sexta-feira, 25 de março de 2011

De quando o tempo foi assim


É um homem sem dentro, que ali está sentado, a olhar o mergulho do Sol no outro lado da mata.
Desgovernado o suor corre-lhe da testa, inunda-lhe os olhos forçando-lhe as lágrimas. Estas chegam-se-lhe aos lábios neles deixando não o habitual sabor da vida, mas um saibo a fel.

Revive a emboscada. O metralhar das armas, o silvo das balas, a gritaria. Depois o silêncio e o levantar servindo-se da arma como um bordão de fogo sujo. “Não há baixas!”, ouve.
Dá um passo. Quase tropeça num corpo estendido. Baixa-se. Vê uns olhos abertos de medo, un tronco descoberto, umas pernas vestidas de calças esfarrapadas e uns pés nus de planta grossa e encarquilhada denunciando muitas rugas de terra percorridas. Aproxima-se um pouco mais. O corpo diz-lhe:
“Já mataste tudo o que tinhas dentro de ti. Precisas, também, de me matar?”.
Olha, de novo, os olhos de medo, que agora choram. Levanta-se e fala-lhe:
“Vai!”. Deixa-o sair, correndo capim fora.
Já o Sol se pôs. A noite desenha a silhueta das árvores. Nunca, antes, as viu assim. Parecem ter medo do dia de amanhã. No céu as estrelas escrevem a fogo:
“Já mataste tudo o que tinhas dentro de ti. Precisas, também, de me matar?”.

11 comentários:

Filoxera disse...

Forte. Muito forte, este post.
Muito belo, também.
Gostei muito.
Beijinhos.

Rogério Pereira disse...

Eu nunca escreveria as coisas assim, meu amigo.
Não é por nada.
Apenas não consigo...

(acho que hei-de arranjar um lugar
só para o poder citar)

Marilu disse...

Querido amigo, tenha um lindo final de semana primaveril. Beijocas

folha seca disse...

Caro Carlos Albuquerque
Já li este post ontem. Tentei comentar mas não encontrei paravras. Uso as da Filoxera "forte muito forte"
Abraço

Fê-blue bird disse...

Que frase meu amigo, até me arrepiei acredite.
Nem sei que comentar perante a grandeza deste seu post. Parabéns!

Bjos

Janita disse...

Caro amigo Carlos, é com un nó na garganta que lhe escrevo.

Forte,incisivo,tocando no mais fundo da alma de quem o lê, é assim que vejo e sinto este seu texto.

Por agora, mais não lhe consigo dizer...obrigada!
Un grande abraço e forte kandando.

Janita

Catsone disse...

Carlos, não há palvras, amigo.
Texto tão intenso; me vi no lugar de ambas as personagens e não sei qual o mais desesperante.
Abraço.

maria teresa disse...

Uma frase que descreve o sentimento (a destruição de um ser humano) de quem é forçado a combater...
Tenho um irmão, perito em minas e armadilhas, que quando regressou de África veio "diferente" mas nunca quis falar, nem fala, no que passou por lá...
Abracinho meu!

(CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

Parabéns, xará. Que texto!!! Muito bom!!! Um abraço

Maria João disse...

Carlos

Não só de balas e morte se escreve a guerra, mas também da construção da alma. Dos que ficam? Sim, dos que ficam e dos que com ela se confrontam à beira da morte. Almas humanas que apenas caminham em lados opostos e que se abraçam, no derradeiro segundo em que é maior o grita pelo respeito no valor da vida. É nesse abraço que ambas entendem que apenas os astros podem sentir-se vencedores de qualquer batalha, porque alto vivem.

Este é um dos seus inúmeros textos para guardar na memória e reflectir nele, muitas e muitas vezes.

Obrigada!
Um beijinho

Dulce disse...

É preciso muita vivência e, mais que isso, muita sensibilidade para mostrar cenas assim, tristes, amargas, verdadeiras... As lágrimas não ficaram só nos olhos do homem sem dentro, meu amigo... Marejaram os meus também...
Beijos