
No Reino vegetal
Aquele anafado, que ali vai, mora no rés-do-chão do prédio de gaveto da Rua Sul. Ao olhar-se-lhe fica a impressão de ter vencido a insónia. Parece fresco que nem uma alface. Atrás, caminha o vizinho do primeiro direito a quem, há tempos, chamou, na fervura de uma altercação, mariquinhas pé de salsa. Mais ao fundo, vê-se agora, vem a porteira do condomínio. Já lhes pôs o olho em cima. Lembra-se ela de ter assistido, por mero acaso, à discussão entre os dois. Na altura, nada disse que se ouvisse. É pessoa comedida, não um ser metediço na vida dos outros, já lhe bastam os enredos da sua, mas pensou lá com ela: pois, aquilo é só repolho podre, a culpa é de quem os criou que se esqueceu que é de pequenino que torce o pepino. Se qualquer deles tivesse escutado aqueles pensamentos teria, certamente, ficado vermelho que nem um pimento. A porteira acelera o passo, passa-lhes à frente e vai à sua vida, de bengala a dar a dar, que os joelhos já nem como aloé lá vão.
Mais rápido, não vá o que vem atrás chegar-se-lhe, o do rés-do-chão dirige-se para o café da praça ao fim da rua onde é hábito encontrar-se com um amigo, com este matabichar e dar um dedo de conversa, por vezes dois, antes de seguir cada um para o emprego. Chegou. O amigo aparece. Sentam-se, pedem o costume.
Diz o amigo:
- Então, trouxeste o livro que te pedi ontem?
- Não, não me lembrei.
- Irra! Já é a terceira vez. És bem um cabeça de alho chocho!
- Deixa-te disso, vai à fava, trago-to amanhã.
Os croissants e o pão de Deus recheado foram-se, as meias de leite esvaziaram-se.
- Vai uma bica?
Pergunta o do rés-do-chão, que logo continua:
- Lembras-te de te ter contado aquela cena com o meu vizinho do primeiro direito?
- Sim, e então?
- Pois não é que ontem à noite, estava ele à janela e eu a chegar, me chamou abóbora!
- E tu, o que fizeste?
- Nada, para discussão já basta a que houve.
- Que grande nabo me saíste, és bem um banana!
A conversa fica por aqui, porque da mesa ao lado se levanta uma colega do morador do rés-do-chão por quem este sofre de amores inconfessados.
- É boa como o milho!
Diz o amigo.
- Pois é.
Insiste o amigo:
- Só não percebo porque tremes que nem varas verdes sempre que a vês.
Já levantado, o do rés-do-chão, mãos nos bolsos e cigarro ao canto da boca, lá vai para o trabalho, a pensar com os seus botões: que coisa, nem hoje que é Sexta-feira, dia de Vénus e de Afrodite, ele me larga o tomateiro!
10 comentários:
Ó meu caro, Carlos Albuquerque. E castanhas? Dá-me cá a impressão que isto vai dar castanhada. Ainda por cima as castanhas este ano por falta de água, não crescem...
Abraço
Delicioso!
(salvo seja...)
Meu amigo, que reino tão "frutífero" este com que nos presenteou! :D
Uma tão vasta mistura de sabores e cheiros pode e deve dar uma valente indigestão ;)
A minha neura...foi-se :)))
beijinhos
Puseste-me a rir. Mas a rir mesmo.
Ganhei o dia com estas divagações.
Beijo
Puseste-me a rir. Mas a rir mesmo.
Ganhei o dia com estas divagações.
Beijo
Não sei se o meu comentário (este) terá entrado porque há um corte de ligação.
rrss rrss
não sei se a si lhe passou a neura, mas a minha minguou...
O meu grato abraço
Mande essa neura plantar batatas ... ou apanhar côquinhos ...
Querido Mwata,
Mas que bela (e completa) horta!
Obrigada por nos fazeres rir. E que bem sabe!
Abraço grande.
Depois de ler este post delicioso, Carlos, saio de fininho e vou já ali ver se consigo dar uma dentada numa bela nêspera:-)
Abraço
Muito bem escrito. Muito bem contado. Uma leitura saudável e colorida a enxotar os bolores cinzentos destes dias. :-))
Um beijinho
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