domingo, 28 de novembro de 2010

O casamento (Memórias)

Na sanzala da família do amigo, de que o pai é o seculo, está marcado casamento. Aceita o convite. Mete-se à viagem. O Sol inclina-se cento e trinta e cinco graus para poente. Estar-se-á entre as três e as quatro da tarde. Os nimbos ao fundo prenunciam tempestade. Viajar em plena estação das chuvas por esta África escondida, longe das estradas alcatroadas, tem que se lhe diga, e muito mais para contar, quando o parceiro de aventura é um pequeno VW carocha, como aquela traquitana pintada de preto que ali vai galgando mato.
Há muito que se está a ver o quanto se esforça o carrito para transpor buracos e deslizar pela lama, às vezes em situação de equilíbrio instável na passagem pelos autênticos abismos que são os trilhos deixados pelos rodados pesados dos camiões nas picadas de lama. O carocha vence, chega ao destino. Vê, então, o que longe estava de imaginar.
Fora feito à terra o que ela mais gosta: dera-se-lhe amor.
Durante duas noites e dois dias, o mundo enfeitou-se nas terras do seculo. O chão à entrada das cubatas foi varrido, mas antes borrifado para assentar a poeira. A bicharada doméstica, cães incluídos, recolheu às cercas circulares de pau a pique e a outras clausuras.
No último dia as gentes do povoado churrascaram cabritos, galinhas cabiris, pedreses, algumas capotas, batata-doce e banana-pão. Cozeram mandioca. Bateram funge. Cozinharam feijão com óleo de palma. Apuraram muamba de pungo seco. Fizeram sopa de jimboa.
Refrescaram garrafões com marufo em poças de água da chuva entre o capim. Atestaram cabaças com vinho tinto. Ao sol-posto encheram com papaias maduras, fruta-pinha, sape-sape, caju e abacaxis, estes vindos de outros quimbos, pequenas quindas feitas de tiras secas de mabu.
Pela primeira vez, na história da sanzala, mãos negras amassaram farinha branca de trigo até todos os grumos desaparecerem, sem esquecerem a junção do sal e de fermento em pó, que ele oferecera ao amigo, e levaram o jimbolo a cozer num forno a lenha, escavado na terra com paredes de argila.
A matriarca, a mulher mais velha do seculo, em idade de apenas dar conselhos, não mais do que isso, pisou quitaba com caluqueta maduro bem picante, mais cahombo, destinada ao noivo por, na opinião dela, ser comida de pôr vigor no homem que vai casar! Depois de tudo aprontado, foram espalhados luandos pelo centro do terreiro da sanzala, e toros encostados como bancos corridos. Adornaram-se as mesas para o almoço, que seria jantar, ceia também, e, na manhã seguinte, mata-bicho.
Terminados os afazeres, homens e mulheres assearam-se em banhos no rio das choupas e dos cacussos, esfregando os corpos com sabão de óleo de dendê, por eles passando depois, a perfumá-los, pétalas e rebentos da floresta. Rasparam as plantas dos pés, os tornozelos e os cotovelos com seixos parecidos com pedra-pomes, ou talvez o fossem. Todos preparando-se a rigor. Com panos novos esmeraram-se elas no vestir, cada uma se ataviando com voltas de missangas ao pescoço. Para além destes ornamentos, as mulheres do seculo em idade parideira usaram também, nas pernas a caírem-lhes sobre os tornozelos, argolas de fios metálicos delicadamente entrelaçados, sinais da sua realeza, previamente esfregados com cinza e areia do rio, para se lhes avivar o brilho.
Depois rufaram tambores, percutiram-se marimbas, escutaram-se cânticos. Os noivos casaram, desapareceram num piscar de olhos, efeitos da quitaba, quiçá! A festa começou parecendo não mais querer acabar, o povo entrou na dança. Já a noite ia alta, com o céu vestido de estrelas, cansado do baile, sentou-se à beira duma fogueira, lado a lado com o seculo e a matriarca, sorridentes os três, bebericando marufo. Na manhã seguinte, ao dirigir-se para o carocha que o levaria de regresso, olhou para trás, fez um aceno, ouviu o seculo dizer "obrigado amigo". Não conseguiu evitar as lágrimas.

8 comentários:

Hana disse...

Olá, vim conhecer seu espaço, cheio de encantos em palavras me senti em casa, até fiz um chá, e agora ler o Viajante.
com carinho
Hana

acácia rubra disse...

Chegaram até mim a patinagem das rodas na lama das picadas; o cheiro da churrascada;a cor das iguarias; o som dos batuques...

E, de repente, uma vontade grande de comer cada coisa e de dançar ao ritmo da terra...

Beijo

Rogério Pereira disse...

Estes quadros acrescentam memória á minha memória. Coisas que já esqueciam... Foi bom te-las lembrado!

Abraço

(só me pergunto porque me recomenda o Carlos que eu publique e não segue ele o seu próprio conselho...)

Carlos Albuquerque disse...

Rogério Pereira,
Algumas estão publicadas - "Angola-A Cultura do Medo", Livros do Brasil, 2002. Outras estão a juntar-se,umas já quase em forma de livro ( A Irmã),as que restam logo se verá.
Quanto a si, o importante é que continue. Vale?
Abraço

gb disse...

... o seu banzo é notório ... fazer o quê?

... e, diga-me, de quanto foi o alambamento?

... o feijão com óleo de palma deu água na boa e o seu cheirinho chegou até aqui ...

... "foi bonita a festa, pá, fiquei contente" ...

Dulce disse...

Simplesmente lindo, Carlos... Envolvente, fez com que me sentisse presente em cada momento da narrativa...
Beijos.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Gostei da festa e, embora não conheça essa África, senti-me transportado até lá pelas suas palavras. Obrigado, Carlos
Grande abraço

Maria João disse...

Carlos

A leitura deste texto emocionou-me. Não é a primeira vez que tal me acontece quando o leio. Porque o meu amigo, tem este poder imenso de trazer para os meus olhos, a África que não conheço, mas onde vou consigo, aqui, embalada pelo ritmo calmo do pincel com que, em aguarela, vai pintando; traço a traço, cor em cor, aroma em aroma; o quadro que guardo como uma das mais belas obras de arte!

Obrigada por me levar lá e conhecer um povo por quem tenho a maior admiração e respeito.

Um beijinho grato