terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Do Mwata (deuses)

Nasceu, pulou pela infância, e entrou na adolescência numa balbúrdia.
A mãe falava-lhe de Deus. As mães negras dos seus amigos pé-descalço e carranhosos dos musseques, sempre que o apanhavam à distância de uma conversa, e muitas eram as vezes, tantas quanto lhe fugiam os ânimos para a brincadeira com eles, o que acontecia amiúde, contavam-lhe histórias sem deuses dentro, em que tudo girava apenas, e já não era pouco para a sua compreensão, em torno dos espíritos das coisas vivas ou mortas.
Outra está a ser, esta noite, a opinião do espelho a que se olha antes de se deitar. Diz-lhe o espelho existirem muitos deuses que, indiferentes aos humanos, acasalam entre eles, incesto de que resultou a estirpe dos independentes. Não são bem deuses, mas uma espécie de cabeças manetas e coxas. Olhando-os vê-se não serem nem de boa qualidade nem portadores de bons instintos. De entre os deuses, correlativos e afins, são os piores.
Constituem uma casta à parte a que é preciso estar atento pois só tratam deles próprios, ajeitam-se, e, quando apanham alguém que se põe a acreditar neles, roubam-lhe a alma.
Boa noite, espelho.

8 comentários:

São disse...

Deuses, espiritos e coisas mortas...e nós fitando o espelho.

Um abraço

acácia rubra disse...

Tens toda a razão.

Como não acredito nesses deuses efémeros e de produção em série, não deixarei que me roubem a alma.

Beijo

Rogério Pereira disse...

Texto janela
para o espelho
e seus dizeres

Boa noite, transparência.

Maria João disse...

E diz-nos o espelho, Carlos, se repararmos bem, que o Deus maior e mais verdadeiro, é aquele que ele nos devolve, no rosto que nele procuramos. Não é bom nem mau este Deus, nem melhor ou pior que qualquer outra divindade. É tudo aquilo que vemos e tudo o mais que ocultamos, o que ignoramos e o que queremos que ele seja. É escolha constante e dúvida que inquieta, é decisão aberta e livre, de contarmos todas as rugas ou de as esquecermos e fingirmos que elas nunca existirão nem de nada servem. É aceitação. É perdão e também é zanga. É revolta e serenidade. O Deus que queremos ver é aquele que sempre vemos no reflexo desse espelho, mas por o ignorarmos, haveremos de morrer um dia, descrentes, pela falta de fé em nós próprios.

Um beijinho muito grande, meu amigo.

Fê-blue bird disse...

Meu amigo:
Estes deuses estão muito longe daqueles que acreditávamos na infância.O pior mesmo é quando deixamos de acreditar.
Quando a alma escreve assim, ainda é possível ter esperança!
Lindo momento este, obrigada!

beijinhos

Rosa Carioca disse...

Até parecia que estava a referir-se à classe dos políticos mas, com certeza, deve ser o meu estado de espírito que vejo no espelho.

TERESA SANTOS disse...

Meu Mwata,

Esta casta de deuses apenas sabe roubar-nos a alma, os sonhos, o futuro.

Preciso de acreditar, mas...?

Abraço muito grande.

acácia rubra disse...

Carlos

Para comentar no teu blogue é preciso que os deuses estejam de feição...

Já é a 4ª vez que tento. Se tiveres repetido, apaga-os, por favor.


Então como andas? Já melhoraste?

Eu já estive bem melhor, mas hoje com o frio, voltei a piorar... Nem o restinho do Barca Velha, que bebemos os dois, parece ter-nos dado melhoras!!!

Já estava adulterado, por certo.

Beijo ainda muito constipado