segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Cidade da Minha Vida

Resposta ao desafio do Carlos Barbosa de Oliveira (Crónicas do Rochedo).
Nos meus andares pelo mundo estive em muitas cidades de África, Europa e Estados Unidos. Umas fiquei a conhecer, razoavelmente. Outras, apenas por elas passei. Algumas encantaram-me, a elas voltando. Como não gostar de Florença, Paris, Londres, Abidjan, Lusaka, Benguela, Praga, Budapeste, Berlim, Nova Iorque e São Petersburgo, para não falar de outras?

Mas, a Cidade da Minha Vida é Luanda, que em tempos se chamou São Paulo da Assunção de Luanda. Não vou falar da história da capital de Angola, mas dizer, apenas, porque a elejo. Foi ali que me fizeram nascer num Agosto de cacimbo, era ela ainda menina, estendendo-se do Atlântico para o planalto, abrindo com os seus dedos finos ruas e avenidas, plantando um bairro aqui, outro além, rasgando espaços para que neles se pudesse crescer. Eu cresci, ela fez-se mulher.

Quando se me chegaram os primeiros choros foi dela que uma mão amiga se soltou, me afagou a face, me ameigou os olhos e me susteve as lágrimas. Nos momentos de desalento ofereceu-me um ombro para repousar, falou-me de coisas simples, ensinou-me os nomes da vida. Já espigadote pôs-me a chapinhar em poças de água de caminhos molhados. Permitiu que me deitasse no capim encharcado pela chuva e, de boca aberta, deixasse que a água caída do céu me tangesse a garganta. Foi ela que me ensinou a beber das lagoas e rios, depois de neles ter mergulhado, fazendo das mãos concha. Amestrou-me na prova do funge, do pirão, da muamba, do mezonguê e do jindungo, dando-me a beber o marufo.

Pacientemente, ensinou-me a construir a minha primeira bola de meia, enchida de trapos e sumaúma, e com ela jogar, mais outros munangas, na lama dos musseques. Munangas com cor de pele diferente da minha, mas meninos como eu, companheiros fieis dos meus desmandos e, mais tarde, de estudos. Éramos um só quando queríamos fugir ao ralhete das mães. Também íamos aos passarinhos! Era ainda puto quando me deu a provar o Mar, ficando eu com a surpresa de que aquelas águas eram salgadas como as minhas lágrimas! Levou-me, pela mão, aos quintais das rebitas de Sábado à noite. Ajeitou-me para o primeiro olhar comprometido, para o primeiro beijo consentido, que me inebriaram e me estrearam nos namoricos. Mostrou-me as casuarinas, sob as quais, tendo a Lua a olhar, e por companhia o doce deslizar das ondas sobre a areia fina da praia, conheci outro corpo que não o meu, arfando de desejo na praia mágica da Ilha da Kyanda.

Foi ela que me desafiou para a aventura da entrada nas matas cerradas e para o percorrer das anharas sem fim, numa das quais, um dia, avistei um leão e lhe ouvi o rugido forte de rei da selva, deixando-me a tremer dos pés à cabeça, e o sangue a circular-me pelas veias de freio nos dentes! Levou-me às acácias rubras de Benguela, a belas quedas de água, às Pedras Negras de Pungo Andongo, a ver as pegadas da Rainha Ginga e à gigantesca floresta do Maiombe, em Cabinda, terra de pepitas de ouro, de chimpanzés, saguis e gorilas (estes já não). Guiou-me ao território dos mumuilas e às Terras do Fim do Mundo onde conheci os bosquímanos. Também me levou a uma guerra de que regressei sem ter morto alguém do outro lado. Dela não fugi, porque não sei fugir, mas vim revoltado com o que vi e senti, maldizendo quem a declarara.

Deu-me o Mwata Milagre, o velho negro de carapinha branca empregado em casa de meus pais, de que já falei no meu blog, e os melhores professores de Português, Matemática, História, Filosofia e Inglês, que alguém pode ter, e que me ensinaram, também, a ser solidário e verdadeiro, a respeitar os outros e a acreditar que num mal pode, igualmente, estar um Bem. Aprendi, estou-lhes grato por me terem ajudado a ser o que sou.

Um dia, era quase homem, apresentou-me o amor com que passei a viver, em companhia para toda a vida. Hoje somos quinze na nossa tribo. Mais seremos amanhã, que outras flores nascerão, certamente.

Por tudo o que disse, e pelo muito que ficou por dizer, Luanda é a Cidade da Minha Vida. Não mais lá voltarei. Quis o destino (esse monstro!) que assim fosse. Mas por grande que seja a distância a separar-nos, maior é a saudade, e bem viva a imagem que dela tenho e o cheiro único da terra vermelha molhada pela chuva. Luanda será sempre a Cidade da Minha Vida.
(Não tendo fotografia que se veja, decidi colocar a imagem que está lá em cima, por ser bem um postal verdadeiro da minha Luanda actual)

22 comentários:

Dulce disse...

Caminhando pelas suas palavras, percorrendo o tempo e sua cidade, dificil não ficar enamorada por esse lugar-mistério, pois para mim Africa sempre foi sinônimo de magia, encanto e mistério...
Uma linda canção para sua Luanda. meu amigo.
Beijos

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Carlos.
Muito obrigado pela sua participação. escreve sobre uma cidade que adorava conhecer, mas nunca tive oportunidade de lá estar. Recentemente, ofereceram-me um emprego lá, mas depois de falar com pessoas amigas que lá vivem, cheguei à conclusão que já não estou em idade de embarcar nessa aventura.
estou a fazer os links por ordem de chegada, por isso o seu entrará na sexta-feira, ok?
Grande abraço e mais uma vez obrigado.

Anónimo disse...

Senhor,
calcorreámos os mesmos caminhos e conhecemos os mesmos musseques, as mesmas ruas e avenidas. Cheirámos o caju e o maboque e do Bengo a mesma água bebemos. Todavia, se Luanda é a cidade da sua vida, da minha apenas foi enquanto a tive sob os meus pés. Deixei-a e ela deixou-me partir. O senhor é um homem de sorte porque ainda tem "a cidade da sua vida". Eu, ao contrário, não tenho nenhuma. As suas palavras têm cheiro de Luanda e gostei muito de as ler.
Com os melhores cumprimentos,
maria margarida

Teresa disse...

Que texto bonito e sentido sobre a cidade que o viu crescer. Já tinha saudades dos seus escritos.
Bjs

Carlos Albuquerque disse...

Anónimo (maria margarida)
Gostaria de saber se tem um blog. Se sim, deixe o link. Seria um prazer conhecer quem me fala do Bengo, do caju e do maboque. Acrescento: e as mangas, as pitangas, as gajajas e as múcuas?
Um abraço

Fernanda disse...

Querido amigo Carlos,

Tive sempre a ideia que terias raízes africanas, mas nada sabia de concreto.
Sabia e sei, que sempre senti esta enorme empatia por ti e da qualidade, fora de série, do tudo o que escreves.

Não tive a tua sorte, não sou viajada, nunca estive noutro continente, mas hoje fiquei a conhecer um pouco mais de Luanda.
Obrigada amigo.

Para além do texto, adorei ler o comentário sofrido da Maria Margarida. Lindo.

Beijinhos


Na Casa do Rau

ematejoca disse...

O Continente Africano nunca me seduziu, desde criança que queria viver na Alemanha.
Contudo ao ler este MARAVILHOSO texto fiquei também a ter um pouco de carinho pela "sua" Luanda, Carlos, mesmo sabendo, que é uma cidade que nunca irei visitar.

Quero felicitar os dois Carlos:
Um teve a fantástica ideia de um desafio sobre "A cidade da minha vida".
O outro respondeu ao desafio com todos os requintes de mestre da língua portuguesa.

Bjs

MARIINHA disse...

Não conheço Luanda. Nunca estive em África. Mas gostei muito da forma como falou da sua cidade. Fala no cheiro da terra. Já tenho lido e ouvido falar nesse cheiro tão característico de África

Carlos espero que esteja melhor.
Um Abraço

Carlos Albuquerque disse...

Fernanda,
Na esperança de que aqui possas voltar quero dizer-te que não consigo entrar na Casa do Rau. Demora, bloqueia por vezes e, o que é mais estranho, desliga-me a Net!
Recordo-me que, há tempos, tive o mesmo problema com o teu blog. Não faço ideia do que poderá ser. Irei tentando.
Beijinhos

Luis disse...

Amigo Carlos Albuquerque,
As lágrimas afloraram-me ao ler sobre a sua, nossa Cidade. Não nasci lá mas lá vivi! Minha Mulher é de lá e muito sofrida está pois toda a sua familia paterna é Angolana, de outra Cidade também lindíssma, Namibe! Sempre sonhei acabar os meus dias por lá mas agora nem pensar.De Angola só não conheço Cabinda e a Lunda, tudo o resto conheço a palmo e a pé!
Um forte e amigo abraço com o desejo de rápidas melhoras,
Luís

Anónimo disse...

Se pudesse, deixar-lhe-ia aqui, o cheiro dos tamarindos e das maçãs da Índia (estas da Rua da Índia, no Cruzeiro). Como não posso, deixo-lhe uma foto da cidade da sua vida e mais algumas letras ...
http://quotidiano-.blogspot.com/2010/02/exilio-saudade-de-mim.html

Saudações,
maria margarida

Rosa Carioca disse...

Luanda, cidade que ficou gravada no meu coração para sempre... e só vivi lá 5 anos. Ela é mágica! (ou era)

Amapola disse...

Bom dia, amigo Carlos.

Quanta vivência... quantas histórias.
Se você escrever um livro, mergulharei nele.
A África me emociona demais. Infelizmente não dá para esquecer que o meu amado País foi regado com lágrimas, suor, e sangue dos escravos.

Um grande abraço.

Manuela Freitas disse...

Carlos, normalmente sempre se tem uma grande inclinação pela terra onde nascemos!...Excelente e fascinante é a sua forma de escrever, indo dos pequenos aos grandes detalhes com uma força vivencial muito grande.
Eu não conheço Luanda e não gosto de Luanda, tinha conhecido há 4 meses o meu marido quando ele foi para lá em serviço militar, mas isto são outras conversas!
Um abraço,
Manuela

Clecilene Carvalho disse...

Adorei ler sobre Luanda e saber um pouco sobre tua terra natal, teus aprendizados e descobertas.
Beijos.

Clecilene Carvalho disse...

Tem um selo em meu blog: mimos e lhe ofereço, pois este blog vale ouro.

Anónimo disse...

A foto (cuja autoria desconheço, posto que a "furtei" descaradamente da Net) é toda sua. As minhas modestas letras também. Pode publicá-las em seu blog e pelo apreço, muito lhe agradeço. Quanto à assinatura deixo a escolha por sua conta: gb ou margarida.

Obrigada.

Antonio saramago disse...

De Luanda, só conheci o Aeroporto, de Moçambique conheci muito...
Já tem a sua resposta lá no meu canto.
BOA SEMANA.

maria teresa disse...

Com que sensibilidade descreveu a sua cidade em sintonia com o seu crescimento...
O seu texto é pura poesia!
Abracinho

Graça Pereira disse...

Carlos, meu querido Amigo
Que bom ver-te de novo escrevendo aquelas palavras que fazem eco no meu coração...Recordar, faz bem! E o que vivemos é um património riquissimo, do qual tentamos nas nossas Palhota e Cubata, passar o testemunho como quem semeia na esperança que, algum dia, alguem venha a colher...
Subscrevo os teus sentimentos e a tua saudade... só mudo uma coisa: Quelimane é a cidade da minha Vida! ( embora saiba que hoje está doente, mutilada...mas são ventos que passam porque os zambezianos, são gente de paz e solidariedade)
Beijo carinhoso
Graça

Ava disse...

Carlos, deixe-me trata-lo por amigo, as suas palavras sentidas proporcionaram-me um dos momentos mais fascinantes e intensos que vivi em frente a este ecrã enquanto visito outros blogues. Conheci a sua viagem através do blogue cronicas do rochedo e fiquei mais do que encantada, com o retrato vivo de uma vida que me tocou pela sensibilidade e pela saudade contida nas suas palavras. Não conheci Luanda, alias, ainda não sai de portugal, mas através do seu post fiquei a conhecer todos aqueles lugares que fala, tal como se conhece os pormenores de um livro...
Adorei o seu blogue e virei muitas mais vezes deliciar-me em belas viagens que as suas palavras me oferecem.

Um beijo com cheiro a madrugada alentejana, Ava.

Turmalina disse...

Que linda sua cidade, ela emocionou-me...