terça-feira, 13 de julho de 2010

Do Viajante


Memórias (1)
(De gentes e coisas, que conheceu no extremo Norte)


Quatrocentos e alguns quilómetros depois da partida do litoral, já lá vão, a estrada de terra batida, as florestas e as matas verdes e densas. Agora, circula-se sobre os trilhos de uma picada, que mal se vê, serpenteando por entre extensos areais, à conquista da planura árida, dominada por embondeiros, espinheiras, cactos candelabros, maboqueiros e arbustos meio secos. Zona de caça grossa, diz o motorista, levando a mão à espingarda arrumada ao alto, atrás do encosto do seu assento. Do leão apenas escutam o rugido de rei, que os faz tremer. À vista só uma pacaça que, pachorrenta e indiferente, mas de virar de cornos ameaçador, atravessa a picada.
De quando em quando pequenos vórtices aspiram o solo, lançando ao ar areia fina e folhas secas, parecendo que anda por ali uma pua gigante a querer penetrar o chão. Ao entardecer o verde regressa à paisagem. Atravessam um palmar, no fim do qual o caminho corta a meio uma sanzala. Dum lado e doutro, crianças e mulheres, estas com cachos de dendê à cabeça – algumas também com bebés às costas, seguros por panos amarrados ao peito –, acenam-lhes. Por aqui já se vêem cajueiros, mangueiras e um bananal. Mais ao fundo avistam-se árvores de maior porte. Umas são eucaliptos-gigantes, outras panga-panga e abacateiros, a avisarem da proximidade da cordilheira que terão de conquistar em rota para as terras altas, de forte vegetação e das grandes chuvas – a região do café, a que chamam, igualmente, os campos do ouro negro. Sobre o horizonte recorta-se o cume da serra mais alta, envolto por um anel de nuvens brancas, como se a Natureza estivesse em pedido de casamento.
Chove a cântaros. São sete da manhã, mas parece noite. A cortina de água, cor de chumbo, cobre o mundo à volta. Faíscas chispam por toda a parte, iluminando o céu, como se a espátula de um pintor ande por ele, ébria, marcando-o com ziguezagues de fogo, quase o incandescendo. Há meia hora que o tumulto da natureza persiste violento, obstinado.
Finalmente, o destino. Para trás ficaram cinco dias de viagem esgotante. De Sul para Norte inicia-se a descida da rua principal da cidade (assim dita, mas que não passa de uma aldeia a querer ser gente) transformada num mar de lama, com a água correndo tumultuosa, descontrolada pelas bermas, como rios soltos por diques deitados abaixo e, com eles, algumas cubatas.
Ali conheceu o Viajante, pelo ano que por lá esteve, coisas e gentes.

I

Simão, o padre da pequena corcunda, que transporta entre esta e a camisola interior, endurecida pelo surro que lhe ensopa o suor, um amarelecido e salgado breviário engatado ao pescoço, é um homem de urgências, não espera por Deus. Sem que lho peçam, basta que lho digam, lá parte ele, a pé ou na sua velha moto com side-car, a levar o Viático aos doentes ou a tentar faze-lo aos que maltratados por ordem dos pides são atirados, por estes e pelos sipaios, para o capim alto nas bermas das picadas escuras para que a bicharada os leve, antes ou depois que a morte os apanhe. Simão não perde nunca a oportunidade de conquistar uma alma. Bem cedo, nas manhãs dos dias de semana, vai à sanzala, ali mesmo a nascer do outro lado da rua, buscar três putos para os levar à escola. À tarde faz o mesmo percurso, a deixá-los nas cubatas. Pelo almoço, cuida que um pequeno farnel lhes chegue.
Assim vai ele, com parte do seu rebanho.
E ainda tem a crescer alfaces, feijocas, tomateiros, um pé de jindungo e outro de caxinde, num canteiro, por si criado em sete manhãs de desvelado exercício de mãos e pés, no quintal da igreja, ao fundo, junto ao poço. Os agriões, acredita, mais tarde ou mais cedo, acabarão por alçar nas margens do fio de água que ele cavou para a rega. Muita fé e nada de agrião, que não há meio de crescer.
Contudo, nem tudo é perfeito.
Desde a chegada, o velho padre Simão habita o presbitério, contíguo ao templo, com uma negra oriunda do Sul, enérgica, trabalhadora, boa cozinheira, respeitadora, um compasso do tempo mais nova do que ele. Depressa se afeiçoaram. A mulher fez-se uma ajudante preciosa, indispensável. Das lides da casa passou a outras. É certo que não ajuda à missa nem auxilia o pároco nos ofícios divinos, mas mantém a sacristia impecável com os paramentos sacerdotais e os utensílios de culto limpos e arrumados. Aprimora-se no arranjo do altar, renovando, amiúde, os quatro ramos de flores, dois de cada lado do sacrário. Dá luzimento, todas as semanas, ao madeiro do Cristo crucificado. Mantém a brilhar os castiçais de metal fundido, sem deixar que os círios se esgotem. Verifica, dia a dia, o nível da água nas pias baptismais. Muitas vezes é ela que puxa as cordas para fazer dobrar os sinos, um esforço agora demasiado para o eclesiástico de corcova às costas.
A igreja nunca teve sacristão. Assim se mantém.

(continua...)

20 comentários:

Fernanda disse...

Querido amigo Carlos Albuquerque.

Desculpe se não o tenho visitado regularmente.
Voltarei masi logo para ler tudo e comentar.
Agora vim só dar-lhe um beijinho.

Fernanda disse...

Amigo Carlos,

Só agora percebi que se trata de um conto.
O que li é muito interessante e está narrado como só tu o sabes fazer, nas eu tenho que pegar no fio da meada.

Vamos ver se consigo.
Abraço

Filoxera disse...

O conto continua e eu também continuarei. Se não tão cedo, mais tarde. O ritmo tem sido esmagador. Mas um dia surripiam-se horas ao sono e aproveitam-se para deliciar o pensamento em viagens como a euq este post proporciona.
Obrigada, amigo Carlos.
Gostei muito.
Beijinhos.

Rosa Carioca disse...

Fico ansiando a continuação...

acácia rubra disse...

Fiquei encantada com a descrição da viagem e confesso que estive quase, quase lá...

Vou permanecer atenta ao desenrolar do conto.

Beijo

Carlos Albuquerque disse...

Fernanda
Não se trata de um conto, mas tão só de memórias do Viajante, que resolveu vir aqui falar delas.
Beijos

Carlos Albuquerque disse...

Filoxera
Espero que volte para ler o que o Viajante deixar.
Beijinhos

Carlos Albuquerque disse...

Rosa Carioca
Só um tempinho.
Pode ser?
Abraço

Carlos Albuquerque disse...

Acácia Rubra
Como disse à Fernanda não se trata de um conto.
São memórias de coisas e gentes que o Viajante conheceu no extremo Norte de Angola.
Este quase, quase lá...?!
Abraço

acácia rubra disse...

O quase, quase lá é que consegui, pele descrição, fazer a viagem, sentir os elementos, visualizar, deduzir odores...

Boa escrita, só possível pelo grande papel da memória.

Beijo

Maria João disse...

Carlos

Tão ricas as memórias do Viajante, que, estou certa, dariam para escrever um livro... estarei errada?
Ficou-me do texto,(.. e fica muitas vezes), esta agradável tentação, marcada pelo teimoso gesto dos dedos de virar a página, para continuar a ler o que no verso foi escrito.

Um beijinho

Malu disse...

Pois são estas tuas memórias contadas com riquezas de sentimentos e sensações que reafirmam, sempre, esta tua sensibilidade...
Um olhar que não deixa escapar nada.
Muito bela narrativa.
Um beijinho, meu amigo.

Carlos Albuquerque disse...

Maria João
Tem o dom de ver para além do que o olhar sobre as palavras deixa perceber...!
Depois da incursão pela publicação ("Angola-A Cultura do Medo", 2002, Editora Livros do Brasil), uma outra está pronta: "A Irmã".
Só que o Viajante, que cada vez mais detesta protagonismos,e gosta dos amigos virtuais que cultivou, decidiu apresentar aqui, na minha cubata, alguns dos personagens.
Deu-lhe para isto!
Um beijinho

Carlos Albuquerque disse...

Malu
Obrigado, minha Amiga, pela tua presença, sempre querida e desejada.
O Viajante vai continuar a falar das coisas e gentes que conheceu.
Um beijinho

lusibero disse...

Memórias de uma vida, CARLOS!Linda narrativa, que me parece, ao estilo de VERGÍLIO FERREIRA, auto- biográfica; tudo isso com grande lirismo pelo uso de um grande número de figuras de estilo e de pensamento.
Ficoà espera do resto...
Estás bem de saúde?
BEIJO DE Mª ELISA

Carlos Albuquerque disse...

lusibero
Obrigado, Amiga Professora e Poetisa, por tão gentil e não merecida apreciação do meu escrevinhar.
A saúde vai bem, a "carcaça" não tanto, anda de queixas...!
Beijo daqui

Gizelda disse...

Carlos...

Sei que esse post vai parecer algo inusitado, mas recebi um pps de Saramago e sei que você vai se emocionar ao assisti-lo.

Procurei seu email no perfil, mas como não encontrei, resolvi colocar o meu , aqui, porque se você tiver interesse pode me contactar para eu mandá-lo para você.

Desculpe-me a ousadia, mas não vi outro meio de chegar até você :
gizeldanogueira@terra.com.br

Quanto aos seus textos , são verdadeiras telas de pintura tão bem você descreve tantos cenários impregnados de emoção.São deliciosos.

Beijo.

Carlos Albuquerque disse...

Gizelda
Agradeço a gentileza.
O meu email está no perfil, algo se deve ter passado para não o ter encontrado.
De qualquer modo, já lho enviei.
Aguardo o pps de Saramago.
Beijo

rosa-branca disse...

Olá amigo Carlos, A vida é feita de lembranças, algumas delas não as queriamos ter, pois doem muito. Que bom seria que o mundo fosse diferente. Que a vida tivesse lei para podermos viver sem mágoas. Peço desculpa mas tenho estado um pouco ausente. Gostei das suas recordações. Beijo meu e bom fim de semana

Carlos Albuquerque disse...

rosa-branca
Não há lei que nos liberte das mágoas, como não há vida que nos apague as recordações.
Assim é, assim será!
Não peça desculpa pelas ausências.
Venha sempre que quiser e puder.
Será sempre bem recebida.
Abraço