sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Do Mwata

A teia
Numa noite lenta, dormindo sem sono, caminhou pelas margens de um sonho, de dentro do qual um vestido comprido, e, no interior deste, um corpo nu olharam para si.

Sendo já muzangala, entendeu que não, não era cedo para se pôr a pensar no que é isso de ser homem de ter mulher. Deste pensar falou ao Mwata, seu confidente de intimidades, quando estas se lhe chegam. Ouviu:
“O amor nasce espontâneo, como os trevos, o caluqueta, ou a erva da pedra para o chá dos rins, entre o capim, mas, tambula, a felicidade não vem com ele. Felicidade é coisa da gente fazer com cuidado para não avariar.”
E continuou:
“Quando um homem e uma mulher se ligam, não é por uma corrente só, um cabo. Nada disso. São vários os baraços, da alma e da consciência, a uni-los, terminando cada um deles, de um e de outro lado, em pontas finas, frágeis, que é preciso ir reforçando com o tempo, pois por elas entram e saem as forças da vida, as cores da felicidade, a compreensão, a partilha, a verdade, o afecto, a amizade, o carinho, os segredos comuns e a fidelidade.
Parte-se uma daquelas pontas e é um problema. Se pelo fio passar o carinho, este volta para trás, transforma-se em azedume, por vezes em ódio; se for a linha do afecto, ele recua do mesmo modo, transfigura-se em ciúme, desconfiança. A verdade passa a artimanha, a fidelidade a silêncios, e assim sempre sendo. As pontas de que te falo, uma vez desfeitas, não se conseguem atar de novo, perdem-se. Deslaçadas todas, acaba-se tudo. É aqui que a felicidade sofre danos e se avaria. Os dois separam-se, ficam afogando-se. A seguir bate o disparate e o arrependimento mordendo com dentes de víbora venenosa.
Entendes?”
Disse que sim. A partir dali fez, com desvelo e saberes que foi aprendendo, um novelo de fios das sedas de que o Mwata lhe falou. Quando um dia a encontrou, com ela teceu a teia da sua felicidade, uma casa grande onde as portas não rangem e os postigos não batem. Uma teia que todas as noites luzes descidas dos céus vêm beijar.

7 comentários:

acácia rubra disse...

Como eu gosto dos teus textos!

Como queria escrever textos assim, lindos!

Obrigada pelo que partilhas connosco.

Beijo

Maria João disse...

O rendilhado dos afectos, feito teia. Forte e poderosa se protegida e cuidada ao longo da vida, mas tão frágil se, em qualquer momento, os (em)baraços passarem a desatar os laços.

Sábio Mwata!


Um Beijinho, Carlos

Marilu disse...

"Felicidade é coisa da gente fazer com cuidado para não avariar.”
Querido amigo, essa frase é muito linda, e realmente temos que lidar com a felicidade de maneira muito especial para não dar errado. Tenha um lindo final de semana..Beijocas

Rogério Pereira disse...

As frases são de facto de ourives. Cada parágrafo é de filigrana trabalhado. Mas inquieta-me uma pergunta. Lá, onde isto se passou são muitas as casas grandes onde as portas não rangem e os postigos não batem?

TERESA SANTOS disse...

Querido Mwata,

Tecer a teia é uma arte, conservá-la, uma luta de equilíbrios, de respeito.

Abraço, meu Mwata.

Malu disse...

(...)Quando um dia a encontrou, com ela teceu a teia da sua felicidade, uma casa grande onde as portas não rangem e os postigos não batem. Uma teia que todas as noites luzes descidas dos céus vêm beijar.(...)

A coisa mais bela que já vi, para dizer que os encontros das almas não são por acaso.

Li, senti o gosto das palavras... colhi o fruto desta escrita tão cheia de amor.

Tinha que ser de ti esta história...
Beijinhos, amigo

Marta Albuquerque disse...

Cada vez que cá passo o teu blog activa-me o antivírus. Isso está seguro, por aí?

De qualquer modo vinha dar-te conta de um filme que está agora no cinema:

http://www.youtube.com/watch?v=uTQiHCPblzo

beijinhos!