quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Velhice

Tu e eu vamos dar uma de conversa.

Vejo-te todos os dias, quando me olho. A cada hora que passa, melhor te vou conhecendo. A cada segundo que o tempo leva, queres que eu dê feitio aos meus pensamentos e jeito ao meu corpo. Não dou! Uns e outro são meus, não teus!
Ouve: És tudo o que eu não sou.
Já te falei de todos os lugares onde estive. De tudo o que vi e senti, viajando no meu dongo pelas cacimbas, rios e mares – as tranças da vida – mesmo quando aquela era a dos sonhos.
Sim, repito, de tudo o que senti e vi, que foi muito mais do que o que ficou guardado nos meus olhos. Vi o Sol abrir e desenhar céus. Olhei o mundo por muitas janelas. Pela tua, pela tua janela, só se vê terra à espreita.
Tu és, na verdade, tudo o que eu não sou, insisto. Chegas-te-me assim, desse modo, querendo atirar-me vida zangada. Não, não quero.
A vida sempre me doeu, e dói, porque ora me sabia, e sabe, a muito, como a pouco. Mas a vida assim, é a minha.
E dizes-me tu: Tudo isso, que é tanto, não é nada! Eu sou mais!
Tu? Não passas de querer ser uma domadora hipnótica de quanto me agita por dentro e me inquieta por fora.
Fim de conversa.
A fera com o freio nos dentes! Não regateio esforços, a ver se ela e eu nos entendemos. Passo-lhe a mão pelo dorso. Ela, porém, é, como o poeta, fingidora e indiferente. Vem de mansinho, pé ante pé, beijar-me a fronte, acariciar-me as têmporas e sussurrar-me: hei-de levar-te comigo sobre os mares até à terra dos deuses.
Como se eu lho tivesse pedido!
PS
Sabes, Velhice, só agora te digo, enquanto conversávamos vi-te ruborizar qual menina envergonhada de cara bonita, olhos malandros cheios de ânsia, e, neste momento, ouço-te baixinho: Não tenho, como tu, um passado para contar…
Deixa, isso pouco importa, não admira, és mais jovem do que eu. Passado tenho eu, teu é o futuro. Não ligues ao meu dizer. Foram, apenas, palavras cativas. Amanhã sairemos ambos, porta fora, galgando os montes longínquos. Não te preocupes com a terra dos deuses.
Deixa-me pousar um beijo na tuas mãos. És bela, minha Velhice.
(Este escrevinhar foi inspirado por um post da Acácia.
Sorvi-lhe a ideia, roubei-lhe o título.Espero estar perdoado)
 

10 comentários:

Gisa disse...

Simplesmente lindo. Fiquei sem palavras, principalmente quando me fizeste lembrar que somos do passado e a ela pertence o futuro.
Um grande bj querido amigo

Rogério Pereira disse...

Vi nesse post da nossa amiga Acácia a promessa deste texto. Pensei que iria gostar. Mas tanto, não.

Sonhadora disse...

Meu amigo

Obrigada pela visita e pelo carinho que me deixou, volte sempre é um prazer.

Deixo um beijinho
Sonhadora

acácia rubra disse...

Carlos, meu Amigo

Puseste-me a chorar com o teu texto. O teu escrito agora, numa resposta ao meu só agora publicado, mas escrito quando tinha 20 e poucos e que agora, do alto ou do baixo dos meus 57, faz muito mais sentido.

Não consigo dizer-te nada, que valha a pena sobre o que tão bem escreveste.

É Natal, Carlos, e não tenho nada para deixar aos meus Amigos no sapatinho. Apenas o que possuo. As palavras.

Deixo-te isto, escrito em 28 de Outubro de 1975

" ANGOLA


estradas asfaltadas
barrentas ou simplesmente estradas
árvores milenárias
olhando planícies áridas
olhando caminhos longos

angola
rios que se desdobram
sinuosos vãos brilhantes
gazelas que procuram
descobrem sombras repousantes

angola
queimadas contagiantes batucadas
devorando a mata e o silêncio

angola
prédios altos rasgando o infinito
cubatas alegres e desengonçadas

angola
terra de paixões sem fim
terra de sol e de mar
terra de mulatas bonitas
meneando as ancas de âmbar

angola
desfilar de cores
canseiras, alegrias e dores
desfilar de vidas, labutas e paisagem
desfilar de uma terra
que prova o sabor amargo da guerra
que chora os filhos seus
e que respira na esperança
que a guerra não mata
no olhar de uma criança."

Nós somos a nossa Angola. Vê, ainda temos o olhar de uma criança, acredita!

Um Bom Natal!

Beijo

Filoxera disse...

Que marvilha, este texto, Carlos...
Muito bonito. Tudo se torna belo na vida, dependendo dos olhos e das palavras com que se encara a própria vida...
Um beijinho.

Rosa Carioca disse...

E como é bom encarar a Sra. Velhice, cara a cara.
Adorei o texto! (para variar, "né"?)

TERESA SANTOS disse...

Meu querido Mwata,

Um OBRIGADA, chega? Não!
Dizer que adorei o teu texto, chega? Não!

Não! Não porque a magia que imprimes às palavras está muyito para além de tudo isto.

E gosto do que escreves,
e gosto da forma como encaras a vida,
e gosto do Homem inteiro, bonito que és,
e gosto da partilha,
se gosto!!!

Abraço grande meu Mwata, meu Mestre de/da Vida!

São disse...

Como comentar? Não sou capaz de lhe transmitir por palavras o que senti.Peço desculpa!

Um bom fim de semana.

Fê-blue bird disse...

É TÃO BOM TER AMIGOS ASSIM!

A Acácia reacendeu a chama e aqueceu o seu coração meu amigo Carlos.
Que inspiração, que texto comovente e tão verdadeiro!
A Velhice é bela pois ensina-nos tanto!
Nem consigo escrever mais nada estou profundamente comovida...

beijinhos

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

De certeza que está perdoadíssimo, caro Carlos.
Este é um belo texto sobre a velhice
Abraço