sexta-feira, 22 de maio de 2009

Saudades de que gosto (As Barrocas do Bungo)


As Barrocas do Bungo
E
O Mar da Boavista


Éramos seis catraios desenfreados e reguilas, alunos do sábio e paciente professor Cardoso na Escola 8 em Luanda, onde frequentávamos a primária. Dois brancos, quatro negros.
Não éramos estudantes por aí além, mas também com aquele mestre bastava ouvi-lo atentamente e seguir o que ele escrevia e desenhava no quadro negro (o que fazíamos) que o saber ficava-nos para sempre. Diziam uns mais velhos que éramos “os putos que sabiam”. Não seria tanto assim, mas a verdade é que passámos sempre de classe com bom aproveitamento e abraços do Prof.! Que agradável era sentir aquele peito de homem bom encostado ao nosso! Também havia tabefes, reguadas e castigos, claro, mas aquilo era como o bater de mãe: não doía.
Não ficávamos pela escola. O nosso era um grupo de aventureiros. Tal e qual. E a aventura não estava na sala de aula (só havia uma), onde, pensávamos, já tudo tínhamos descoberto (para nós escrita e contas eram um tu cá tu lá, até sabíamos onde pôr a cedilha e o h do verbo haver, para já não falar da tabuada que dizíamos enquanto o diabo esfregava um olho), mas fora dela.
Viesse uma borla, ou decidíssemos uma gazeta (sim, também o fazíamos!) e pronto! Lá íamos os seis atravessar a rua a correr, guinar para cima em direcção ao Miramar e, aqui chegados, flectir para as Barrocas do Bungo, à procura dos sulcos de terra vermelha que desciam para o Mar da Boavista, lá muito em baixo. Só nos metíamos nestas andanças quando a luz que vinha do céu chegava sem nuvens, só deixando ver o azul. Chuva nas Barrocas era um Deus me livre!
Lá íamos, descendo o monte, numa correria trôpega e ziguezagueante, saquetas da escola bem agarradas ao pescoço e sandálias nas mãos. Chegávamos lá abaixo cansados, mas ainda com forças para o encontro com o mar. Entrávamos pisando a borda baixinha do Atlântico, que, embora por vezes envergonhado, parecia estar à nossa espera. Envergonhado, sim, porque havia dias em que nos acolhia com as águas barrentas tingidas pela lama vermelha arrastada das Barrocas por chuva violenta da véspera. E disso, estou certo, ele não gostava. Preferia banhar-nos com águas cristalinas.
Foi ali, esbracejando por espumas brancas e lamas, que me lancei na aventura do mergulho no oceano. Conheci-lhe a carícia. Aprendi a não lhe contrariar a força e a vê-lo por dentro. Tomei-lhe para sempre o gosto salgado como os das primeiras lágrimas que chorei. Demos e damo-nos bem.
Foi ali, à beira do Mar da Boavista que conheci amigos grandes: os pescadores, gente boa como pouca tenho encontrado.
Para além da sabedoria do convívio, conversávamos, sem pressas, sentados na areia, em círculo, ensinaram-me eles a arte de ximbicar as canoas: movê-las, não com remos, mas com bordões que fincavam no fundo do mar, impulsionando-as, o que exigia habilidade e perícia. Muitas vezes me aconteceu não subir o bordão a tempo, continuando a canoa a deslizar. Ficava, então, agarrado ao pau pendurado aos pinotes no ar, como um kamundongo preso pela cauda. Depois, está bom de ver, era a queda na água, o esbracejar e o vir à superfície com alguns pirolitos pelo meio e ranhoca a correr-me pelo nariz. Os pescadores riam e diziam: “munanga (miúdo branco) não lhe dá no jeito”. Mas, como mestres aplicados, insistiam. E eu aprendi!
A chegada a casa, sempre tardia, que o caminho demorava, era outra aventura: ralha, tareia da mãe e banho forçado com sabão Life Boy, pois então!

1 comentário:

rosário albuquerque disse...

Fizeste-me primeiro sorrir e depois dar uma boa gargalhada!