segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Do Mwata

Aberturas e Fechaduras

Ali por baixo, na base do monte onde na praia-mar as águas largam o espumar de zanga das ondas, vê um tridente apontando. Segue o sinal, que o conduz até à boca duma caverna. Sendo, embora, o que não parece, depara-se-lhe uma porta fechada. A um dos lados, na pele curtida de um qualquer bichano apanhado numa saída incauta das profundezas quentes da terra, está escrito: Casa do Demo, encerrada para obras. Não force a entrada. Volte daqui a sete dias.

Respeita a recomendação, dá meia volta, segue encosta acima. Ao entardecer, queixam-se-lhe os pés do farto e duro caminhar. Encosta-se a uma rocha, nascida de dentro do mato. Em frente descobre um portal. Da soleira desce uma placa de pechisbeque, segura por um cordão de mateba. Nela lê: deuses em retiro, não perturbe. Tente no próximo milénio.

Resignado deita-se, aninhado sobre si próprio.

Acorda-o uma manhã de sol promissor. Deita mão ao seu bordão de caminhante. Parte em busca do pico da montanha. Passa anos entre tempestades e bonanças. Vagabundeia por planícies vazias. Vence medos. Vive silêncios. Vê nascer e morrer o Sol, a Lua, e as estrelas. Descansa em sombras de confiança. Encontra gentes de cuja existência jamais suspeitara. Aprende outros falares. Conhece diferentes sentires e viveres. Não crendo que a terra seja maior do que ele próprio, prossegue. Chega, finalmente, sendo certo que, onde a terra termina, começa ele agora, conquistador, erguendo-se, olhando em redor. Nada havendo a dizer-lhe que não, abre a porta meio escondida entre nuvens.

Numa estopa meio esfarrapada, talvez fruto de maus-tratos de mãos por si passadas, tombada num chão de cascalho solto, lê, a custo: vedada a entrada a humanos.

14 comentários:

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


TE SIGO TU BLOG




CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...


AFECTUOSAMENTE
CARLOS

ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE CACHORRO, FANTASMA DE LA OPERA, BLADE RUUNER Y CHOCOLATE.

José
Ramón...

acácia rubra disse...

Carlos

Foi a vez de no meu baú se dar uma maka das grandes.

O título do teu texto trouxe ao cimo lembranças de um blogue que tive, cuja carga simbólica e afectiva era muito grande e que tive, por contingências da vida pessoal, de fechar.

Deu-me para a emotividade e à semelhança do protagonista fui-me enrolando sobre mi própria e assim estou e me vou deixar ficar...

Um beijo

Carlos Albuquerque disse...

Jose Ramon Santana Vazquez
Grato pela tua presença poética.
És muito bem-vindo.
Irei aos teus blogues.
Um abraço

Carlos Albuquerque disse...

Acácia Rubra
Maka por maka...
Ele há coisas..., vá lá a gente meter-se a explicar...o melhor é não.
Beijo

Rogério Pereira disse...

Parece o meu retrato
bem escrito
pormenorizado
pequenas diferenças
apenas
a mim, os letreiros que fui encontrando na minha caminhada
não variavam nada:

"Entrada franca, não mexa em nada nem opere qualquer mudança"

Fosse eu menos honesto
levar-lhe-ia as palavras
actuando como ladrão
Assim, levo-as de recordação

Marilu disse...

Querido amigo, excelente texto. Tenha uma linda semana. Beijocas

Sandra disse...

VENHO CARINHOSAMENTE ENTREGAR EM MÃOS O MEU CONVITE DE ANIVER PARA O DIA 22.09.2010
LOCAL:CURIOSA.
HORÁRIO:DURANTE TODO O DIA.

É COM MUITO CARINHO QUE DEIXO O CONVITE A VOCÊ. ESTAR AQUI JUNTINHO DE VOCÊ É TER A CERTEZA QUE A VIDA NÓS DÁ DE PRESENTE, MAIS UM DIA..UM ANO MUITO ESPECIAL: O NOSSO ANIVR.
CELEBRAR A VIDA É TUDO DE BOM.
QUERO COMEMORAR CONTIGO ESTA DATA TÃO ESPECIAL.

VOCÊ SERÁ O MEU MELHOR PRESENTE..
VENHA SE DIVIRTIR COM A CURIOSA.
SERÁ UMA LINDA FESTA..
VAI TER BOLO, CHAMPANHE, DANÇA, SALGADINHOS..MUITA ALEGRIA.

UM GRANDE ABRAÇO..
DEUS TE ABENÇOE.
CARINHOSAMENTE
SANDRA

Luís Coelho disse...

Boa noite
Diria como o nosso povo:
- Nem deus te quer no céu nem o diabo no inferno.

Tantas coisas que não tem explicação

Maria João disse...

Não adianta tentar sair, antes do tempo, por qual porta que se encontre, a única solução é mesmo é pegar no bordão e caminhar, olhando ao redor. Ah! sim... e mantermo-nos humanos até ao fim!!


E não é, meu amigo Carlos, que as palavras voltaram... ei-las, com a grandeza e a luminosidade com que já nos habituaram.

Um beijinho

Maria Ribeiro disse...

CARLOS. que adianta querer mudar coisas, já por si imutáveis?
Temos que prosseguir a peregrinação ,sem bordão ou não...
O sol é sempre promissor...E, sim, é bom sabermos que há gentes e valores que sendo diferentes, querem o mesmo que nós: a FELICIDADE!
BEIJOS , escritor!
Mª ELISA

TERESA SANTOS disse...

A vida, meu Mwata, no seu emaranhado de "portas".
Portas que parecem abertas, "portas" dissimuladas mas escancaradas (para o bem?!), sequências de "portas" que nos abrem/mostram/tapam/ensinam caminhos.
É isto a vida: um emaranhado de "portas" que é preciso ir abrindo.
Abraço, meu Mwata.
P.S Prometes não te zangar? Ai, ai... O que é uma mateba? Sim, é um cordão, mas de quê?

Carlos Albuquerque disse...

Resposta à pergunta da Teresa Santos
O que é mateba?
Um espécie de junco pequeno que cresce nas margens de algumas lagoas em África, como na do Panguila a Norte de Luanda.
Cortam-se em fitas e secam-se as matebas, com elas fazendo, por exemplo, cestos. Tiras mais estreitas enrolam-se, daqui nascendo cordões resistentes. Com as matebas até vassouras se fazem.

TERESA SANTOS disse...

Obrigada, meu Mwata.
Vou começar a fazer um caderninho com estes vocábulos.
Abraço grande, Amigo.

Filoxera disse...

Cada troço tem o seu encanto, como cada trilho o seu senão...
Esta sua escrita encanta-me.
Um beijinho.