sexta-feira, 28 de maio de 2010

Do Mwata Milagre



No baú das memórias guardo o sabor exótico e único do tamarindo. Também lá está esta história que me contou o Mwata Milagre.


Sementes mágicas

A árvore, ali medrada, é o tamarindeiro que vive no quintal dela.
O tronco, largo na base, estica-se depois lá para cima, onde volta a inchar com uma corcova rugosa a dizer que muita idade já ela andou. Ninguém lhe conhece o tempo que leva de vida, mas há registo na tradição oral dos negros mais velhos, expulsos para as sanzalas à medida que a cidade crescia, que a árvore já ali estava quando construíram a vivenda, ajardinaram e vedaram o quintal, sem que mãos humanas a tivessem plantado. Da corcunda rasgam-se, encarquilhados ao princípio, esguios e lisos depois, os dois primeiros galhos. Um deles, atirado para fora dos terrenos da residência, a pousar numa sebe de buganvílias vermelhas. Ambos, e os restantes que crescem por cima deles, com os ramos pejados de milhares de pequenas folhas verdes, quase transparentes, onde tecelões e pardais fazem ninho, enchendo os entardeceres de trinados ao desafio e chilreios desafinados com grande restolho à mistura, e muitos tamarindos com que ela se delicia quando já estão mucefes, que o mesmo é dizer-se bem maduros.
As sementes das vagens, negras e brilhantes, guarda-as num frasquinho de cristal, oferta de Paulo, revestido por fina renda de prata assente numa base de corindo lapidado, emanando mil raios faiscantes quando a luz lhe toca, ou refractando-a nas cores do arco-íris. Só as mais adelgaçadas, com o formato de um pequeno coração, não em rigor, mas com a fantasia e imaginação que ela põe à solta sempre que olha para coisas de que gosta. Ainda que o não sejam, diga-se, os olhos dela vêem-nas assim. São raras. Recolheu apenas três, até agora.
A empregada em casa de Ingrid, uma luba do Kasai, meio amestiçada, ao que se supõe fruto de uma ligação de antepassados com pombeiros (como eram conhecidos os portugueses que se dedicavam ao tráfico de escravos, na terra da família dela), falou-lhe algumas vezes daquelas estranhas sementes de tamarindo.
Contou-lhe a luba, que se chama Lila: minha mãe me disse para guardar sementes como esta (mostrava-lhe uma que trazia pendurada ao pescoço por um cordão de couro de javali). Nos fazem mulher. Nos trazem um homem de viver sempre com ele e ter filhos. Tem que ser três, mesmo mais. As árvores delas tem poucas na minha terra. Apanhei só uma, quando era pequena, no terreno dos tios da minha mãe. Lá, tem um pau de tamarindo. A menina quando encontrar guarda bem. Minha mãe me disse, as sementes de tamarindo, quando uma virgem lhes apanha dá coração no homem que vai ser dela para toda a vida. Faz-lhe aparecer ele. Pode dar as sementes nele, também, assim ele não esquece. Eu, não vou ser mulher de homem da vida toda. É assim, tenho só uma semente de tamarindo!....
Ingrid ouviu a história, cada vez que a luba Lila a ela voltou, com um sorriso condescendente: No que ela acredita!
Mas a verdade é que, vá-se lá perceber isto, sempre que olha para as sementes aconchegadas no frasquinho de cristal, Ingrid vê Paulo sorrindo-lhe!

15 comentários:

Beta disse...

Linda história!!

bj

Teresa disse...

Os caminhos do amor são insondáveis. Quem sabe se passam pelas sementes de tamarindo?
Bjs e bom fds.

Agulheta disse...

Amigo Carlos. Adorei ler como sempre estes belos textos,que de certo modo são costumes e crenças doutros povos.E como o tamarindo tem algo mágico sobre o amor,e gostei de ler.
Beijinho bfs

quicas disse...

Grande sorte ter um "Mwata Milagre" com tantas e tão belas histórias para contar! E sorte a minha, ser leitor de quem tão bem as consegue passar!
Um abraço

Em busca de mim disse...

Passando para retribuir a visita...
Gd bj

Maria Ribeiro disse...

Meu amigo: acontece o mesmo com o seu blog! Abri-o há cerca de vinte minutos e agora que já tinha entrado na "LUFAGUE" apareceu o quadro para lhe fazer o comentário!
Quanto à história da sementinha, você sabe como dizem os portugueses. "eu não creio em bruxas... mas lá que as há, isso há", o que ,aliás, como sabe é uma adaptação de um provérbio espanhol...
BEIJO DE
LUSIBERO

Lídia Borges disse...

Muito interessante, não só pela divulgação de costumes e crenças sempre importantes em cada cultura, como também no aspecto da construção do texto.
Um prazer esta leitura.

L.B.

Rosa Carioca disse...

Mais um lindo texto, uma bela história. É tão visitar este blog...

maria teresa disse...

As saudades que revela da bela, sensual e misteriosa "mulher" que é África..
"As Sementes de Tamarindo" imortalizadas num filme!
Abracinho

Laura disse...

Ai amigo...vou já nos procura de um pé dos tamarindo, ou antes das 3 sementes pra ver se o meu amor vem ter comigo...no pouco tempo que ainda trago...de vida...
Arranja-me as ditas por favor...ah, nem estou a brincar..o amor é lindo e nunca o tive, penas a brincar decerto...
abraço de feliz domingo..laura
mas que história belissima..

Mel de Carvalho disse...

em cada um destes textos, que li, demorada e lentamente, nesta manhã Domingo, encontro a sabedoria da palavra, a dignidade necessária ao ser humano. cada semente, vogal ou consoante, emana dum processo germinativo e criador de que a árvore só pode ser o que se me revelou: um espaço de excelente paz e de não menor apaziguamento interno.

saiu grata pela partilha e tomo a liberdade de o linkar... e de voltar, se me permite.

fraterno abraço
Mel

MEUS PENSAMENTOS disse...

belissimo texto amigo como sempre!bjs meus!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Mais uma bela história do Mwata

Malu disse...

Como é bom ouvir tuas histórias cheias de sementes fecundas de bons sentimentos.
\Um beijinho

rosa-branca disse...

Olá amigo, sementes de tamarindo... se fosse verdade neste momento acho que buscava duas, para os meus dois filhos. Linda história que é sempre um prazer ler. Beijo meu