sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Do Mwata


Bela e carinhosa
Vem da terra mussequeira, saltitando pela encosta do pó, vida cantando.
Cabelo alindado com o rubro das acácias, rosas de porcelana ao peito. Veludo de pitanga madura nos lábios, brincos de semente de tamarindo, na boca o odor de caju mucefe. Mãos acolchoadas por fios de sumaúma. Cintura balançando, roçando as ancas pelos sopros da brisa. Saia de mateba encaracolada. Pés descalços descendo para o mundo da Baixa. Traz no coração um bater novo, sentido ao despertar.
Espreitando por entre os flocos das nuvens que a chuva deixou, entrelaçados, na mandioqueira do quintal, chega-se ele, moadié ladino.
Quedes calçados, pintados a Blanco, calção de dobra feita. Camisa de seda, de banga fazer, fralda ao dependuro, dois botões descasados. Cabelo em popa de brilhantina lustrada, cantarolando a moda da última rebita. Ponta dos pés para dentro, um arrastando, outro arqueando, ele lá vem pelo alcatrão quente.
Duas estradas se cruzam.
Chocam-se, ela e ele. Olham-se, sem palavras dizerem. Apenas se metem a beber os olhares. Dão as mãos. Passam a ponte, dobram o tempo dos anos.
Andam, agora, por sobre os beijos do mar à praia sedenta. Seguem até para lá do farol. Aninham-se sob o escuro, dão-se os lábios, deixam que ternuras e carícias por eles passeiem sentires. Amam-se, com demoras, no silêncio comovido dos dois, silêncio que os envolve, só quebrado pelo tremular das ondas. Trocam-se como flores. Por cima deles as estrelas escrevem com os grãos brilhantes da areia fina que lhes serve de leito. Não se percebe bem o que lá fica dito, elas não o revelam, mas, pelo que se espia, parece ser a palavra Vida.
Guardados pela Lua, adormecem na noite, embalados pelo canto do mar.
Da madrugada acorda a manhã, com um Sol de gaivotas. Ele desperta. Olha-a. Murmura-lhe ao ouvido:
- És bela e carinhosa, minha velha!
Um dedo, enrugado, pousa-se-lhe nos lábios, suavemente.
(Quando o Mwata me deu esta história a ler, e me disse para a pôr aqui na cubata, apeteceu-me ouvir isto: )


Um abraço e desejos de bom fim-de-semana.




14 comentários:

Si disse...

Caelos, por favor entregue este comentário ao seu amigo.
Mwata,
O fim de semana está aí, mas isso para si não quer dizer nada, pois não?
O tempo que se tem de dar ao tempo para viver os amores deste estória não se mede, não se conta, não se nomeia em dias. Apenas sucede, naquele ritmo que África manda...

Antonio saramago disse...

De Á frica com amor, para áfrica com saudade!!!
Você sente isso e narra histórias de lá com um sentimento sem igual.
Também por lá passei, por lá sofri, mas também por lá gozei!!!

A s suas melhoras e bom fds.

Sandra disse...

Muito bom o texto. amei...
Sinatra então... Nossa.. Quanto tempo.

És bela e carinhosa, minha velha..
Diz muito...

Com muito carinho eu venho aqui.

Tem uma amizade compartilhada em meus mimos.Espero que aceite.
http://sandraandrade7.blogspot.com/
com muito carinho
Sandra

Filoxera disse...

"My Way" é uma melodia especail, com uma letra soberba, mas este conto é de uma magia indescritível. Ao lê-lo, estive lá, vendo esse ser meneando as ancas, essa aproximação amorosa e o clima que os envolve.
É sempre bom voltar aqui. Obrigada por mais este texto.

maria teresa disse...

Fiquei sem palavras, "tirou-mas" o que é muito difícil alguém conseguir fazer...
Com este conto estive lá...
Bem-haja por o partilhar!
Abracinho

Fernanda disse...

Amigo Carlos,

Estive cá ontem, mas sem tempo para ler esta lindíssima história de amor, de encontros...

Há canções que nos marcam...por uma razão ou outra, normalmente têm a ver com uma relação amorosa, alguém que ficará sempre no nosso coração.
My Way de Frank Sinatra, não me fala de amor, nem de encontros, embora adore o tema.

Parabéns pelo post. Maravilhoso como sempre.

Beijinho

Malu disse...

Nossa!!!!
Fiquei sem fôlego mais uma vez.
Como é bom bebermos do olhar do nosso amor e sermos guardados pela lua. Somente tu, Carlos, para escreveres em figuras de linguagens tão bem colocadas, dando às histórias profundos e verdadeiros sentimentos.
Quanto ao teu comentário, lá, é muito certo o que disses, como sempre.
Beijinhos, meu amigo

rosa-branca disse...

Lindo texto que mostra bem as saudades de África o seu clima, o seu Sol, o seu cheiro, tudo não é? Também gostei de Sinatra. Também passei para saber como está. Beijos

Maria João disse...

Carlos

O tempo refina o amor. Torna-o, não mais sublime, mas muito mais cristalino. É esse saber de coisa vivida e sentida que manifestamente revela neste seu texto e que, tão pertinentemente, decora com "My way".

Um beijinho e obrigada... sempre!

Maria Ribeiro disse...

CARLOS ALBUQUERQUE: é difícil não termos vontade de entrar por este conto...Também "estive" lá... e "VI" o que aconteceu , pelas tuas palavras, nesta linda História de amor!"MY WAY" completa o ESTAR , ALI...
BEIJO DE
LUSIBERO

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Não tenho palavras para comentar, por isso limito-me a comunicar-lhe que já cumpri o desafio e o enderecei a outros 5 blogs.
Boa semana
PS: A Brites deu um ar da sua graça. Como já esperava, está repimpada nas Caraíbas.

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Vim saciar a sede. Muitas saudades do amigo.
Adoro *My Way*
Bom Dia sempre Carlos.
Beijos Renata

(CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

Linda história amigo e lindamente contada.
Aproveitando passe em: gvpoetapresentes.blogspot.com. Ou então no blog principal mesmo, terceira imagem do lado direito.Tem um selo lá.Será unm prazer. Um abraço

papoila disse...

Carlos,
Venho retribuir a visita!
Encantei-me com o conto e embalei-me com esta música do Sinatra que me fez recuar no tempo e chegar a momentos que me foram muito felizes!!!Foi muito bom passar por aqui.