sábado, 17 de julho de 2010

Do Viajante


Memórias (2)
(De gentes e coisas, que conheceu no extremo Norte)
- Continuação do post anterior -


Por Zefa trata o padre a mulher do Sul.
Conheceu-a quando lhe encontrou os episódios do ser, o que lhe pareceu serem as feridas da vida. Viu-a como a Virgem Negra, por ela se seduziu. Mas a senhora Josefa é terrena, de mente sã, serena como a coisa pura, mulher de um só homem, o seu Simão, que, mesmo padre, é seu. Com isso o Deus dele não se importará, tem ela por certo. Josefa cedo se deu à reflexão sobre a vida e os seus absurdos, atribuindo ao Destino o seu encontro com Simão, que lhe tocou a alma e a fez caminhar por uma alameda onde as flores dos cajueiros são pássaros de paz. Por isso cruzou a sua com a picada dele, tendo a sua vida começado naquele instante. Fez do padre a sua cubata. E ele dela o seu retiro.
Dela tem ele uma filha, Clara de seu nome, a condizer com a tez próxima da do pai, hoje com dezasseis anos, a viver em casa de uma tia e a estudar no liceu da capital do distrito, lá mais para Norte. A rapariga, uma linda mestiça, ali a provar que o cruzar de sangues gera, quase sempre, obras-primas, está de férias. Viverá com a mãe durante toda esta semana, e com o padre, que sabe ser seu pai.
Ontem, ao fim da tarde, uns negros de passagem encontraram-na deitada no capim, encostada à parte de fora do muro do cemitério ao lado da igreja, com um homem por cima. Gritaram Ué…! Nenhum dos dois se inquietou. Ele, que apesar de ter ocultado, de pronto, a cara num tufo de capim mais alto, um dos mirones jura ser o senhor gerente da Casa Comercial, por estar convencido de que os negros, que para si trabalham, não falarão. Ela, por razão nenhuma em especial, talvez apenas por não estar ainda em idade para inquietudes. Mantiveram-se no que estavam.
Os passantes benzeram-se e, ala que aqueles propósitos em que está a filha do senhor prior não são para os seus olhos, puseram-se a andar.
Andar não foi bem, porque de uma corrida se tratou. Um sair veloz e atabalhoado sobre um carreiro de mandioqueiras a crescer, calcando-as. Ali não crescerão as mandiocas. As mulheres da sanzala não as tirarão da terra, para as descascarem e porem a fermentar num charco de água, até que o cheiro, sentido à distância, avise ser tempo de as levarem a secar ao sol, para depois as moerem fazendo nascer a sempre desejada farinha de fuba, indispensável para o funge que acompanha o pirão de peixe seco com que matam a fome.
Contrariando o que o gerente pensara, nem todos os mirones se quedaram pelo silêncio. Do acontecimento no muro do cemitério correu notícia.
Meia cidade fez cara de escândalo, pelo menos assim pareceu.
A outra metade encapou-se num resguardado semi-silêncio.
Receosa de despertar memórias de outras conjunturas, sabidas do velho padre, e de outra gente, como de Paulo o amigo do padre que um dia destes aqui aparecerá, só falou do caso por alto, em surdina pelas esquinas e pelas mesas dos dois bares e da pensão, e, mais em aberto, acrescentando minúcias apimentadas, maquinadas a cada momento, nas liturgias a horas avançadas dos serões privados.
Numa ou noutra sala de estar, e em varandas a dar para jardins com Lua, duas com sentinela à porta para além de mosquitada e outra bicharia, como é o caso do palacete do Administrador da terra, se fizeram cotejos.
Crente em Deus, tal como no amor e no despertar para a vida, Simão, indulgente, abandonou a melancolia em que ultimamente tem vivido, e absolveu a filha e o gerente. Disse a missa no Domingo seguinte, o primeiro dia das festas da cidade. Como sempre a igreja foi exígua para tanta gente.
(continua...)

8 comentários:

acácia rubra disse...

E a vida acontecia sem mistérios ou com eles todos...

Beijo

Carlos Albuquerque disse...

acácia rubra
Tirou-me as palavras... Era mesmo como diz, e o Viajante continuará a relatar disso a dar conta, rebuscando nas suas memórias.
Beijo

Marilu disse...

Querido amigo Carlos, quero saber a continuação....Tenha um lindo final de semana...Beijocas

Carlos Albuquerque disse...

Marilu
Também quero...!
Esperemos que o Viajante não demore a contar-nos...
Também para sim bom fim-de-semana
Bjs

Rosa Carioca disse...

Sinto um enorme prazer a "ouvir" o Viajante... Espero, ansiosa, a continuação...

maria teresa disse...

Um pedaço de vida descrita com a poesia que emana sempre das suas palavras...

Manuela Freitas disse...

Essas memórias tão ricas, tão cheias de vida e de detalhes da vida, são por mim lidas com imenso prazer. Não só porque escreve bem, como também porque escreve sobre outros ambientes e outras gentes.
Beijinhos,
Manuela

PS. Não está só Carlos, o meu computador também anda com uma «neura» incrível!!!

Maria João disse...

Carlos,

Retalhos de vida debruados de História. Estes, perfumados com as cores e os odores quentes de África.
Foi com arte, pelo particular do detalhe, que o Viajante memorizou a vida na emoção e na comoção de a ter simplesmente ali, capaz de lhe entrar pela alma... e entrou! Hoje vem aqui, convida-nos a sentarmo-nos à sua volta e solta da memória o que lá carinhosamente guardou, anos e anos a fio... a enriquecer-lhe a narrativa. E é arte, a arte da vida, que se respira nestas linhas...

...fico à espera, no movimento do virar a página.
O meu abraço