sábado, 4 de dezembro de 2010

Tempo da poetisa (Alda Lara)

Hoje a chuva intimidou-se, entaramelaram-se-lhe os pingos. Ficou por chegar. Em seu lugar trouxe a manhã um cacimbar frio, cortante, e, com ele, a saudade da terra quente e distante, onde nasci e vive parte do meu coração de alma perdida num constante vaivém. Com ele também a saudade e um sentir de solidão.


Quadras da minha solidão

Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...
(Alda Lara, poetisa angolana. Benguela, 1930, Cambambe 1962)

16 comentários:

São disse...

Alda Lara merecia ser mais recordada do que é.

Obrigada por a trazer até nós.

acácia rubra disse...

Um óptimo poema que ilustra a saudade que nos corrói de outras paragens e a impossibilidade de as revermos.

Beijo

Teresa Santos disse...

O mês pior do ano. Sim, sim, não me enganei: o pior.
O pior porque a solidão pesa em duplicado, porque a carência pesa em duplicado, porque a afronta daqueles que esbanjam, em detrimento daquele que nada tem, pesa em duplicado, porque a injustiça pesa em duplicado, porque a falta de um braço/abraço pesa em duplicado, porque a falta do filho/a que não tem, sequer, uma palavra pesa em duplicado, porque a hipocrisia sobe um duplicado.
Abraço, Mwata

Maria João disse...

"
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer..."

Não sabemos, não, Carlos.
É qualquer coisa diferente dentro de nós que nos faz sentir mais dentro de tudo, e a remexer no que, afinal, nos é mais importante e porque já não termos,nos faz tanta falta..

Um abraço amigo e bom fim de semana.

Rogério Pereira disse...

Carlos,
Aquela luminosidade avermelhada a quem chamei Maria do Sol, também lhe fazia falta...
Lembrar-me-ei deste poema (ou outro da Alda Lara)

Abraço

AVOGI disse...

nao conheço a senhora, aliás agora poso dizer que conheço o nome. já é um passo em frente.
mas nesta vida damos um em frente
dois atrás e por vezes mais , ma slá se faz a acaminhada tentando ir em frente mesmo que os péa puxem para trás. bem a chuva qui deixa-me com um ar de tartaruga
e isso irrita-me e encolhe-me , nao gosto de chuva nem mesmo quando toda a gente diz que é bom estar na cama com chuva , bem é que nunca tiveram os pingos de la a cair na cara.
kis :=(

tulipa disse...

Antes fosse...
que a chuva hoje...
também tivesse se intimidado
mas... pelo contrario,
caiu forte e feia...

Bonito poema.
Obrigada pela partilha.

Hoje estou "encurralada" num quarto de Hotel no Fundão, furiosa com o estúpido dia que aqui passei. Vim eu fazer mais de 300km para ver lugares que não conheço e o tempo metereológico não ajudou nada...que raiva!!! Nem uma foto consegui fazer, com esta chuva forte e a neblina que se instalou.
Felizmente trouxe comigo o portátil e cá estou "ligada" ao resto do mundo.
Boa semana. Beijos

De uma outra forma vou dizer o que hoje sinto:

Casas há que habitam o meu subconsciente
Hoje estavam mesmo à frente
dos meus olhos
parei o carro e admirei-as

Aldeia histórica de Castelo Novo
ali estavam elas, lindas
quis captá-las com
a objectiva da máquina
os meus segundos olhos
mas...a chuva não permitiu
que raiva!!!

A neblina e a chuva
são os elementos que "hoje"
ilustram a paisagem.
...
e, a minha alma chora!

Amapola disse...

Boa tarde, querido amigo Carlos.

Que bela escolha... Maravilhoso!!

Beijos no coração.

Malu disse...

Não conhecia o trabalho da poetisa.
Este poema que li é belo!
Abraço, amigo

Malu disse...

Não conhecia o trabalho da poetisa.
Este poema que li é belo!
Abraço, amigo

Thomas Albuquerque disse...

obrigado pela visita, "irmão" rsr

até mais...

Eu, Meu Contrário e Minha Alma disse...

Reforço:

... comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

rosa-branca disse...

Belíssima escolha meu amigo. Amei esse amor e a saudade de mãos dadas. Beijos com carinho

Filoxera disse...

Gostei.
Beijinhos.

Kimbanda disse...

Bom passar por cá e ter a oportunidade de voltar a ler Alda Lara.
Comungo da saudade dessa terra quente e húmida, a este clima jamais me habituarei.

Kandandos e Festas Felizes

Manolo disse...

Adorei seu blog, sou uma venezuelana que esta a aprender portugués. Estava a buscar algumas obras de Alda Lara e encontrei o poema que você pôs aquí. Parabéns para nós!!! Muito obrigada. María Antonia