terça-feira, 30 de novembro de 2010

Conversa minha (Monotonia)

Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim.”
(Bernardo Soares – Livro do Desassossego)
Ah, a monotonia!

Veio átono o dia que hoje chegou. Mudei o olhar, fugindo ao monótono. Na palma da mão detive-me em linhas que são minhas, as linhas da minha mão. Em tempos quiseram lê-las. Disse que não. Elas nunca seriam para outros o que são para mim. Para além disso, perscrutá-las é um acto íntimo, só meu. É por elas que se vão escrevendo e guardando pedaços de vida, que vida me vão dando e tirando. Por vezes embaraçam-se, é certo. Ocasiões há em que erguem tabuletas com sinais sempre, ou quase, indecifráveis. Em momentos de reflexão guardam segredos, ciosas. Noutros soltam-se, vadias, correndo em busca do que sabem ser uma quimera. Fingem, como o poeta. As linhas da minha mão não conseguem nunca libertar-se do que são – as minhas linhas da mão!
E agora, para onde vão elas? Insisto. Por estranho que pareça soltam-se-lhes palavras, palavras não vazias. Entendo que desatinaram, e, em tal desatino, desafinado me chamam.

13 comentários:

São disse...

Bom texto acerca daquilo que vivemos um pouco ao deus-dará, dado o desconhecimento do futuro.

Ah, foi muito agradável ouvir Gal, sim.

Uma tarde serena desejo.

Rogério Pereira disse...

Mesmo desafinado, ou não
não preciso de ler a palma da sua mão
Fernando Pessoa fala por ela
e eu escuto a sua voz:
"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens."

(que ele copiou esta frase que eu escrevi não me lembro onde...)

Abraço

Fê-blue bird disse...

A escolha certa da canção, para uma excelente reflexão.

Beijinhos

acácia rubra disse...

Mas é desafinando e tendo a consciência disso que, quando pegamos no diapasão, percebemos como nos soube bem dasafinar...

Beijo

Marilu disse...

Querido amigo, lindo texto, e bela canção. Beijocas

Maria Ribeiro disse...

MEU CARO CARLOS: Até a monotonia pode incentivar o amor pela vida...por uma outra visão do mundo...Não quero confundir monotonia com desilusão..De qualquer modo ,estamos sempre em atonia...atónitos com as pequenas descobertas do dia a dia...como a monotonia, por exemplo...
BEIJO AMIGO
Mª ELISA
COMO VAI tUA SAÚDE?

Brown Eyes disse...

Que bela dissertação sobre as linhas da tua mão. As minhas ainda ninguém conseguiu lê-las, são diferentes, dizem, difíceis de ler, pouco claras. Beijinhos

La Preciosa disse...

O que vc supôs ser monotonia revelou-se um momento de grande criativade, muito inspirador e belo.
Parabéns pelo texto precioso.

Malu disse...

Adorei ver Gal por aqui.
Quanto às linhas das nossas mãos sempre são tão íntimas e interessantes somente a nós.
Às vezes os dia átonos são os mais produtivos, amigo...

La Preciosa disse...

Carlos eu compreendo você, sei que nem sempre podemos ler todos os blogs que seguimos. O importante é nao esquecer de vez.
Obrigada pelo post e saiba que nunca vi a neve, mas pretendo ainda ver, um dia. Um natal com neve deve ser a coisa mais encantadora da Terra.
Viu? o que para vc faz parte do comum, para mim é um mero e encantador sonho.

E assim, La nave Va,Vc daí e eu de cá! (ih, rimou!)
Abração!

Teresa disse...

Olá Carlos

As suas linhas nunca serão desafinadas.
Um beijinho especial.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Uma bela conjugação de música e palavras mas, por aqui, nunca há posts desafinados.

Filoxera disse...

Lindo, este texto poético acerca das mãos.
Importantes geradoras de magia, as mãos são do que mais belo podemos ter.
E este é um post cheio de beleza.
Beijinhos.