domingo, 6 de novembro de 2011

Não me inclino...

Domingo

Chegou-se ao português vindo do latim “dies Dominicus”. Adoptado, passou a ser o “dia do Senhor”. O mesmo fizeram os castelhanos, italianos e franceses tratando-o por Domingo, Domenica e Dimamche.
Os pagãos da Antiguidade, servos de vários senhores, também o tiveram, mas como “dia do Sol”, o astro a que chamavam rei, título que igualmente nós lhe reconhecemos, até ver. Aos gentios foram outros povos, como o inglês e o alemão, buscar os seus Sunday e Sonntag, sempre como “dia do Sol”, neles pondo o Sun e o Sonn para que assim continuem a ser.

Não tenho Senhor nem astro de estimação desde que mataram Plutão ao fim de 76 anos de vida como planeta (╬1930-2006). Por isso, ao dia chamo apenas Domingo. Sempre me pareceu um dia que não gosta de contacto com os outros, deles vivendo, permanentemente, desirmanado. Talvez, não sei, por ele acreditar ser o tal “dia do Senhor”.
Chegou hoje sem o choro das nuvens, meio frio, sol embrulhado em farrapos de nuvens, e com vento do lado da lezíria, fustigando os jacarandás e as acácias plantados nos passeios, que parecem vergar mas logo recuperam a verticalidade, não se ajoelhando ao vento, cientes que estão do justo e merecido que é o seu crescimento.
Ajoelhar ajoelhou, sabe-se neste Domingo cinzento, de notícias negras, o líder do PS perante o sacrossanto império da empedernida, trauliteira, conservadora e neo-liberal direita que nos governa. De joelhos, orou: O PS não votará contra o Orçamento de Estado para 2012, não senhor, abster-se-á, tanto na generalidade como na especialidade. Saia desta última discussão o que sair, a abstenção está garantida! Pouco lhe importam os cortes de salários e de pensões, aumentos de impostos, cortes na saúde e na educação, redução dos meses de indemnização por despedimento, aumento gratuito do horário de trabalho conduzindo os trabalhadores à escravatura, retirada de disciplinas importantes do currículo escolar, e mais um sem número de medidas de austeridade asfixiantes, a par da manutenção dos privilégios ao capital como a recapitalização da banca com o dinheiro dos contribuintes, a começar já pelo BCP. Pouco lhe importam! 
Não se lhe escuta, com voz que se ouça, uma única palavra de combate às medidas bárbaras e desumanas que a direita quer impor ao povo português. Não se lhe escuta uma única palavra em defesa da nossa dignidade a soberania. Não se lhe ouve dizer basta! Não votando contra o Orçamento de Estado, o líder do PS trai o povo que faz Portugal.
Não tarda, vê-lo-emos nas televisões a clamar ter encontrado, algures, uma nova Cova da Iria e nesta lhe ter surgido uma senhora vinda dos céus, coberta com uma túnica cor de laranja, pedindo-lhe para rezar pela submissão dos portugueses. Para que sobre o meu país volte a cair uma noite só noite, sem luar, sem estrelas.
Pensando em tudo isto, concluo como Pessoa: “Pensar, ainda assim, é agir.”

8 comentários:

acácia rubra disse...

Carlos

Temos governantes e aspirantes a, que não passam mesmo de planetas. Sem luz própria, servem-se de tudo para, pela calada da noite, enganarem os incautos.São assim os planetas...

Lá estarei, no dia 24.

E, por hoje ser Domingo, estar um dia de sol aqui em Viseu e um frio que se enfia por baixo da pele, viavamo-lo, agradecendo o discernimento e a capacidade que ainda temos de dizer NÃO.

Beijo

folha seca disse...

Carlos Carlos Albuquerque
Acredite que não "prega sózinho no deserto".
Concordado inteiramente com o seu texto (e aprendendo mais algumas coisas) resta-me desejar-lhe um bom Domingo. Por aqui vê-se o Sol.
Abraço
Rodrigo

São disse...

Em primeiro lugar, o meu sentido agrdecimento pelas amáveis palavras que me ofereceu no "são".


"Tadinho", Seguro ficou, segundo disse, em estado de choque quando leu o Orçamento e, com toda a lógica do mundo, ...abstém-se!!!

Eu é que devo estar a ficar parva...

Desejo-lhe um bom domingo....e só não adiro à greve porque estou aposentada.

Fê-blue bird disse...

Meu amigo:
O pensamento é uma arma.
A união uma força.
A vontade de mudar, um sonho alcançável.

Está nas nossas mãos juntar tudo e transformar o nosso Domingo.


beijinhos e boa semana

Maria João disse...

Está tudo tão confuso e alucinado, meu amigo.
Andam-me na cabeça as palavras de Saramago que li no espaço de um amigo comum...
"O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias."
Andam-me na cabeça, dizia. E o meu pensamento anda, por isso, muito menos só.

Um abraço

TERESA SANTOS disse...

Querido Mwata,

O desrespeito, a falta de vergonha, a falta de ética (saberão o que isso é?) atingiu limites inadmissiveis.

Está mais do que na hora de dizer BASTA!!!

Abraço, meu Mwata.

Brown Eyes disse...

Só pensar deixou de chegar, há que agir mas temo que muitos continuem a pensar que os outros resolverão o problema deles. Beijinhos

acácia rubra disse...

Obrigada pelas tuas palavras carinhosas.

Beijo