sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A saudade não cabe cá dentro!


Éramos seis. Catraios desenfreados e reguilas, alunos do sábio e paciente professor Cardoso na Escola 8 em Luanda, onde frequentávamos a primária. Quatro negros, dois brancos.
Não éramos estudantes por aí além, mas também com aquele mestre bastava ouvi-lo atentamente e seguir o que ele escrevia e desenhava no quadro negro (o que fazíamos) que o saber ficava-nos. Diziam uns mais velhos que éramos “os putos que sabiam”. Não seria tanto assim, mas a verdade é que passámos sempre de classe com bom aproveitamento e abraços do Prof.! Que agradável era sentir aquele peito de homem bom encostado ao nosso! Também havia tabefes, reguadas e castigos, claro, mas aquilo era como o bater de mãe: não doía.
Não ficávamos pela escola. O nosso era um grupo de aventureiros. E a aventura não estava na sala de aula (só havia uma), onde, pensávamos, já tudo tínhamos descoberto (para nós escrita e contas eram um tu cá tu lá, até sabíamos onde pôr a cedilha e o h do verbo haver, para já não falar da tabuada que dizíamos enquanto o diabo esfregava um olho), mas fora dela.
Viesse uma borla, ou decidíssemos uma borla (sim, também o fazíamos!) e pronto! Lá íamos os seis atravessar a rua a correr, guinar para cima em direcção ao Miramar e, aqui chegados, flectir para as Barrocas do Bungo, à procura dos sulcos de terra vermelha que desciam para o Mar da Boavista, lá muito em baixo. Só nos metíamos nestas andanças quando a luz que vinha do céu chegava sem nuvens, apenas deixando ver o azul. Chuva nas Barrocas era um Deus me livre!
Lá íamos, descendo o monte, numa correria trôpega e ziguezagueante, saquetas da escola bem agarradas ao pescoço e sandálias nas mãos. Chegávamos lá abaixo cansados, mas ainda com forças para o encontro com o mar. Entrávamos pisando a borda baixinha do Atlântico que, embora por vezes envergonhado, parecia estar à nossa espera. Envergonhado, sim, porque havia dias em que nos acolhia com as águas barrentas tingidas pela lama vermelha arrastada das Barrocas por chuva violenta da véspera. E disso, estou certo, ele não gostava. Preferia banhar-nos com águas cristalinas.
Foi ali, esbracejando por espumas brancas e lamas, que me lancei na aventura do mergulho no oceano. Conheci-lhe a carícia. Aprendi a não lhe contrariar a força e a vê-lo por dentro. Tomei-lhe para sempre o gosto salgado como os das primeiras lágrimas que chorei. Demos e damo-nos bem. Mais tarde apresentou-me a Kyanda, na Ilha de Luanda.
Foi ali, à beira do Mar da Boavista que conheci amigos grandes: os pescadores, gente boa como pouca tenho encontrado.
Para além de sabedorias aprendidas no convívio, conversávamos, sem pressas, sentados na areia, em círculo. Ensinaram-me eles a arte de ximbicar as canoas: movê-las, não com remos, mas com bordões que fincavam no fundo do mar, impulsionando-as, o que exigia habilidade e perícia. Muitas vezes me aconteceu não subir o bordão a tempo, continuando a canoa a deslizar. Ficava, então, agarrado ao pau pendurado aos pinotes no ar, como um kamundongo preso pela cauda. Depois, está bom de ver, era a queda na água, o esbracejar e o vir à superfície com alguns pirolitos pelo meio e ranhoca a correr-me pelo nariz. Os pescadores riam e diziam: “munanga não lhe dá no jeito”. Mas, como mestres aplicados, insistiam. E eu aprendi!
A chegada a casa, sempre tardia, que o caminho demorava, era outra aventura: ralha, tareia da mãe e banho forçado com sabão macaco, pois então!

1 comentário:

acácia rubra disse...

Gostei de saber das tuas traquinices.

Todos as tivemos. Puras e inofensivas. Marcantes e fortes. Modelaram-nos e, por isso, recordá-las faz-nos bem.

Hoje as crianças são empilhadas nos infantários quase dez horas por dia. Depois ficam na escola outras tantas, chegam a casa e não levam ralhos, nem tareias, nem banho com sabão macaco. Apanham com a pressa dos pais em metê-los na cama. Crescem como espinheiros num terreno árido. Não têm prazer nem nas pequenas nem nas grandes coisas. Tudo é banal, mecânico.

Por isso, muitas vezes dou por mim a falar-lhes, empolgada, de como era quando tinha a idade deles e vejo naquelas caras que tenho à frente,que estão a ouvir, mas que a dúvida relativamente ao prazer daqueles momentos descritos se instala neles.

Sabes, dou por mim a sentir que tenho muita coisa para dizer aos meus alunos mas que já não tenho tempo.

Ponho-me a escrever e nunca mais paro. Sabes como é!

Beijo