domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril

Na madrugada de 25 de Abril de 1974, o meu País derrubou a cerca de grandes muros em que, de há muito, o haviam aprisionado. Rasgaram-se as trevas que o cobriam. O dia amanheceu com cravos florindo na boca de espingardas. Em festa, o povo saiu às ruas gritando palavras até então amordaçadas e proibidas. Uma revolução com flores reconquistara a Liberdade. Os presos políticos, muitos torturados pelos algozes da ditadura, foram libertados. Do exílio regressaram os que tinham dedicado a vida à luta pela Liberdade. Assassinados pela ditadura, muitos ficaram pelo caminho. Nascera o sonho de um País novo, do homem novo. Sonho tantas vezes sonhado!
Para que se não esqueça, e os mais novos saibam, era assim o país que nos deixaram:


Exploração de mulheres meninas
Meses depois do 25 de Abril soube que na Companhia das Lezírias, no Ribatejo, se explorava trabalho infantil e adolescente, quase exclusivamente feminino.
Fui ver. Com a cumplicidade de um caseiro entusiasmado com a revolução, consegui contactar um grupo de doze meninas, entre os 12 e os 15 anos, que trabalhavam no campo. Vozes tímidas, caras enrugadas, ombros caídos, envelhecidas. O que vi e ouvi chocou-me e permanece vivo na minha memória, 36 anos passados. Apresentei a reportagem na RTP, televisão para que fui trabalhar depois do Dia da Liberdade. Chamava-se “Em Foco”, o programa então da minha responsabilidade e por mim apresentado.
Aquelas meninas viviam numa camarata, algumas dormindo em colchões sobre chão de cimento, sem qualquer contacto com o mundo exterior para além das searas em que calejavam e feriam as mãos, na labuta do nascer ao pôr-do-sol. A higiene pouco ou nada se lhes chegava por falta de casas de banho. A alimentação, almoço e jantar, era-lhes servida numa panela de onde se retiravam porções para um prato de alumínio dado a cada uma, comendo com as mãos, pois não lhes eram fornecidos talheres. Um pedaço de pão fazia as vezes de colher ou garfo. Pouco responderam às minhas perguntas, refugiando-se na profundidade de olhares angustiados, inquietos e tementes, recolhidas no silêncio do medo.
Eram todas de uma freguesia do concelho de Abrantes, na margem esquerda do Tejo, aonde me desloquei para falar com os familiares. Nada me disseram para além de que as meninas não podendo frequentar a escola, por falta de recursos, e porque o ensino não era, como hoje, aberto a todos, iam trabalhar para o campo. O pouco dinheiro que os patrões mandavam para as famílias, sempre era uma ajuda. Dinheiro enviado às famílias. As meninas nunca o viam nem sequer sabiam o que ganhavam! Quanto ao tempo de trabalho, por lá ficavam até que se fartassem delas, ou adoecessem, e as recambiassem para casa!
Tempos depois o 25 de Abril chegou à lezíria, acabando com a escravatura!

(Pelas portas que Abril escancarou entrou a Liberdade, mas também muita lama, muito lodo purulento, putrefacto, que tudo vai contaminando, visando destruir o sonho. Eu sei. Mas a verdade é que a esperança não morre. Abril voltará a encontrar Abril. Que tenham todos um excelente Dia. Brindemos a esse bem único e reconquistado - a Liberdade!)


14 comentários:

Antonio saramago disse...

Amigo Carlos,é verdade o que aqui escreve e digo com conhecimento de causa,não por andar por lá a trabalhar mas por ser um Ribatejano.
Também comecei a trabalhar com onze anos,hoje é exploração infantill dantes era a sobrevivência.stica

Maria João disse...

Carlos

Ainda ontem, na legendagem de um filme, vi escrito que o doce é muito mais doce quando se provou o amargo. Esta frase, fez-me lembrar, o quanto se desvalorizam hoje tantas coisas que são verdadeiras conquistas de Abril e de um mundo, sonhado, por tantos, melhor. Coisas doces, saboreadas e menosprezadas por muitos que, não sabendo ou já esquecidos , do gosto amargo desse país de outrora, o contaminam com muito fel. Quero acreditar, que os relatos de vida de um povo amordaçado, torturado, aprisionado e sofrido, um povo que como diz, gritou e chorou as palavras de uma liberdade até então, sufocadas pelo medo, quero acreditar dizia, que esses relatos, multiplicados até à exaustão, chegarão para reavivar memórias em alguns e semear nos mais novos, os valores que nortearam a revolução dos cravos. Porque a liberdade é um tesouro doce. Que para saboreá-la bem, nunca ninguém mais, tenha de provar o sabor amargo de uma ditadura.

PS - Ainda hoje vivem tristes, os olhos desses meninos e meninas, a quem lhes roubaram a infância.

Um beijinho

Dulce disse...

Brindemos a Liberdade, então, Carlos, na esperança de que Abril volte a encontrar Abril...
Temos por aqui desencantos bem parecidos com os que tem ai, meu amigo...

Que seu dia seja de paz, e que os cravos encarnados de Abril floresçam lindamente no coração da Terra Portuguesa que aprendi a amar desde o berço...

Manuela Freitas disse...

Por Abril sempre, pelos tantos sonhos que me envolveram, por algumas conquistas e hoje não me parece oportuno manchar o dia com decepções e frustrações.
Um abraço,
Manuela

Teresa disse...

Carlos
Felizmente, já não há casos como o que descreve. Mas, infelizmente, continua a haver casos de exploração infantil de modos mais ou menos subtis. Continua a haver muita coisa a fazer.
Bjs

quicas disse...

Abraço solidário, amigo! Bom domingo, finalmente no seu ninho!

Agulheta disse...

Amigo Carlos!De lágrimas nos olhos me deixou neste dia de Abril,eu sei que assim era antese depois durante alguns meses foi continuando nos latifundiários que amordaçaram o povo.Posso dizer que em minha casa "pais" como filha foi bem esclarecida sobre o sistema que oprimia,sofri por ver o Pai lutar pela liberdade.Portanto para mim Abril será sempre por várias razões,quanto ao programa (em foco) me lembro muito bem meu amigo.Bem haja pelo texto que muito esclareceu.
Beijinho e bom restabelecimento
Lisa

Fernanda disse...

Meu querido amigo Carlos,

Entrou sim muito lodo, tanto que estamos atolados nele, mas haverá, tem que haver esperança, e mais Abris virão.

Beijinhos

Na Casa do Rau

Rosa Carioca disse...

Concordo que melhorou em certos pontos mas acho que se passou de um extremo ao outro. Vivo numa "falsa" democracia, numa democracia de "fachada". Não sinto que vivo num "Governo do Povo", como quer dizer a essência da palavra. Sinto-me uma marioneta nas mãos dos senhores que abarcam o poder e o usam conforme seus próprios interesses. Desculpe o desabafo mas custa-me ver como a luta por uma causa, foi tão deturpada. Sou, completamente, apartidária.

Filoxera disse...

Tchin-tchin...
beijinhos.

maria teresa disse...

Brindemos à Liberdade!
Muitos dos que nasceram depois de 74, não têm a mínima noção do que é a falta dela...
Abracinho

Laura disse...

Minha nossa, caramba, nem imaginava tal coisa, já que vivi desde menina em Luanda, e nem sabia disso, que vergonha, é por siso que há homens com o h mais pequenino que se possa encontrar...Que dor, podiam ser nossas filhas, nossas netas, podiamoss er nós... Um beijinho Carlos e como vai a saúde?
quanto ao 25 de Abril para mim foi mau, a retirada de Angola e meu coração ficou lá... laura

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Sei muito bem do que fala, caro Carlos. Não nessa época, mas já nos anos 90,encontrei também casos semelhantes e denunciei um deles, no Vale do Ave, numa fábica que trabalhava para a Reebok.
Fui muito criticado, porque quando soube da notícia, a Reebok cancelou as encomendas e a fábrica acabou por fechar.
Já escrevi no CR sobre esse caso e muitos outros pasados em vários países do mundo e que pesenciei, envolvendo trabalho iinfantil. Infelizmente, é muitas vezes tolerado até pela própria Igreja. encarado

CARLA FABIANE... disse...

amigo Carlos...
Que bom voltar à ler-te.
alguns problemas pessoais,não me permetiram agradecer-te antes.
Pelo imenso carinho e respeito, aos meus recantos.
ABRIL QUE NOS TRAGA ESPERANÇA.
E NOS PERMITA SONHAR!
DEUS TE ABENÇÕE AMIGO...