quarta-feira, 7 de março de 2012

Do Mwata

A Flor da Vida
Barba mergulhada entre as mãos.
Pensamento prisioneiro do silêncio, parecendo o encarcerado por Calipso em Ogígia.
Alma de face esmaecida, voz cava, prolongada, perdida, vagando. O que avista não é o seu mar. Este tem espumas de sombra. Lá, num longe que já não alcança, está o seu mar da Kyanda, de quietude serena, com ondas brincando às pedrinhas com diamantes lapidados pelo Sol. Lá, naquele longe, está o canto da Kyanda ao entardecer e nas noites em que a Lua desce para amar o mar, deixando que, junto às casuarinas, todos se amem.
O espírito, esse, não gosta que a vida se arraste pelo silêncio. Pode ser que os deuses, os mortais e os que o não são, os quimbandas, ou até mesmo as kuxingilas, o queiram, ele não.
Decide, então, partir em viagem no seu dongo, a caminho da cacimba do velho embondeiro. Leva o pungue para chamar a árvore, e a quinda para trazer o tesouro que tem de trazer para a alma voltar a sorrir.
Sabe ele, o espírito, que antes das múcuas nascerem o embondeiro poderá deixar cair as flores da vida sobre a água. É uma delas que ele procura.
Hoje, pelo capinzal, abriu-se caminho. A neblina, forro da cacimba, levantou-se. Uma flor ele vê. Recolhe-a. Trá-la. Oferece-a à alma, dizendo-lhe:
- Dá-lhe amor a comer e carinho a beber. Desta flor brotará vida.
Ilumina-se a face da alma, desenhando-se-lhe de novo o sorriso.

6 comentários:

São disse...

É sempre deliciosa a sua leitura, meu amigo.

Bem haja!

folha seca disse...

Caro Carlos Albuquerque
Os seus textos transportam-me para um mundo que não conheço, mas onde me consigo situar pela descrição algo poética que imprime ao que escreve.
Vale a pena acreditar na vida e nas flores que ajudam a diminuar as tristezas que nos vão impondo.
Um grande abraço.
Rodrigo

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acácia rubra disse...

Carlos

Queria fazer um comentário ao teu texto. Mas, perante esta "Flor da Vida", não consigo mais que dizer-te que estou emocionada.

Que bem escreves! Que ternura e doçura há neste encontro com "A Flor da Vida"!

Com muito carinho, um beijo

Laura

Rogério Pereira disse...

Faltou-me ter o corpo também sem farda para poder ter tido o contacto com as palavras e com o que aqui me trazes, nesta bela "Flor da Vida"

Brown Eyes disse...

Excelente Carlos, como é habitual.
Beijinhos

Fê-blue bird disse...

Meu amigo nem imagina o bem que me fez ler este seu lindo texto.
Obrigada.

beijinhos