sábado, 27 de novembro de 2010

Do Viajante

Finalmente, ao cabo de duas semanas de árduo trabalho, o rio profundo e caudaloso, fora vencido. Concluíra-se a ponte de toscos troncos de árvores a suportarem as longarinas metálicas levadas do aquartelamento. À frente a anhara de capim alto ondulante e arbustos pouco mais que rasteiros, uns ao dependuro doutros, serpenteava, qual jibóia gigantesca, a caminho do horizonte. Dum e doutro lado, mata cerrada. A ordem era para avançar, deixando a picada.
Metros andados sob o capim alto silvaram as balas. Atiraram-se para o chão na fuga ao projéctil que pudesse trazer destino agarrado a um nome. Ergueu os olhos, buscando os homens. Viu vultos colados ao solo, confundindo-se com o chão lamacento. A seu lado estendido o furriel enfermeiro sussurrou-lhe não saber da arma. Olhou-lhe para as mãos, entre elas estava apenas, fortemente segura, a caixa dos primeiros socorros.
Cessaram os tiros, a emboscada fora levantada. Possivelmente seria montada mais tarde, noutro local onde a tocaia pudesse resultar melhor. Regresso à picada. Não havia baixas, mas um soldado estava em falta. Uma procura rápida resultou em nada. Passou-se para o inimigo, pensou. Era tempo de voltar para o aquartelamento.
À chegada grande alvoroço.
Um soldado negro, um cuanhama com ar aterrorizado, estava rodeado por outros que, vociferando, o ameaçavam por ter fugido. Era o soldado que lhe faltava no pelotão. Afinal não se passou para o inimigo, disse para si. Aproximou-se e perguntou-lhe: Porque fugiste? A resposta surgiu com palavras não hesitantes: Não gosto da guerra, meu alferes!
Ouviu a voz do capitão, a seu lado: Mande amarrar este homem e prenda-o na masmorra, irá a tribunal militar. Não, capitão, jamais prenderei um homem que não gosta da guerra! O capitão, jovem miliciano recém-chegado ao teatro de operações, olhou-o, olhos nos olhos, e retirou-se em silêncio.
A guerra continuou. Em cada saída o soldado cuanhama colocava-se ao lado do alferes, sem que voltasse a fugir. A comissão terminou. O pelotão não teve uma única baixa. No seu registo de operações não ficaram a constar mortes infligidas ao inimigo.

8 comentários:

Manuela Freitas disse...

Eu muito gosto Carlos do que escreve sobre África. Às vezes passo por aqui e não deixo comentário, mas sempre leio, porque considero que escreve muito bem e de uma forma muito íntima de África.
Beijos,
Manú

(CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

Um texto intrigante,amigo. Torci muito que o soldado com seu gesto, conseguisse parar a guerra. Parabéns. Um abraço

TERESA SANTOS disse...

Querido Mwata, que saudade tinha dos teus textos.
Mas diz-me, achas que continua a haver homens, que tal como o cuanhama, não gostam de guerra? Tenho a certeza que sim, mas são obrigados, sempre, e sempre, a essa tarefa contra natura.
Abraço, meu Mwata.

Filoxera disse...

Como sempre, fiquei enredada no texto.
Bem podia ser uma parte de um livro.
A "moral da história" está excelente. Beijinhos.

Rogério Pereira disse...

Pronto
E agora? Que faço eu depois de ler isto, ainda por cima tão perto de mim? É que é tudo quase igual, com excepção das baixas e ... bom, vamos ver.
(acho que é importante ir escrevendo sobre isto, né?)

rosa-branca disse...

Embora eu goste de o ler não gosto de relatos de guerra, pois penso sempre nos que lá ficaram. Mas também existem os que vieram e não se libertam da maldita guerra. Beijos com carinho

maria teresa disse...

A guerra de que ninguém gosta mas que continua a existir. Houvesse uma vacina que a conseguisse irradicar da Terra!
Um testemunho perfeito revelador de uma sensibilidade difícil de descrever.
Abracinho meu.

Brown Eyes disse...

Aqui recordo as palavras da minha terra, uma terra com tanta luz e esperança. Também não gosto da guerra mas aprendi a viver com ela. Afinal aqui há guerra por qualquer motivo, não se gosta faz-se guerra, guerra que, como não tem um objectivo, nunca é vencida. Beijinhos