, CGTP (Central Geral dos Trabalhadores Portugueses) e UGT (União Geral de Trabalhadores), assinalam-no, em liberdade, com manifestações e comícios por todo o país. Durante a ditadura salazarista do Estado Novo as comemorações eram reprimidas pela polícia.
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Os Estados Unidos, onde tudo começou, não reconhecem, apesar disso, ainda hoje, o Primeiro de Maio como Dia do Trabalhador. Naquele país também se celebra um Dia do Trabalhador (Labor Day), mas isso acontece na primeira segunda-feira de Setembro. É feriado federal (nacional), estando relacionado com o período das colheitas e com o fim do Verão. A decisão de assim ser foi tomada pelo presidente Stephen Grover Cleveland (Partido Democrata), por recear que a celebração em Maio reforçasse o movimento socialista nos Estados Unidos.
------------------------------------------------------------------------------------------------- Viajar pela História deixa-nos uma certeza: lutando por melhor, é sempre possível mudar. Passemos os olhos pelo texto de Manuel Alegre, reproduzido a seguir.
É possível falar sem um nó na garganta é possível amar sem que venham proibir é possível correr sem que seja a fugir. Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta. É possível andar sem olhar para o chão é possível viver sem que seja de rastos. Os teus olhos nasceram para olhar os astros. Se te apetece dizer não grita comigo: não. É possível viver de outro modo. É possível transformares em arma a tua mão. É possível o amor é possível o pão. É possível viver de pé! Não te deixes murchar. Não deixes que te domem. É possível viver sem fingir que se vive. É possível ser homem. É possível ser livre.