quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Do Mwata

O Tempo
Já lá vai o tempo em que o Tempo me dava tempo.
Agora, não. Já pouco me cede, e nem por empréstimo se alarga um coche que seja, antes se encolhe. Magoa-me, dói-me.
Para além dos padecimentos físicos, põe-se a arranjar-me outros. A ele não lhe falta o tempo para me mortificar, e passa o tempo a dissimular como um fingidor.
Ora me diz que sim, está tudo bem, abrindo-me alentos, ora me amanhece com penares e interrogações, ora me inquieta e desassossega o sono despertando-me com outros oras, roubando-me o tempo do retempero. Quer que eu caminhe sem andar, que ouça sem escutar, que veja sem enxergar, que chore sem lágrimas, que ria sem riso, que grite sem voz, que sonhe sem sonhos, que sofra com dor. Que me zangue sem ira. Que seja inútil e estéril.
Só não diz, nem disfarçando, a que tempo se irá o Tempo.
Mas, o que seria dele sem mim? Nada!
Tenho razão e coração. E ele? Falta-lhe uma coisa, desconhece a outra. Ouço e gosto de ouvir e ver. Olhar o dia, que me traz a luz, os sons e os odores lá de fora, a chegar-me de manhã pela janela semi-cerrada, às vezes de madrugada, e, quando é Primavera, a deixar-me acompanhar o esvoaçar das andorinhas à procura dos beirais, pelo ar aos arrebiques, pintando-me o carro com os seus dejectos ácidos, ou de ver o vizinho que calcorreia, rápido, a rua a caminho da nova pastelaria em busca do croissant acabadinho de sair do micro-ondas. E mesmo no Inverno, quando chove e graniza, ou a luz não é a do Sol mas a de um relâmpago. E ele? Que vê ele?
Quando choro de dor, do magoar que ele insiste em pegar-me, tenho uma mão amiga que me afaga a face, me olha nos olhos e me sustém as lágrimas. E ele?
Quem lhe dá um ombro suave para repousar a cabeça e lhe fala de coisas simples como pagar a conta da água ou do gás, cada vez mais caras, ou prenuncia a discussão que está para chegar e não atira as zangas para amanhã; das compras a fazer vinda a bonança, ou, ainda, das férias que se hão-de gozar, dando-lhe a consciência de que ainda vive?
Andou ele, alguma vez, por poças de água de caminhos molhados. Deitou-se ele, alguma vez, no capim encharcado depois da chuva? Quando bebeu ele água das lagoas ou rios, depois de neles ter mergulhado, levando-a à boca com as mãos? E o funge, o pirão e o jindungo? Sabe ele o que são? Jogou ele, alguma vez, de pé descalço, com bola de meia enchida de trapos e sumaúma na diloa dos musseques?
Amou ele, alguma vez, ao luar filtrado pelas casuarinas sobre a areia da praia, arfando de amor?
Ouviu ele, alguma vez, o riso ou o choro de uma criança do mesmo sangue, mais lindos do que os brilhos das estrelas, encostada ao peito, aonde se aconchega para um sono tranquilo e seguro?
Teve ele, alguma vez, tempo para tudo isto? Não, só para me tirar o tempo!
Entre mim e ele corre tudo o que nos separa.
Quem o inventou, quem o trouxe para o meio da gente?

8 comentários:

acácia rubra disse...

Tens de retirar dos teus seguidores o mix Cultural pois é esse que te transmite o virus.

Beijo

Filoxera disse...

Que bom, voltar a lê-lo!
E não será o tempo uma farsa? Uma desculpa, em certos contextos?
Beijinhos.

São disse...

Não tenho como lhe dizer o quanto gostei de que aqui nis deixa escrito.

Por isso, lhe desejo um sono sem pesadelos.

Fê-blue bird disse...

Meu querido amigo:
perco-me nos seus textos, aqui o tempo pára, nem me interessa, nem lhe dou conta.
Acho que vou a partir de agora dar menos importância ao tempo, que tantas vezes me tenta :)

"Ouviu ele, alguma vez, o riso ou o choro de uma criança do mesmo sangue, mais lindos do que os brilhos das estrelas, encostada ao peito, aonde se aconchega para um sono tranquilo e seguro?"

LINDO!!!

beijinhos

acácia rubra disse...

Continuo a não poder ler e não sei se o comentário entrará pois já estou com o aviso no fundo do ecran.

Já tentaste, da lista do painel dos blogues no teu perfil, tirar o tal blogue que segues? Parece que dá resultado.

Beijo

Carlos Albuquerque disse...

Acácia

Fiz como disseste, retirei o tal blogue (Mixcultural)da lista no meu perfil. Pelo que dizes, não resultou. Agora estou a ser sistematicamente "bombardeado" com spams!
Beijo

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Caro Carlos Albuquerque
É um enorme prazer vê-lo de regresso à blogosfera, onde a sua presença fazia tanta falta!
Obrigado por isso e também pelo destaque que me dá, junto de gente tão ilustre e muito mais conhcedora do que eu, dos meandros políticos.
Agora vou ler os outros posts que perdi, pois depois de cá vir várias vezes, já estava perder a esperança de ver o seu regresso
Fortíssimo abraço

Maria João disse...

Carlos

Neste tempo que nos rouba o tempo, há um tempo para voltar para dentro, onde tudo o que vivemos é força e suporte do que somos.

Que bom que é lê-lo de novo. Que riqueza tamanha!!

Um beijinho desta amiga