segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Mercados


Gosto de Mercados. Aonde me desloque, desde que os haja, não deixo de por eles passar, espiolhando-os de alto a baixo. A que propósito vem isto? Não sei, talvez seja ainda resultado do choque que senti ao ouvir num canal televisivo um espectador dizer, a propósito do aumento da electricidade: "Está na altura de pegar em armas e darmos cabo deles todos", ou uma maneira de fazer com que a crise desconsiga envolver-me. Vou hoje falar-vos de um. A 17 quilómetros de Luanda, na estrada para Benguela, está Benfica e o seu Mercado do Artesanato, também conhecido pelo 17.
Para além dos trabalhos de artesãos, em madeira, verga, vimes, tecidos, conchas, marfim, ossos e metais, e de criações plásticas a óleo, ou aguarela, em telas e sobre areia colada em estopa, ali se vendem papagaios, periquitos e outras aves exóticas, macacos, chimpanzés, cágados, tartarugas, pombos verdes, passarinhos e mais bichezas, por vezes até sengues, (um sáurio grande aparentado dos crocodilos) e, também, peles de onça, leão, crocodilo, lagartos, jibóias e outros répteis.
Vendem-se dikosos de quimbandas e de outros curandeiros, benzedeiros e exorcistas, como pós de cheirar e queimar, ervas de fumar e fluidos de esfregar, recicladores deles e desabrochadores delas. Os «papás»(tratadores de enfermidades e debeladores de azares) trocam por dinheiro, amuletos espanta-espíritos-maus, invocações de curar males e atavios das almas, como fotografias do Papa João Paulo II, que peregrinou por Angola em Junho de 1992 (provavelmente agora também já se comercializam as do actual chefe dos católicos Bento XVI), tudo embrulhado em grandes sorrisos, as mais da vezes sem dentes, mãos cheias de bons conselhos e sussurros de abuamar o mais seguro dos espíritos. Com paciência e um pouco de diplomacia de conveniência (uma cerveja, um maço de cigarros e, ainda melhor, uma nota de dólar) conseguia-se (consegue-se?) que um ou outro dos curandeiros falasse dos seus processos de tratamento das mais diversas maleitas: uns, puramente mágicos; outros, com recurso a preparações estranhas de diferentes ingredientes nunca revelados porque no silêncio guardam eles a arte do negócio; outros ainda invocando vontades divinas. Alguns até bungulando para maior efeito.
Os mercadores eram (serão ainda?) angolanos e zairenses, estes em maior número e dominando, sobretudo, as bancas dos marfins e ossos a imitá-los, (sendo necessário olho aberto e tacto apurado para se fugir ao engano) e das malaquites e outros ornamentos metálicos. Têm, ainda, liamba e peças antigas de arte Tchokue, Kioka e Bakonga,  verdadeiras relíquias roubadas de museus da região das Lundas, no Leste de Angola. Como os seus camaradas da antiga Constantinopla, que iguais continuam hoje na actual Istambul, nada vendem sem discussão de preço, começando, sempre, por um «oferece amigo», enfatizando o vocábulo da afeição.
Angolanos (poucos), e estrangeiros (muitos), em especial portugueses, a trabalharem nas estruturas militares e civis das Nações Unidas, ONGs e em programas de cooperação, eram os seus frequentadores, dele fazendo destino obrigatório, aos fins-de-semana, em particular aos domingos, que os preços eram mais baixos ao fechar da feira.  A maior parte, para lá rumava, na busca de uma recordação, ou de qualquer coisa para oferecer, no regresso à terra. Outros, por ali apareciam para rever conhecidos, saber novidades, trocar informações, reacertar memórias, recuperar afectos perdidos, conquistar amores novos..., que as kafekas abundavam! Foi no 17 que conheci, e conversei pela primeira vez, com Fernando Nobre, o urologista da AMI, candidato derrotado à Presidência da República e rejeitado depois  pelo Parlamento.
Dele se falava assim: vamos ao 17. Em tom intimista, como se de um amigo se tratasse. E tratava, pouco importando o lixo, o calor estorricante, as cubatas fedorentas envolvendo-o, ou os bandos de putos, esfomeados e esfarrapados, alapando-se aos carros, fazendo da nossa chegada uma festa. Nada nos aquietando, outrossim, o regresso a Luanda, ao pôr-do-sol, com passagem pelo Musseque Rocha Pinto, durante muito tempo uma zona de alto risco, onde eram frequentes os assaltos com armas de fogo, a viaturas por lá circulando. Escapei a dois.
Desculpem. Prometo curar-me.

11 comentários:

Gisa disse...

Acho um costume estimulante conhecer mercados. Há muita vida naqueles locais.
Um grande bj querido amigo

São disse...

Infelizmente nunca estive nem em Angola nem em Moçambique nem em S. Tomé.

Desse hábito de discussão de preços , tive basta experiência no Egipto.

Bons sonhos.

Utena disse...

Do meu tempo que passei em Angola dos mercados é algo que recordo com carinho...

TERESA SANTOS disse...

Meu Mwata,

Não, não vais curar-te, nem pensar!

Levaste-me, mostraste-me, qual fotografia, o teu belo mercado. Adoro mercados, sejam quais forem, seja onde for.
O teu mercado?
E fiquei parada frente aos trabalhos em marfim. Sabes que adoro peças em marfim?
E fui vendo isto e aquilo, e fui conhecendo gente diferente, mágica, que cura mazelas do corpo e da alma, e meninos que esperam os visitantes, e o negócio que é tudo menos fácil (é necessário saber negociar!) e vi as aves exóticas, e imaginei-me no meio desse mundo de magia.

Que bom foi "visitar" o 17!

Abraço grande, Mwata.

P.S. O que são "dikosos"? É uma vergonha...

Carlos Albuquerque disse...

Gisa
Os mercados são, de facto, um fervilhar de vida.
Obrigado. Um beijo, também.

São
Quem passa por África, ou nela nasceu, como eu, jamais a esquece. Fica-nos correndo pelo sangue.
Deve ter sido marcante a sua experiência no Egipto. A maior discussão de preços que tive em mercados foi no Grande Bazar em Istambul onde me "perdi" durante um dia inteiro.
Sonhos bons para si, também.

Carlos Albuquerque disse...

Utena
Sei que sim, que recordará com carinho o tempo de ida aos mercados em Angola.

Teresa Santos
Vergonha, porquê?
Dikosos são remédios de quimbandas e de outros feiticeiros.
Abraço grande

Fê-blue bird disse...

Meu amigo, descreveu na perfeição um fervilhar de vida que infelizmente desconheço completamente.
Todos os seus textos revelam uma grande vivência e sensibilidade, nunca se cure delas ;)

beijinhos

acácia rubra disse...

Há um sinal de alerta de virus no teu blogue

www.mixculturainformaçaoearte.com

Não sei se vou conseguir enviar este comentário.

Beijo

Carlos Albuquerque disse...

acácia rubra

Grato pelo aviso. Não faço ideia do que seja. Tenho lido por aí que a blloger foi apanhada por vírus. Será?
Algo de estranho se está a passar. Aproveito esta resposta para te dizer que não consigo entrar no teu e noutros blogues para deixar comentários. O navegador demora que tempos a tentar abrir e acaba por bloquear!
Enfim, vamos ver se isto melhora.
Beijo

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Também gosto muito de mercados, Carlos.
Fascinam-me especialmente os asiáticos, onde a miscelânea de cheiros e cores lhes confere um ambiente ímpar.

Maria João disse...

Há mais vida num mercado. Sente-se mais o cheiro da terra e do mar, a energia do sol e o esforço dos Homens.
E há tanta vida nestas suas memórias, Carlos...

O meu abraço, forte e amigo, como sempre!