quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia da Mulher

Neste Dia Internacional da Mulher chegou-se-me à memória uma mulher que conheci há muitos anos, andava eu em serviço por Angola. Dela falei num texto aqui publicado em Novembro de 2009. Reedito-o.
 
[“Era uma vez um belo dia de Sol. Parti para o destino da reportagem - um campo de leprosos a Norte de Luanda. À chegada o Sol perdera a perfeição com que nos cativa o espírito, estava já a entregar-se ao adormecer da tarde.
Um fileira de casas de pau-a-pique, carcomidas pela idade e pelo abandono, algumas palhotas e um casebre, destelhado, onde gente de uma ONG angolana preparava refeições para distribuir.
Tinham-me avisado para me “preparar para o choque”. Fizera pouco caso. Já vira horrores de três guerras, sentia-me blindado. Avancei por aquele espaço onde tudo era sombra. Olhei por portas meio caídas, entrei numa e noutra palhota. Vi restos de gente, quase sem rosto, arrastando-se, corpos ansiosos aguardando o pão que, sabiam, estava para chegar. Como sabiam que nada mais lhes caberia do que ali ficarem, ostracizados, entregues à ferocidade do destino. Saí com o coração a doer-me e lágrimas a chorarem. Respirei fundo. Prossegui.
Alguns metros à frente parei junto de uma porta. Ali estava sentada uma velha com o que lhe restava das mãos sobre os joelhos. Olhámo-nos. Os seus olhos, grávidos de tristeza, rodaram, como a ensaiar um gesto. Disse-me alguém que me acompanhava: “Ela quer um cigarro.”
Baixei-me, de joelhos, frente a ela. Acendi um cigarro e levei-o ao que, outrora, teriam sido os seus lábios. Aspirou o fumo. De novo os seus olhos me procuraram, agora esvaziando uma lágrima a sorrir. Ia levantar-me quando o que das mãos lhe restava se encostou às minhas. Ouvi-lhe um sussurro:
- M´adesculpa, só. T´agradeço.
Levantei-me em silêncio, não sabendo o que dizer. Regressei, coração gelado, trazendo aquele olhar grávido comigo.
As mãos, que ela tocou, são estas com que hoje escrevo.”]
(ainda hoje me encontro com aquele olhar)

10 comentários:

São disse...

Comovente, comovente, comovente...nada mais sou capaz de dizer senão que as lágrimas não são só as suas, meu amigo.

Bem haja!

folha seca disse...

Caro Carlos Albuquerque
Na nossa memória habitam bons e maus momentos. Há realidades que por vezes não fazemos a mais pequena ideia de como são de facto.
Sim não podemos esquecer os horrores que um dia enfrentamos cara a cara. Recordá-los é uma forma de nos olhar-mos ao espelho e nos motivar-mos para contribuir para os minimizar quando não os podemos evitar.
Aquele cigarro foi uma dávida dos céus a quem já não tinha nada, muito menos esperança.

Rogério Pereira disse...

Teu texto fez-me ocorrer que a alma se mantém inteira quando há humanidade nela, apesar do sofrido o corpo...

Mas não posso deixar de lembrar que, os leprosos da alma perderam, de todo, o olhar...

acácia rubra disse...

Um beijo... apenas

Com todo o carinho

TERESA SANTOS disse...

Meu Mwata,

Poderá parecer-te um disparate o que vou dizer-te, mas...?
... mas penso que foram todas essas vivências que contribuíram para que fosses o Homem integro, o Homem com alma, o Homem que hoje és, o Homem digno desse nome.
Como sabes, não há muitos!
Simulacros de homens sim, mas apenas isso.

Abraço muito grande, meu Mwata.

Marilu disse...

Querido amigo, inimaginável para aquela velha senhora o valor do teu gesto em dar-lhe um cigarro e deixar que ela te tocasse as mãos.Mediante tanto sofrimento que existe espalhado pelo mundo vemos o quanto egoísta somos. Linda e triste história e tenho certeza que jamais esquecerás "aquele olhar grávido". Beijocas

Catsone disse...

Amigo Carlos, o adjectivo que me vem à cabeça após ler este teu texto: "Sublime".
É incrível como as palavras podem pintar quadros tão extraordinariamente completos. Senti-me, eu mesmo, a dar à velha aquele pequeno prazer que tão humildemente te agradeceu.
Obrigado por estes minutos de prazer que me ofereceste com este teu testemunho.
Grande abraço.

acácia rubra disse...

Carlos

Como estás?

Eu não muito bem. Tive um episódio de cegueira do olho direito na semana passada (cerca de 20 minutos) e agora uma lista de exames para fazer. O veredito é poder, se se repetir, ficar totalmente sem visão. Não quero pensar.

Mas ando preocupada. Estás mesmo bem?

Bejinho

Laura

Não sei se o comentário terá entrado à 1ª vez. Se assim tiver sido, apaga-o, por favor.

Brown Eyes disse...

Vieram-me as lágrimas aos olhos.
Beijinhos

Orvalho do Céu disse...

Olá, Carlos
Passo pra saber com está e desejo que esteja muito bem junto aos seus...
Também pra desejar-lhe uma Feliz Pascoela!!!!
Gostei muito do relato e das palavras: "brindado"... "ostracizado"...
Abraços fraternos de paz e pascal