quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Do Viajante

Pousou sobre a terra do chão o prato vazio de natureza.
Passou em redor os olhos, quais dois lagos revoltos a transbordar, em busca do sentido intimo e avaro da sua vida. Depois, pelo tecto sem tecto, olhou para o brilho da Lua, trazendo dela a luz para o ver.
Ele lá estava, como sempre nos últimos dias, deitado de tronco nu, tremendo, testa alagada pelo suor que ela sabia de sabor amargo, por tê-lo dado a provar aos seus beijos.
Olhou-o e disse com palavras amadurecidas no último arco-íris: A esteira é tua, já volto.
Esperou pelo amanhecer.
Cruzou a porta da cubata e partiu segura, bela, mas triste no seu caminhar descalço com os pés sentindo a terra dura e já quente do carreiro a caminho do mercado, quinda à cabeça, e um medo agarrado ao peito. Na quinda levava o vestido de flores com que se aperaltara no dia em que ele a fora buscar ao seu quimbo distante.
Chegada pediu, a quem antes ali se postara, um pedaço de sombra. Sob ela se sentou cruzando as pernas. Ao colo pôs a quinda, o medo deixou-o estar.
Feita a venda foi à drogaria comprar comprimidos, de medo ao peito. Voltou a casa pelo trilho da noitinha. A Lua escondera-se atrás duma nuvem. Acendeu um coto. Ele lá continuava, deitado, de tronco nu. Mas, já não tremia nem o suor lhe banhava a testa. Só o corpo estava. O resto dele partira.
Os lagos dos olhos rasgaram-se em águas de vida perdida, sem brilho, enchendo-lhe o prato, alagando-lhe a quinda.
Hoje, ela vive, vazia de si, apenas habitada pela memória.

9 comentários:

Brown Eyes disse...

Lindo, como sempre.
Há pessoas que não precisam de partir para nos deixarem vazios de nós.
Beijinhos

FMF disse...

Lindo. Excelente. Parabéns por este belo conto escrito de forma superior.
Kandandos

Neve disse...

Belíssimo texto, uma autêntica prosa repleta de poesia.

folha seca disse...

Carlos
Mais um texto que vou reter na memória...Excelente!

Filoxera disse...

Sinto insignificantes quaisquer palavras perante a beleza deste post.
Tem uma escrita apaixonante, e este conto traz-nos a emoção da morte com uma sensibilidade única e imagens mágicas, tipicamente angolanas.
Obrigada por nos proporcionar esta leitura.
Beijinhos.

heli disse...

Carlos.
Como sempre, tu nos invade a alma...
Que belo texto!!!
beijos
heli

Fê-blue bird disse...

Um texto delicado e ao mesmo tempo intenso, memorável.
"Hoje, ela vive, vazia de si, apenas habitada pela memória"

Quando ficamos vazias, só a memória nos mantêm vivas.
Parabéns por este lindo momento!

Beijinhos

acácia rubra disse...

Já tudo foi dito.

Emocionei-me ao ler. Foi, sem dúvida, um dos mais belos textos que tenho lido.

Obrigada, Carlos.

Beijo

Maria João disse...

Carlos

Com a qualidade que lhe é habitual, este texto é não só uma viagem por terras onde a terra é nua mas quente, mas também pelo interior daqueles que rasgando os dias, os vivem arduamente, carregando no silêncio dos passos, também a angústia, o medo e a perda. Esta é uma história de amor e dor que em qualquer parte do mundo se perpetua na memória.
Vinda de onde vem e contada aqui por si, tem a linguagem própria daqueles que sabem descrever a alma.

É um privilégio ler o que escreve!

Um enorme abraço de amizade