terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Do Viajante

Não sabe se o seu lugar é no mundo ou, apenas, na franja do infinito porque caminha.
Umas vezes vai de pé, tocando o tecto da solidão. Outras, de cabeça roçando o chão, vendo que este é de palavras amordaçadas e portas fechadas.
Ouviu, quando se meteu a caminho, que naqueles montes, ali, a que ele quer subir, as árvores não crescem. Lá a noite é mais antiga que o dia. As auroras já nem sequer vaga ou lentamente se atrevem.
Prossegue, indiferente. O cansaço, porém, estorva-o. Senta-se encostado a uma Mafumeira, a árvore da vida como lhe chamam na terra longínqua onde um dia nasceu. Deixa que a brisa lhe fale de notícias. Escuta-as. Então, num de repente, a brisa é já vento, vendaval, trazendo-lhe um grito:

“(…)
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da …. Se me atrevesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…
Prá frente!
Meto esporas!
“(…)”
(Fernando Pessoa)

16 comentários:

Rogério Pereira disse...

O nosso caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
E o fim é logo ali. Levantemo-nos da Mafumeira. Prá frente. Metamos esporas.

maria teresa disse...

Senti alguma revolta neste (mais este) seu belíssimo texto...
Abracinho meu!

folha seca disse...

Caro Carlos Albuquerque
Reparei que pelos menos dois comentários que fiz nos seus posts, não aparecem. Penso que tem a ver com problemas de informática.
Abraço

Carlos Albuquerque disse...

folha seca
Meu caro
Todos os comentários recebidos são editados. Se os seus não aparecesse, o que lamento, é porque aqui não chegaram. Já outros amigos se têm queixado do mesmo! Não sei o que se passa. Por vezes há vírus que se instalam e provocam estes distúrbios. Já corri o anti-vírus várias vezes e nada foi detectado!
Será, provavelmente, uma indisposição informática da blogger. Só pode!
Será muito pedir-lhe que reponha os comentários?
Abraço

Carlos Albuquerque disse...

maria teresa
Obrigado pela apreciação do texto.
Revolta?
Sim, ao ouvir e ver o que vejo e ouço!
Dá mesmo vontade de meter esporas.
Abraço

Teresa disse...

Carlos
Ultimamente, o cansaço estorva-nos vezes demais. Quase não temos fôlego para protestar. Podíamos seguir o exemplo e gritar "Tirem esse lixo da minha frente!"
Beijinho

Anónimo disse...

Então fascinante este blogue parece bem desenvolvido.........boa:)
Gostei muito faz mais posts assim !

Daniel Silva (Lobinho) disse...

A introdução está belíssima!

abraço

Fê-blue bird disse...

O cansaço está a apoderar-se de nós, mas o grito que temos guardado no peito vai falar mais alto!
Excelente introdução e excelente escolha do mestre Pessoa.

beijos

Filoxera disse...

É assim mesmo!
Um beijinho.

FMF disse...

O esoterismo de Fernando Pessoa leva-me sempre a interpretar as suas palavras como uma busca da eternidade do Homem e da sua Essência.

São disse...

DEsconhecia este poema de Pessoa...mas concordo: metamos esporas e avancemos!

Um bom fim de semana.

acácia rubra disse...

Carlos

Que óptima combinação aqui nos deixaste!

As tuas palavras e as de Pessoa.

As dele que as sabemos certeiras e intemporais; as tuas que se situam "na franja do infinito porque"... caminhas.

Beijo

Carlos Albuquerque disse...

São
Fernando Pessoa (Poemas Escolhidos - Saudação a Walt Whitman). Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1985, pág. 271.

Agulheta disse...

Amigo Carlos.Uns dias ausente venho ler palavras que vão ao encontro de muitos pensamentos,Pessoa escreveu na hora e que fica bem na actual toda esta revolta de palavras.
Beijinho e boa semana

Maria João disse...

O seu lugar, meu amigo Carlos, é nas palavras. Não importa em que lugar elas vivem, mas que vivas estejam. Se for no chão, onde a pele as sente mais verdadeiras, que seja aí então, abrindo portas e janelas, desfazendo mordaças. Que seja aí então, gritando ou embalado por elas que a sua voz se oiça no contorno forte e simultaneamente doce de cada uma, torneada no seu coração, que sei ser de carne, e nesta arte de que é exímio artesão, há tanto tempo já.

O meu abraço