domingo, 14 de fevereiro de 2010

Dia dos Namorados

O amor dá forma ao sonho mais belo que é a vida.
Sem ele tudo não passaria de um mar morto.

Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
E com letra bonita eu disse ela tinha
Um sorrir luminoso tão quente e gaiato
Como o sol de Novembro brincando
De artista nas acácias floridas
Espalhando diamantes na fímbria do mar
E dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia – era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
Sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
Tão rijo e tão doce – como o maboque...
Seus seios, laranjas – laranjas do Loje
Seus dentes... – marfim...
Mandei-lhe essa carta
E ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
Que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
Pedindo, rogando de joelhos no chão
Pela Senhora do Cabo, pela Santa Efigénia,
Me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à Avo Chica, quimbanda de fama
A areia da marca que o seu pé deixou
Para que fizesse um feitiço forte e seguro
Que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fabrica,
Ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
Paguei-lhe doces na calçada da Missão,
Ficamos num banco do largo da Estátua,
Afaguei-lhe as mãos...
Falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
Como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
Levaram-me ao baile do Sô Januário
Mas ela lá estava num canto a rir
Contando o meu caso
às moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba – dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos – sorriu para mim
Pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim
E ela disse que sim
E ela disse que sim.
(Viriato da Cruz - poeta angolano, Porto Amboim 1928, Pequim 1973)

17 comentários:

Filoxera disse...

Leio o post e recordo-me da canção...

Luis disse...

Amigo Carlos Albuquerque,
Minha mulher é angolana e não faz ideia das saudades que nos fizeram estes versos e a canção. O Namoro é a fase mais bela que existe entre dois seres na procura de um entendimento que por vezes não surge de imediato. Vou roubar-lhe este seu post para a minha Tulha, se não se importar, pois fez-me muitas saudades daquela terra tão linda e tão mártir!
Um forte e amigo abraço.
Luís

Carlos Albuquerque disse...

Filoxera,
Recordações assim...por certo não são de enjeitar! Muitas vezes é bom andarmos de namoro com as nossas recordações...
Beijinhos

Amigo Luís,
Calculo as vossas saudades. Também foi em Angola, como diz aquela terra tão linda e tão mártir, (onde nasci)que despertei para a vida...
Leve à vontade este post, não o rouba, de modo nenhum. Tal como a sua Tulha, o meu blog é um espaço de partilha amiga.
Para si, também, um grande abraço

Agulheta disse...

Amigo Carlos! Adorei recordar os cantores que fizeram a mainha geração,e a bela poesia de um Namoro,escrito por este poeta Angolano,adorei ler pode crer.
Beijinho e tudo de bom Lisa

Vivian disse...

...que gostoso post com final feliz!!

como são lindos os poetas a brincar
com o imaginário da gente!!

beijos, querido!

Austeriana disse...

Este poema de Viriato Cruz é dos hinos ao amor mais bonitos que conheço. Depois, tem também a qualidade de se constiuir celebração da simplicidade nos afectos e do repúdio pela aculturação.
Obrigada por mo relembrar!
Feliz dia dos Namorados!

Maria João disse...

Carlos
Este é um extraordinário poema, canta por um, igualmente extraordinário, cantor e compositor português.
Apela a grandes recordações sim... ou a pequenas, mas grandes no sentir!
Que apele também à vivência do momento presente. Porque, como tão bem afirma: " O Amor dá forma ao sonho mais belo que é a vida.."

Um beijinho e feliz dia dos namorados para Ele e para Ela e que estejam sempre de braço dado de namoro.

Malu disse...

Tão lindo, amigo.
Guardei em meu coração.
Beijinhos

maria teresa disse...

Conhecia...oiço sempre com agrado.
Faz-me sonhar... e eu gosto tanto de sonhar!Não quero parar de sonhar!
Abracinho

Teresa disse...

Carlos
Lembro-me bem destas palavras, cantadas pelo Sérgio Godinho.
Muito bonito, obrigada.
Bjs

Sonhadora disse...

Lindo poema, é uma canção muito bonita.

beijinhos

tulipa disse...

Obrigado por mais um momento delicioso, lendo esta bela poesia de um poeta angolano. Temos na alma o chamamento de África, sempre.

Sobre o fim de semana do Carnaval, apenas transcrevo uma frase que descobri hoje, acho o máximo, de verdadeira que é:

As pessoas afivelam uma máscara, e ao cabo de alguns anos acreditam piamente que é ela o seu verdadeiro rosto. E quando a gente lha arranca, ficam em carne viva, doridas e desesperadas, incapazes de compreender que o gesto violento foi a melhor prova de respeito que poderíamos dar.
(Miguel Torga)

Beijinhos.
Boa semana.

Rosa Carioca disse...

Não conhecia a canção. Mas ao ler o poema, emocionei-me duplamente. 1º- pela beleza da poesia; e 2º- estudei numa escola que ficava no Bairro da Samba (que saudade).
E já agora, agradeço o seu comentário deixado na Maria João. Uma das muitas coisas que aprendi com meu pai é lutar contra a estagnação. Abraços.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Conheci este poeta atrvaés de Sérgio Godinho. Enquanto lia, dei comigo a cantar.
Abraço

Ana Karenina disse...

olá Carlos

Agradeço sua visita no meu blog, estarei também sobrevoando no seu, rs

é, cansei de ficar olhando nos favoritos do navegador os blogs que me interessavam, resolvi assumir os meus gostos e listei todos eles, rs

Realmente aprendemos muito nesse mundo da blogosfera e sempre me sinto assim quando alguém me diz algo que me transforma:

"Amanhã um estranho dirá, com magistral bom senso, exatamente o que pensamos e sentimos desde sempre" Ralph Waldo Emerson

Enfim, segui sua sugestão de colocar lá um espaço pra seguidores, se é pra blogar vamos blogar direito né? vou tentar levar o meu amadorismo blogueiro mais a sério, rs

Abraços.

Sofá Amarelo disse...

Sempre que ouço esta canção, este hino, esta ode ao amor e às coisas simples da vida, visualizo sempre os próprios bailaricos a que eu ia nos idos de 70. Esses, sim, tempos de um tempo que se perdeu... com muita pena minha!

Um forte abraço e obrigado pela recordação!!!

Fernanda disse...

Querido amigo Carlos,

Não sei se o Sérgio Godinho adoptou este poema, sei que o conheço perfeitamente e que foi pela voz de um dos meus cantores favoritos, o Sérgio Godinho, que conheci este maravilhoso poema ao namoro.

Lembro-e de o ter usado para ensinar um aluno Belga Flamengo, a nossa língua mãe, uma vez que ele era mais doido ainda do que eu por música.
Em troca eu apaixonei-me por tudo que era do Jacques Brell.

Lindo!

Abraço