sábado, 25 de abril de 2009

Não nos esqueçamos



Exploração de mulheres meninas

Mais do que falar sobre o 25 de Abril, apeteceu-me (perdoe-se-me a sem-cerimónia) contar uma pequena história.

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Meses depois do 25 de Abril soube que na Companhia das Lezírias, no Ribatejo, se explorava trabalho infantil e adolescente, quase que exclusivamente feminino.
Fui ver e, com a cumplicidade de um caseiro entusiasmado com o 25 de Abril, consegui contactar um grupo de doze raparigas, entre os 12 e os 15 anos de idade, que trabalhavam no campo, vozes tímidas, caras enrugadas, como se a vida tivesse já passado por elas, envelhecendo-as. O que vi e ouvi chocou-me e permanece vivo na minha memória, 35 anos passados. Apresentei a reportagem na RTP (a única televisão da altura).
Aquelas raparigas viviam numa camarata, algumas dormindo em colchões sobre chão de cimento, sem qualquer contacto com o mundo exterior para além das searas em que calejavam e feriam as mãos na labuta do nascer ao pôr-do-sol. A higiene pouco ou nada se lhes chegava por falta de casas de banho. A alimentação, almoço e jantar, era-lhes servida numa panela de onde se retiravam porções para um prato de alumínio dado a cada uma, comendo com as mãos, pois não lhes eram fornecidos talheres. Um pedaço de pão fazia as vezes de colher ou garfo. Pouco respondiam às minhas perguntas, refugiando-se na profundidade de olhares angustiados, inquietos e tementes.
Eram, todas elas de uma freguesia do concelho de Abrantes, na margem esquerda do Tejo, aonde me desloquei para falar com os familiares. Nada me disseram para além de que as raparigas não podendo frequentar a escola, por falta de recursos, iam trabalhar para o campo. O pouco dinheiro que os patrões mandavam para as famílias, sempre era uma ajuda. Dinheiro enviado às famílias. As raparigas nunca o viam nem sequer sabiam quanto ganhavam! Quanto ao tempo de trabalho, por lá ficavam até que se fartassem delas, ou adoecessem, e as recambiassem para casa!
Tempos depois o 25 de Abril chegou à lezíria e acabou-se o trabalho escravo!

1 comentário:

elvira carvalho disse...

Eu sei que se utilizou muito trabalho assim. O pior é que 35 anos depois ainda acontecem coisas do género.
O meu conto já vai muito longo. A história começou em 1917, assistiu ao final da 1ª Grande Guerra, atravessou a recessão económica e a Segunda Grande Guerra. É a história do Manuel, dentro da história mundial.
Retirei do Sexta os episódios anteriores, quando me copiaram 2 posts. Mas se tiver interesse basta que me contacte e eu mando-lhe os anteriores.
Um abraço e obrigada