segunda-feira, 5 de julho de 2010

Do Viajante


Entre o que foi, e o que é.


Arrimado ao tronco alto e magro, olhando fixamente o manto de prata acabada de arear, com que o mar hoje se cobre, ele sente-se, tão só, uma pequena ilha encalhada algures no tempo.
A silhueta, vista daqui, assemelha-se à de gente no vigor da idade. Olhando-a de mais próximo, encontra-se-lhe um semblante carregado de vida, que nada mais deixa perceber, embora num ver mais atento se encontre alguém que não tem gasto o tempo em urgências.
Escuta-se-lhe o respirar da sombra ondulante da casuarina, a cuja frescura se acolheu.
Lá por cima, em surdina, planam gaivotas transportando nas asas o cheiro a maresia. Mais abaixo esvoaçam gaivinas com queixumes fortes espantando os quero-quero.
De tudo parece alheio.
O bater do mar liberta-o da fixidez. Mais se encosta ao peito da árvore sulcado por risos e lágrimas de resina, soltos e vertidas dos muitos anos que leva de vida, vida de cuja idade se não tem notícia. O aconchego dá-lhe ímpeto. Levanta-se. Caminha pela areia, senta-se numa trança da praia. Quer abraçar o mar, mas deita-lhe apenas as mãos. Ao levantá-las vê escorrer, por entre os dedos lassos, raios de luz parecendo-lhe janelas abertas por onde se lhe escapam palavras, umas mudas, outras sussurrando ausências. Fica olhando-as. Hesita entre tirar a pele às palavras ou pedir explicações ao raiar da aurora, hoje por entre uma névoa fina, trazendo o sol ainda timidamente quente.
Sussurrantes, não de ausências, mas de segredos, recorda-se, foram as palavras ditas, não muitas, na noite passada, depois dela chegar, cabelo solto caindo-lhe sobre as costas, rosa vermelha ao peito, sorriso nos lábios, brilho nos olhos, mãos prometendo carícias. Mais foram os afagos trocados antes dela partir, do findar da noite a ter levado para outros ires. Na boca dele, deixou ela um beijo e a rosa. Ele disse hoje, pela primeira vez, beijei o céu.
Agora, rola pela trança da praia. Volta a dar os dedos ao mar e, ao recolhê-los, vê, por entre eles, pétalas de uma rosa vermelha.
Distante, ela caminha para outra noite, com nova flor ao peito.
Ele continua, entre o que foi e o que é, procurando um futuro fora do crepúsculo.

9 comentários:

Rosa Carioca disse...

Que delícia! Já tinha saudades...

acácia rubra disse...

E o mar traz e o mar leva...

Enquanto isso, ele permanece mas não igual, porque não haverá crepúsculos semelhantes no seu futuro.

Belo texto!

Beijo

Si disse...

Afinal, a espera compensou.
E nem as malfadadas do post abaixo conseguem alterar esta escrita cativante.
Gostei imenso, Carlos

Marilu disse...

Meu querido amigo Carlos, quando você diz em seu poema "pela primeira vez beijei o ceú"., que frase linda, só ela já valeria o texto...Adorei...Beijocas

maria teresa disse...

O crepúsculo pode ter encantos e sentires sem nome. Depois dele intemporalmente renasce o dia...um dia em que a luz é suave, é pura, é amante, é vida...
Abracinho

(CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

Pode ter mudado algo, mas não na sua essência. Parabéns pelo texto. Um abraço

driftin' disse...

Quando se retira a pele às palavras, corre-se o risco de o silêncio se perder na indecisão do crepúsculo.

Talvez seja preferível que o viajante retenha nas suas mãos o inexplicável sussurro dos búzios. Havia búzios na praia, não é verdade?

Gizelda disse...

... janelas abertas por onde se lhe escapam palavras, umas mudas, outras sussurrando ausências.

Caro Carlos... são essas palavras mudas que venho procurando há muito.Você as encontrou. Lindo.

Bjs.

Maria João disse...

Meu amigo Carlos

Este é mais um dos seus extraordinários textos poéticos. Uma escrita onde despe as palavras, como ninguém. Retira-lhes a pele, como diz e, assim desnudadas, elas ecoam-nos, directamente, na alma.
Entre o que foi e, o que é, a viagem é imensa e nem a aurora saberá dar todas as explicações.

Um beijinho enorme
( Ando atrasada nos comentários, mas leio, leio sempre!! )