quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O "talvezeiro"

(Palavra em título roubada a Mia Couto)
“May be Man”, o texto cuja leitura vos proponho, escreveu-o Mia Couto, sobre Moçambique. Qualquer semelhança com a realidade portuguesa é mera coincidência.
“Existe o “Yes man”. Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar. O May be man vive do “talvez”. Em português, dever-se-ia chamar de “talvezeiro”. Devia tomar decisões. Não toma. Sim­plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um “talvez” não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio. A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no “yes”. É que o “may be” é, ao mesmo tempo, um “may be not”.
Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior. Sem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên­cia. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo­gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se “comissão”. Há quem lhe chame de “luvas”. Os mais pequenos chamam-lhe de “gasosa”. Vivemos uma na­ção muito gaseificada.
Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be Man, uma oportunidade de negócios. De “business”, como convém hoje, dizer. Curiosamente, o “talvezeiro” é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enqua­dra-se no combate contra a pobreza (…)
(…) O May be Man é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de-conta. Para um país a sério não serve.”
(Para a leitura integral do texto, façam o favor de ir aqui.)

10 comentários:

Brown Eyes disse...

Carlos essa é a realidade em Moçambique e em Portugal. Aqui acho que os Yes Man são cada vez mais raros, proliferam os May be Man esses que não são mas aparentam ser. Então agora eles estão por todo o lado e são um perigo para os Man, não lhes custa nada acusarem, inventarem para usufruirem do que querem. Quem os criou? A sociedade de consumo, os poderosos que só pensam nos lucros e dá-lhes jeito manipular.
Beijinhos

Rogério Pereira disse...

O Couto
não só Mia,
também arranha
com graça
tremenda,
tamanha.
Tem a certeza de que ele se refere a Moçambique?

maria teresa disse...

Recebi há uns dois dias por e-mail.
Como sempre oportuno, mas posso ser supeita porque gosto muito do que ele escreve (gosto da sua subversão ao "estabelecido" na escrita)
Abracinho meu

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Não conhecia o texto. Delicioso!

Carla Farinazzi disse...

Albuquerque,

Quantas pessoas me vieram à mente lendo esse texto!

Incrível. Não só Moçambique e Portugal, mas o Brasil está permeado deles. Os may be man, os talvez homens...

Quantos problemas e situações ruins não estariam resolvidos se as pessoas decidissem, optassem por uma escolha! Se as pessoas se manifestassem... Se fossem pro embate, pro enfrentamento. Tá louco, dá vontade de chacoalhar pelos ombros, certas pessoas!

Beijo

Carla

Daniel disse...

Legal Carlos,
Mia Couto é uma baita escritor.
Abraços,
daniel
www.saitica.blogspot.com

Saitica disse...

Carlos,
Gostamos muito do seu blog. Estamos lincados. Abraços,
daniel e stella
www.saitica.blogspot.com

Maria João disse...

Está disseminado o vírus que transforma as criaturas que se dizem homens, em seres de vida rastejante e esquiva, predadores de valores e princípios cuja coluna há muito perdeu a verticalidade.
Acautelem-se os verdadeiros, porque os tempos são propícios à propagação de tal doença!


A lucidez e a transparência do olhar de Mia Couto, a fazer-nos temer e tremer por dentro.

Um beijinho Carlos

Agulheta disse...

Ao ler Mia Couto vamos ao encontro de muita coisa.Nos mostra a acutilante do texto que muito tem a dizer com actual.Pelo que sei os encontro como formigas a sair das tocas.
Beijinho amigo Carlos

Fernanda disse...

Amigo Carlos!

Antes de mais obrigada pelas suas palavras de apoio.
Bem haja!

É fantástica a visão do Mia Couto sobre os "vira-casacas" que tão bem conhecemos.

Realmente entre o "Yes man" e o "Maybe Man" há uma subtil diferença, sendo que o mais comum e o mais desprezível, nos dias que correm, seja mesmo o "Maybe man".
Este último tipo tudo menos "a Man", eu chamo-lhes os "invertebrabos" ... outras vezes ouso chamar-lhe, mais em privado, outros nomes bem mais feios.

Enfim, entre uns e outros, e são demasiados ... são mesmo muitos, safam-se os "Maybe man" melhor do que os "Yes man" e quem se "lixa" são sempre os verdadeiros HOMENS.
Será que alguma vez isto vai acabar?!!!

Beijinhos


Beijinho