segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Do Viajante

A primeira vez:

Estava prestes a meter-se pelo segundo sono. Um som indecifrável comichou-lhe os ouvidos, acordou-o. Abriu os olhos. Por instantes breves, viu uma imagem ondulante. Era a de uma figura de mulher, braços abertos, cabeça levantada, vestida até aos pés, a sorrir. Foi a correr lá acima, em busca do rosto daquele sorriso. Nada! Quando lá chegou já aquilo se tinha esfumado, desaparecido. Levantou-se. Na casa de banho banhou os olhos, a apagar o que neles pudesse ter ficado. Regressou à cama. Dormiu, sozinho, até de manhã.

A segunda:

Dias depois, ou dizendo melhor, umas noites a seguir, quase logo após ter pegado no primeiro sono, voltou o tal som, agora um barulhito agudo. Descolaram-se-lhe as pálpebras. Não, não, não estava lá nenhuma mulher, mas sim uma cabeça de homem e um par de braços, a querer abraçá-lo, assim lhe pareceu. Desta feita ergueu as mãos. Em vão. Só ao vazio elas chegaram. Não se levantou. Chamou a si lençol e o cobertor. Atirou-se ao sono e por lá se quedou até um raio da manhã ter entrado pela persiana mal fechada a despertá-lo, sem que outro importuno chegasse.

A terceira:

Agora mais de mansinho. O som franzino parecia um zunido. A imagem de uma mulher, sim de uma mulher de cachecol ao pescoço, sorridente (quase lhe viu os dentes, mas os olhos não, não estavam lá, só uns redondos escuros!), de braços alçados, vestida até aos pés como a da primeira vez. Esta pareceu-lhe mais adelgaçada. Tocar-lhe foi impossível, sumiu-se num ápice! Levantou-se, andou pelo corredor, virou à esquerda para a sala, ligou as luzes. Estava tudo no sítio. Ficou por saber o porquê de tal verificação. De que andaria à procura? A verdade é que o fez. Deu a volta ao interruptor, voltou para trás. Um arrepio roçou-se-lhe pelas costas. Viu se a persiana estava completamente fechada. Deitou-se. Mandou o frio às urtigas com o lençol e o cobertor, virou-se para a direita, pôs a mão desse lado debaixo da almofada e, antes de fechar os olhos, perguntou à vida:
- És tu que andas por aqui, ou é a tua irmã?

5 comentários:

acácia rubra disse...

Qual das duas?

O que é certo é que acabava por voltar a dormir.

Eu é que já o não fazia...

Beijo

São disse...

Talvez ambas...

Uma noite sem pesadelos lhe desejo.

maria teresa disse...

É a vida que anda a brincar consigo de certeza...a irmã anda por outras bandas, ainda longe, a verificar a agenda para lhe dar cumprimento.
Abracinho meu

Licas disse...

Boa Noite Carlos

Obrigada pela visita ao meu blog e pela sua disponibilidade para concorrer.
Por mim não vejo qq inconveniente em utilizar um dos seus contos, desde que tenha consciência que esse facto poderá influenciar (Positiva ou negativamente) a votação, pois na fase de anonimato poderá ser reconhecido.
Deixo ao seu critério, mas terei muito gosto na sua participação.
Aguardarei a sua decisão.
Um cumprimento de boas vindas
Licas

redonda disse...

Cheguei aqui pelo link no blog Beijinhos Embrunhados.
Gostei deste texto e dos outros que li aqui.