terça-feira, 26 de julho de 2011

Do Mwata (À Procura de Palavras)

Passa o olhar pelo redor que o cerca.

Choveu a chuva guardada na promessa da última ida. A anhara, ainda ontem de corpo ressequido e gretado, veste-se agora de seda, porque assim se vê a água que a cobre sorrindo para o céu. Emergindo, aqui e ali, as bissapas e as espinheiras juntam-se às acácias, emigrantes da savana. Sobre as folhas reverdejadas, debaixo dum vento flutuando e falando por assobio, estende-se o manto prateado das tuqueias aglomeradas, parecendo estrelas penduradas. Não tarda, virão as mulheres, talvez Bienas ou Luchazes, recolher o “peixe do capim”, ou como outros dizem o "peixe que voa".

Quando aqui chegou sabia não ter vindo para um ponto de destino mas, tão só, ter atingido uma linha de partida. Tem que seguir; quando a Lua chegar dir-lhe-á para onde.

Tão certo como a existência das tuqueias, sabe que irá encontrar outras terras, gentes, noites e manhãs, sonos e despertares novos, um Sol diferente, e, é o mais certo, aquele grande lago de que lhe falaram e que lhe disseram chamar-se Mar.

Não o amedronta a viagem, nem a incógnita dos novos encontros, quiçá reveladores de descobertas. Nele não moram agitações; é calmo e paciente como o velho cágado da sua meninice, de que se separou já não sabe quando nem onde. O que o inquieta é não saber o que, para além dele, há-de levar consigo.

Aproveitando uma termiteira poupada pelas águas, a ela se encosta, dando-se a pensar: O melhor será levar palavras, sempre poderão ajudar-me nos entendimentos.

Pega num pedaço de terra vermelha amolecida da base da casa das térmitas, e põe-se, com ela, a fazer palavras, passando-as de uma mão para a outra. Assim tem estado, deixando correr o tempo apenas com o silêncio do gesto das mãos, até que a Lua chega, avisando serem horas de partir.

Não, diz ele, só seguirei quando em mim for manhã. É que, sabes, ainda não descobri de quantas palavras vou precisar.

3 comentários:

folha seca disse...

Caro Carlos Albuquerque
Para quem não passou por Africa (safei-me à justa) haverá neste e noutros textos que o meu caro tem produzido, algumas palavras que não se entendem à primeira. Relendo acabamos por lhe perceber pelo menos o sentido.
Um visão de parte da sua vida. Uma forma de a descrever apaixonante. Para quando o livro?
Abraço

Carlos Albuquerque disse...

Caro Rodrigo (Folha Seca)
Não passei por África. Nela nasci, simplesmente. Dela saí, a ela voltei e tornei a sair, em definitivo.
Livros!
Em 2002 publiquei "Angola a Cultura do Medo", Edições Livros do Brasil.
Está um segundo pronto, e outro na forja. Para quando a chegada ao público?
Logo se verá.
Um abraço

acácia rubra disse...

Carlos

À procura de palavras fiquei... e não as encontrei. Usaste-as todas - as escritas e as que estão para lá delas.

Achei duas:

um beijo