quarta-feira, 28 de abril de 2010

A Cidade da Minha Vida (II)

Um dos comentários deixados no post anterior, A Cidade da Minha Vida, está assinado por Maria Margarida, do blog quotidiano. Diz assim:

“Calcorreámos os mesmos caminhos e conhecemos os mesmos musseques, as mesmas ruas e avenidas. Cheirámos o caju e o maboque e do Bengo a mesma água bebemos. Todavia, se Luanda é a cidade da sua vida, da minha apenas foi enquanto a tive sob os meus pés. Deixei-a e ela deixou-me partir. É um homem de sorte porque ainda tem "a cidade da sua vida". Eu, ao contrário, não tenho nenhuma. As suas palavras têm cheiro de Luanda e gostei muito de as ler.”

Posteriormente, escreveu um outro comentário:

“Se pudesse, deixar-lhe-ia aqui, o cheiro dos tamarindos e das maçãs da Índia (estas da Rua da Índia, no Cruzeiro). Como não posso, deixo-lhe uma foto da cidade da sua vida e mais algumas letras ...”

A foto de um pôr-do-sol sobre a Marginal de Luanda e parte da sua baía, está lá em cima. As “letras”, um poema que me tocou fundo, os meus leitores perceberão porquê, reproduzo-o de seguida, por ela autorizado. Obrigado!

Exílio – Saudade de mim

São as de outrora
as casas, as ruas e os becos;
iguais aos de antes,
as angústias, os prantos e os medos;
são os mesmos e sempre tantos
os ritmos e os cantos,
os encantos,
os acalantos;
ainda lá habitam os vermelhos
do sangue e da terra,
os dos últimos raios de sol
entornados sobre o mar
da baía e das praias do farol
de areias velhas e brancas
de onde partem os dongos
em noites de aragens brandas
e de luares antigos
a esculpirem sombras dançantes
das esguias casuarinas ...
São hoje, como eram antes,
os sabores de gajaja e tamarindo,
as cores vivas do céu, do capim
e das acácias florindo ...
És como sempre foste, Luanda.
Tu ficaste, eu parti.
Saudade tenho de mim,
de como fui enquanto te percorri.
(Maria Margarida, 2 de Setembro de 2003)

Os cajus e os maboques a que a Maria Margarida se referiu

5 comentários:

Rosa Carioca disse...

Essa baía é inesquecível e o pôr de sol, em Luanda, não há igual...

maria teresa disse...

O Amor por essa Terra está bem patente no poema e em tudo o que se diz aqui...
Abracinho

Filoxera disse...

Maravilhoso, este post!

Anónimo disse...

Sensibilizada, agradeço-lhe.

Há laços que nem os gumes das catanas conseguem cortar ...

Aceite meus cumprimentos,

maria margarida

Dulce disse...

Este post complementa lindamente o anterior, Carlos. Só uma cidade muito especial deixa em seus filhos esse amor sentido, repleto de saudades e ternura... Quem me dera ter conhecido Luanda...
Beijos