sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Do Mwata

A Kuxingila

São já muitos os caminhos andados por Paulo à procura de Sabrina. Com ele deambula também André, o seu amigo negro, pisteiro de caminhos difíceis, pesquisador de destinos.
Hoje, entram numa sanzala onde Paulo conhece um soba de carapinha branca, homem de grandes ciências, diz-lhe André, a que, porque é sábio, juntou outro, o da sua matriarca, a kuxingila que anda sempre de saquito de pele de bambi à cintura, cheio de poderes mágicos como pós de fumo e cheiro e um manipanço, e vazio de ilusões, estas, coisas para ela desconhecidas. A velha, porque de mulher antiga como a vida se trata, aparece-lhes enrolada num pano das cores da mata em redor, com o tal saquito pendurado numa trança de mateba envolvendo-lhe a cintura, voltas de missangas ao pescoço, que parecem rir ou chorar, consoante o ângulo de que se olhe para elas, de onde se dependuram, também, dois dentes de javali, e argolas feitas de fios metálicos, entrelaçadas em pele de um qualquer bichano do mato, do tornozelo até meio das pernas.
De entre todos na sanzala é com ela que têm de falar, pois só ela conhece o tempo certo em que os pós de fumo devem queimar para que os chamamentos resultem, não se falando, é bom dizer-se, da sua capacidade de mezinhar para atrasar a ida do corpo para as terras do sono sem despertar, e das palavras raras, para outros segredos, de seu conhecimento exclusivo, quase em desuso no mundo que se conhece, e sem as quais não há madjau ou mariábu – como por ali chamam aos sortilégios –, que valham.
Sentada num cepo à beira do crepitar de uma fogueira, a matriarca ouve o que André lhe transmite na língua falada por ambos. Adquire uma postura de estar perdida, provavelmente não isso, mas achada noutras paragens. Só as mãos se lhe movem lançando pós para as chamas dançantes.
Ao vê-la assim, sabendo já o que sabe, Paulo pergunta a André, se ele acredita que a Kuxingila tem, de verdade, arte para chamar e usar poderes.
- Ché, meu irmão! Não sei se acredito. Te juro sim que os mais velhos falam que ela tem uma data de sabedorias, que não faz nada à toa, que é mesmo capaz de andar de ligações com um ser que tudo sabe – um ou mais, agora sou eu que te digo, sei cá!
- Então, André, não é mesmo uma quinhenta de conversa fiada?
- Ué! Para quê saber tanto? A nossa África não gosta que lhe perguntem.

7 comentários:

Michelle Crístal disse...

Será enrolada no manto das desilusões, esses poderes mágicos poderia salvar dos grilhões, tudo apetece a dúvida ao tempo de revelar!?

TERESA SANTOS disse...

O mistério, a magia, e a arte da escrita, sempre.
Que bela definição de velha: "porque de mulher antiga como a vida se trata".
Abraço, meu Mwata.

Maria João disse...

Dizia-me a minha avó que também era mulher antiga como a vida, que os poderes que desconhecemos, nos devem merecer maior respito.
E não é que ainda hoje penso assim?

Mais uma pérola com as cores, os mistérios e as emoções de Africa.

Um beijinho

Maria João disse...

Carlos

Volto, para fazer a errata do que escrevi; claro que não é "respito" , mas "respeito" e
" África", falta-lhe o devido acento. As minhas desculpas!

Feita a correcção…

Aproveito para lhe dizer que "grande" fico eu, quando me escreve o quanto aprecia.

Um enorme abraço e bom fim-de-semana para si também.

Rogério Pereira disse...

P´ra mim
Neste texto
Só lhe falta o cheiro
(ou até mesmo nem isso...)

Abraço

acácia rubra disse...

" A nossa África não gosta que lhe perguntem."

Talvez por esta conclusão, tantas perguntas ficaram por fazer.

Beijo

Marilu disse...

Querido amigo, tenha um lindo final de semana. Beijocas