segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ao xadrez

Assinatura reconhecida
Pelo caminho se meteu. Ao fundo, deu com uma casa meio acubatada, duas tábuas a darem ares de porta. Forçou a abertura, sem o conseguir. Caiu-lhe em cima uma tabuleta. Leu o que escrito estava, em linhas meio enviesadas: “aqui vive Deus, em recolhimento, meditando, não entre.”
Obedeceu.
Três dias depois voltou à estrada. Caminhou pelo primeiro desvio. Deu com um portão de ferro, de cadeado franqueado. “ Reino do demo”, leu numa chapa chamuscada e meio amolgada, “faça o favor de entrar”.
Rejeitou o convite.
De regresso a casa, pôs-se a cismar. Assim ficou sete dias inteiros. Ao oitavo, voltou às andanças, por um carreiro de poeiras, desta feita. Uma vida depois parou. Sacudiu o pó, limpou os olhos. Aquilo não era cubata, nem casa, nem nada de parecido, era só um sítio com um letreiro, de luz aos tremeliques, dizendo: “Aqui vivemos os dois. Entre.”
Entrou.
Numa mesa a levitar, estavam, Deus, com o bordão de peregrino no bolso, e o demo, tridente à cinta, a jogar xadrez. Nos intervalos de cada jogo, antes das peças realinhadas, Deus tentava moldar um pedaço de barro. O demo batia com o sílex nos chavelhos, a ver se deles tirava a faísca para atear o tridente. Palavras não as largava o silêncio.
De confusão se encheu. Voltou para trás. Em casa uma vez mais imaginou, com tenacidade. Findo o torvelinho do pensamento tornou ao sítio do letreiro, que já lá não estava. Caída no chão, apenas uma parra gatafunhada.
“Ele ganhou, mas batotou. Voltarei mais tarde. Quero a desforra. Assinado – demo.”
Ao dobrar da folha, numa das esquinas, estava aposto o carimbo: “Assinatura reconhecida por Deus.”
Ficou sem saber que destino dar aos seus pensares perturbados.
Muita vida depois, foi de novo ao letreiro. Encontrou-o, despido de dizeres, de luz apagada. Claridade, apenas a do tecto brumaceiro descido da Lua, chegando para os ver. Um sem o bordão de peregrino, outro despojado do tridente. O primeiro de testa enrugada e barbas longas, o segundo de chavelhos caídos. Ambos envelhecidos, mas continuando, em silêncio, de olhos pregados no xadrez.

(Estória aqui trazida pelo meu amigo Viajante, que passou a partilhar esta cubata com o Mwata e comigo.)

19 comentários:

maria teresa disse...

Belo mas muito perturbador...
Vou "sair" a pensar no que escreveu.
Abracinho

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Intrigante esta estória. Como diz a Teresa, vou sair para reflectir, porque realmente sinto-me uma peça desse jogo de xadrez.

Filoxera disse...

Remete-me para Pepetela. a propósito, estou a ler a "Parábola do Cágado Velho"- conselho seu!
Espero que a saúde vá pelo bom caminho.
Beijinhos.

(CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

Inteligentíssimo seu texto, prezado xará.Muito bem retradada, com seus mistperios, a peleja de DEUS contra o "OUTRO". Olhando com olho de poeta,o olho que tudo vê, é assim mesmo que a gente percebe essa luta antiga e eterna.Um tabuleiro de xadrez. Aplaudo de pé.Parabéns

Teresa disse...

Engraçado, também me fez lembrar Pepetela. E aquela velha canção do Chris de Burgh "Spanish Train".
A que jogam eles, Carlos? Como vai o jogo? Podemos dormir tranquilos?
Bjs

Carlos Albuquerque disse...

maria teresa
e
Carlos Barbosa de Oliveira:

Será que esta estória do Viajante é mesmo perturbadora e intrigante!?...
BJs e um abraço

Maria Ribeiro disse...

MISTERIOSO, CARLOS...Mas devemos partir sempre do princípio que o Mundo é uma tábua de xadrês, que se apresenta a preto e branco! Há lutas destas mesmo dentro de cada um de nós, entre as nossas metades alternadas: o BEM e o MAL!
BEIJO E PARABENS, por este lindo e intrigante texto.
LUSIBERO

Carlos Albuquerque disse...

Filoxera
Espero que goste da "Parábola".
Remetida para Pepetela...É elogio que o meu escrevinhar não merece. Penso que já um dia lhe disse que conheço pessoalmente Pepetela, de quem sou amigo. Pepetela é mais que um escritor, ele próprio é um livro que nunca acabamos de ler...
A saúde...enfim...parece querer readquirir as boas maneiras! Obrigado.
Beijinhos

Teresa
Sobre Pepetela, fica o que disse à Filoxera.
Quanto ao que eles jogam, sei apenas o que me disse o Viajante que aqui deixou a estória - quer dum quer doutro lado, dos dois, amontoam-se peões tombados, sem conta. Dormir tranquilos? Minha amiga, tanta pergunta...! Dá para perceber porque é que o Viajante me disse, igualmente, que os jogadores daquele xadrez são seres sem sono...
Bjs

Carlos Albuquerque disse...

CARLOS - MENINO BEIJA- FLOR
É como dizes, xará, uma luta antiga e eterna. Grato pelo comentário.
Abração

Maria Ribeiro
É gosto grande encontrar-te aqui, professora poetisa!
Não sei se a luta é entre metades. Afigura-se-me ser entre partes, apenas. Penso que terá sido tal constatação a levar o Viajante a rejeitar o convite.
Beijo daqui, e as melhoras.

TERESA SANTOS disse...

Quero ler-te com calma!
Agora, passo só para te dar aquele abraço e para saberes que ando SEMPRE por aqui.
(Será preciso dizer?!)

Agulheta disse...

Amigo Carlos! Gostei do texto,ou história;mas reflecti e pensei,tudo que seja de alguns "viajantes" devemos pensar o que as palavras dirão.
O meu filho está melhor felizmente e agradeço a preocupação.
Beijinho Lisa

Carlos Albuquerque disse...

TERESA SANTOS
Não, não precisas dizer.
Volta, lê e desanca. Tá?

Agulheta
É bem verdade. Precisamos de estar atentos ao que os "viajantes" dizem!
Que bom, saber que o filho está melhor.
Beijinho

Maria João disse...

Carlos

Seremos nós as peças desse tabuleiro? Seremos. Mas escolhemos nós mesmos, o preto ou o branco ou a posição mais confortável do cinzento e esquecemos incautos, a inevitabilidade do xeque mate.

Mesmo sem o bordão peregrino, é minha convicção que Deus continua, nos intervalos, a tentar moldar o pedaço de barro.


Sou, sempre grata pelo carinho das palavras suas, semeadas lá, de onde venho...
Um beijinho

AFRICA EM POESIA disse...

Também entrei na cubat sentei no luando e gostei de ler
Kandandus

Deixo



Rugido

Rugido forte
Rugido de Leão...
Leão verde, castanho ou amarelo
Animal...Rei...
Rei da selva...
Rei do Mundo...
Fazes inveja...
Fazes sofrer...
Mas és o nosso símbolo...
Símbolo nobre e corajoso...
E por isso...
Nós sofremos contigo...
Gostamos de ti...
Quando ganhamos...
E quando perdemos...
E no perder...
Ainda te queremos mais...
Pois aí sentimos o carinho...
De te confortar...
De te pagar devagarinho...
E dizer-te baixinho...
Amanhã, vamos ganhar!...

LILI LARANJO

Si disse...

Já tinha lido, mas tive de pensar bem antes de comentar. Os outros comentadores facilitaram-me a vida com o mote de Pepetela, de que, curiosamente, não me lembrei ao ler este texto.
Lembrei-me, antes, sim, do Evangelho de Saramago, pela proximidade e dicotomia entre Deus e o Demo, jogando com as vidas mortais numa barca, como se de um jogo de xadrez se tratasse.
Mas não resisto ainda a voltar a falar em Pepetela e de Lueji.
O 1º que li dele e o único, de todos os que há muito 'devorei', que teve a capacidade de encher a minha cabeça dos sons ritmados dos tan-tans, muito para além do tempo em que tinha o livro aberto.
É um dos livros da minha vida....

Sofá Amarelo disse...

O xadrez da Vida não acaba mais, há sempre uma possibilidade de viver a Vida diferente da outra... mas nós só podemos seguir uma delas... a Vida é sempre opção entre várias coisas... os caminhos podem ser muitos mas só um nos conduzirá aonde tivermos que ir...

Carlos Albuquerque disse...

Maria João
Seremos nós as peças do tabuleiro? Não sei, mas vou perguntar ao Viajante, logo que o encontre.
Que Deus, mesmo sem o bordão, continua a tentar moldar o pedaço de barro. Talvez! Tanto quanto me dizem Ele é persistente. Oxalá os homens não se ponham, eles também, a moldar outro deus!
Beijinhos

AFRICA EM POESIA
Olá, Lili, que bom ver-te por aqui!
Obrigado pelo poema. Mas esse teu leão...Vou soltar a águia do meu Glorioso, a ver se o caça.
:))

Carlos Albuquerque disse...

Si
Estou todo ensarilhado (leia-se babado!).
Primeiro Pepetela. Agora chegas tu com Saramago. Dois escritores da minha estante de referência. Sobre Pepetela leste, com certeza, o que disse à Filoxera.
Acerca de Saramago. Também o conheço pessoalmente. Viajei com ele, durante uma semana, há uns anos atrás, pelos locais que ele percorreu para escrever "Viagem a Portugal", livro onde se pode ler o notável "Sermão aos peixes".

Sofá Amarelo
Só há um caminho?
Em principio tendo a concordar, mas deixa-me pensar melhor...
Grande abraço

Dulce disse...

Ha aqui, realmente, um texto a nos fazer refletir, perturbador, instigante. Sempre imaginei que talvez fossemos mesmo simples figuras em um tabuleiro de xadrez. É que no jogo da vida há Reis e Rainhas, Bispos em torres, Peões tentando tocar a vida e belos Cavalor a trotear pelas alamedas do destino... Mas... Quem manuseia essas pedras?

Maravilhoso seu texto, como sempre.
Beijos