sábado, 10 de julho de 2010

Memórias

A minha cidade

Aqueles homens altos de músculos desenhados, salpicados por gotículas de mar, que ali estão, são pescadores. Pés bem fincados na areia puxam as redes com o peixe para sustento do dia seguinte. Algum dele haverá de seguir ruas fora, poucas ainda, ao longo de escasso e disperso casario pela cidade acima, em quitandas à cabeça de quitandeiras (deles mães, irmãs, mulheres e filhas) que lhe apregoarão virtudes alimentares e preços baixos. Fá-lo-ão do despertar ao morrer do dia, vezes sem conta, entre a Fortaleza do Morro de São Miguel e a Igreja mais tarde chamada da Conceição.
E, também, ao longo da zona baixa da cidade, a que em 1648 o português Salvador Correia de Sá e Benevides chamou São Paulo da Assunção de Luanda, – uma faixa de casas de um lado, e mar do outro –, que se estendia da base daquele morro até à Ermida da Nazaré.
Tudo assim conhecido, excepção feita à designação de Salvador Correia que só aconteceria mais de cento e setenta anos depois de ter chegado à Ilha das Cabras (assim se chamava a que hoje é Ilha de Luanda) um outro português: Paulo Dias de Novais, descobridor ali mandado por seu Rei D. Sebastião para conquistar o Reino de Angola, corria o ano de 1575.
O que Dias de Novais fez, aportando à Ilha com uma armada de oito barcos (um galeão, duas caravelas e cinco bergantins), e acompanhado de setecentos homens, nem todos soldados, pois entre eles havia sapateiros, alfaiates, pedreiros, cabouqueiros, taipeiros, um barbeiro e um entendido em Física, suspeitando a História que entre estes muitos acabaram por aprender o manejo das armas.
Para que mal de todo se não sentisse em tão intrépida missão, el-rei concedera-lhe, ainda em Lisboa, uma capitania e investira-o no cargo de Governador e Capitão-mor da Conquista do Reino de Angola. Precavendo-se de uma possível escapadela da fé, no contacto com os nativos, e, também, em obediência aos ditames da Corte e da Santa Madre Igreja, o conquistador levou consigo um sem número de sacerdotes, paramentados a preceito e de crucifixo numa mão, espada na outra. Ao que se julga saber, Dias de Novais ficou a residir na Ilha durante um ano, tempo que levou a perceber ser aquela terra rasa, sem montes e baixa, que pouco se alevantava sobre o Atlântico, feita de areia e vazia de água para consumo de homens e animais. Imprópria para nela se edificar a capital de uma conquista. Abandonou a Ilha ao fim daquele tempo, mudando-se com a sua gente e barcos para o continente, mesmo em frente dela. Ali começou Luanda a fazer-se.
Dias de Novais não viu a cidade esticar-se. Não espreitou as garinas de São José de Cluny, não provou a doçaria, os pasteis de bacalhau e o leitão assado da Royal, não petiscou a dobrada com feijão, roeu a ginguba, mastigou os tremoços e bebeu os finos da Bicker nem aqui jogou bilhar, não comeu o Bacalhau à Vilela, nem o Frango na Púcara da Maianga. Não saboreou os cacussos, o pirão, o vinho verde tinto de garrafão/capacete, produzido em Portugal (dito de tal modo por o garrafão ter um chapéu de gesso a envolver-lhe o gargalo), e a Nocal (cerveja feita em Luanda) da Cagalhosa – a cabo-verdiana patroa das meninas de passe do Bairro Operário, sempre atenta aos clientes. Os caluquetas, tal como a muamba, ficaram-se-lhe por provar. Não foi à Versalhes tomar chá com torradas de pão de forma, nem comigo comprar banana seca, tâmaras, nozes, pinhões, avelãs, amêndoas francesas e outras delícias à mercearia fina Paula de Carvalho. Não se deliciou com as cassatas do Baleizão.
Ficou sem ver os rijos tremunos entre a rapaziada do Colégio D. João II e a do Liceu Salvador Correia, que acabavam invariavelmente em cenas de pancadaria, sem que qualquer das partes cantasse vitória, antes apostasse, casmurra, em novos jogos, com galhardetes, pedras e paus a voarem no final, de um lado para o outro, e as miúdas, babadas a aplaudirem, desfazendo e refazendo namoricos, ao sabor das más ou boas prestações dos artistas da bola, os seus heróis! Já não teve tempo para me ver saltar os muros do liceu, fugindo às aulas da Mocidade Portuguesa e refugiar-me nos estúdios do Rádio Clube de Angola, no outro lado da rua ao lado do Cinema Tropical, onde me comecei a deixar seduzir pelo jornalismo, ouvindo e lendo coisas diferentes das que os milicianos das quinas e falanges de fardas com um S no cinto queriam, à força sem o conseguirem, que eu aprendesse.
Não viu negros serem explorados, maltratados, presos e mortos. Como também não viu a PIDE perseguir e prender brancos, e muitos eram, que àquilo se opunham.
Não conheceu o meu Mwata Milagre, nem a Kyanda, nem o meu professor Cardoso, da primária. Nem o meu amigo e colega da Escola 8, o negrinho gordo e brincalhão a que, por alcunha, chamávamos o "Gungunhana". Tão pouco o meu amor.
E as rebitas de Sábado à noite, nos quintais mussequeiros? Também não! Não subiu à Fortaleza e dali ficou a ver o pôr-do-sol como não há igual.
Não deu por Luanda a crescer para lá do Kynaxixe.
Não viu homens e máquinas drenarem a lagoa, secarem-lhe as lamas, derrubarem a mafumeira, erguerem um mercado municipal a um dos lados, e construírem ao centro uma praça colocando-lhe no meio a estátua da heroína popular portuguesa Maria da Fonte.
Também não viu, depois da independência da terra, chegarem ali os revolucionários, que destruíram a Maria da Fonte, varreram os cacos para a rua como lixo, e colocaram no seu lugar um carro de combate! E, não satisfeitos, deixaram que a cidade fosse canibalizada.
Não viu, igualmente, anos mais tarde, os rebeldes já mais amansados, retirarem a máquina de guerra, deixando a substitui-la uma pomba feita de madeira e ferro, a «simbolizar a paz», enfeitada com centenas de pequenas lâmpadas semelhantes às das árvores de Natal, iluminando-lhe o peito, a cabeça e o resto do corpo durante a noite. Nos primeiros dias, que depois os filamentos foram-se fundindo e as luzes apagando, sem que alguém se preocupasse com reparações.
A pomba da paz por lá continuou uns tempos, triste, vendo passar as noites e as tardes cinzentas de Cacimbo, faltando-lhe o brilho para bater as asas. Um dia desfez-se em lascas que tombaram na praça, ali ficando a ser espezinhadas.
Coberta por bruma espessa, a História por lá morreu.

10 comentários:

maria teresa disse...

Fiquei deslumbrada com esta lição de história e de recordações!
Abracinho

Teresa Lobato disse...

Um texto lindíssimo...

Abraço

Rosa Carioca disse...

Luanda! Ao ler seu texto, parece que estou a andar pelas suas ruas, a ver o lindo por do sol da fortaleza, a brincar com as minhas amigas e vizinhas, no Bairro Santa Bárbara (ex-Ganso), a ir para Escola (Ciclo Preparatório Marta do Resgate Salazar)...
Perguntam-me se não quero voltar lá.
Páro para pensar... Não, não quero! Não quero ver que "mataram" a minha Luanda.

Malu disse...

Deu-me por conhecer maravilhas que não conhecia, nesta tua perfeita descrição, como sempre.
Um beijinho,meu amigo

Rogério Pereira disse...

Meu Caro,

Vinha aqui para lhe avinagrar o texto. Não consegui. Ele transpira a verdade. Verdade sentida por quem ama a cidade que eu também amo.
Conheci Angola de farda imposta, em sucessivas deslocações por diferentes regiões militares, entre 1969 e 1971(Maquela do Zommbo, Andulo, Umpulo, Nova Lisboa, Lobito e Luanda). Passados 30 anos, regressei a Luanda e, apesar de tudo, reencontrei a "mesma" cidade. Tão diferente, mas igualzinha: a mesma luz, os mesmos odores, quase os mesmos ruídos nas noites de todos os bairros...

Vou segui-lo e, se não se importa, sempre que me tocar juntarei as minhas memórias às suas...

Um abraço amigo

Marilu disse...

Meu querido recordar é viver...e você o fez divinamente...Beijocas

Si disse...

Viagem sublime por terra fértil em provocar paixões que, surpreendentemente, a memória vai tornando cada vez mais vivas.

Maria João disse...

Penso que já lhe falei do fascínio que tenho por Africa, embora nunca lá tenha estado.Vá lá saber-se porquê?!
Li " O último ano em Luanda" de Tiago Rebelo.

Este texto é maior e melhor que qualquer página de qualquer livro que fale sobre Luanda.

Um beijinho

TERESA SANTOS disse...

E assim o meu Mwata me vai ensinando, me vai transmitindo saberes, sonhos, ditas e desditas de uma terra que muito gostaria de conhecer.
Quem sabe, um dia?...
Abraço, Mwata.

Luis disse...

Amigo Carlos Albuquerque,
Esta cidade é a de minha Mulher. A sua históra aqui tão bem retratada mostrou bem como "ela" foi e tem sido maltratada! Já começa a estar desfigurada e não era necessário que tal acontecesse, pois poderiam ter mantido a parte antiga como histórica e erigir a parte nova em zona que não a desfigurasse! É pena que tal esteja a acontecer!
Um abraço amigo.