quinta-feira, 8 de julho de 2010

Memórias

O meu Mwata

No Cacimbo, a água da Lagoa chegava a ser transparente. No Calor, como era o tempo em que para lá íamos, ela ficava turva, do tom da terra vermelha da zona, e, também, mais alta. A Lagoa enchia, prenhe das chuvas grandes do nosso fascínio.
Sempre que aquelas águas caíam e nós, os putos da Escola 8, andávamos por ali à solta, os calções e as camisas juntavam-se às sandálias nas sacolas escolares. Todos nus corríamos de um lado para o outro, caras viradas para cima. Bocas abertas, bebíamos o céu deixando a água fresca tanger-nos as gargantas e voltar a sair, correndo-nos pelo peito, excitando-nos o coração de meninos mais valentes do que os heróis das histórias do Mosquito.
Éramos capitães de um só medo: pisar a água da Lagoa sem antes ouvirmos o Velho. Só ele sabia se a surucucu andava por ali naquele dia, ou não.
E, outras coisas!
O Velho, – o Mwata de nome Milagre –, homem de servir em casa dos meus pais, que pouco servia, mas muita companhia fazia, a mim em especial. Também ele se evadia para a Lagoa, sempre que podia, para falas com os «mininos da Escola». Magro e seco como um abacateiro, igual aos que nas roças crescem esguios até ao Sol, lá abrindo a copa maior que um capacete colonial parecido com o que o meu avô usava, protegendo com a sua sombra os cafeeiros de muitos braços carregados de ouro negro, que faziam a riqueza de uns quantos, e aprofundavam a escravidão e miséria de muitos outros. O Milagre era alto como as mangueiras da Funda agora mirradas, vá-se lá entender isto, e velho como um embondeiro. Tal como este, já nem sabendo a idade ou mesmo se menos velho alguma vez tinha sido. O meu Mwata nascera já assim, de certo: com idade crescida, e sábio, porque ele sabia de tudo. Muito me ensinou, como a ser solidário e a respeitar os mais velhos. Sendo ele bom mestre, e eu razoável aluno, aprendi.
Com o Milagre, ficávamos até a tarde avisar serem horas do regresso a casa. As suas mãos secas de dedos finos e compridos como os dos artistas, esculpiam no ar histórias de encantamentos, que escutávamos seduzidos. De quando em quando interrompia-se, quedando-se em silêncio a fumar um cigarro enrolado com a parte acesa virada para dentro da boca, como fazia a lavadeira da minha casa enquanto esfregava a roupa com o filho dormitando agarrado às costas por um pano envolvendo-lhe o peito.
Às vezes, o Milagre alçava os braços.
Não entendia porque o fazia.
Pareciam-me impulsos do coração do Velho, em busca de mistérios perdidos ou de acontecimentos para anunciar, lá por cima, nas terras de Deus. Olhava-o, a ver se sim, mas permanecia inescrutável. Não resisti. Um dia, perguntei-lhe:
- Porque te chamas Milagre?
Virou-se para mim. Ameigou-me o queixo e o cabelo com as mãos. Levantou-me suavemente a cabeça. Deixou repousar os seus olhos nos meus, e respondeu:
- Porque Deus me fez, e a minha mãe me disse assim!

19 comentários:

Anónimo disse...

De novo a sua terra vermelha que também é (foi)"minha" e o seu Mwata. Também houve alguns mwatas em minha vida: um esculpia verdadeiras obras primas nos "barquinhos" do choco e Maria José, tal como a sua, lavava na selha sob a mandioqueira enquanto o seu cigarrito de diamba (seria?) ardia dentro da boca. Ia lavando ... e ensinando-nos a crescer ...

Deixo-lhe, ainda que sem o encanto da "nossa", uns grãos dessa terra vermelha ...

http://quotidiano-.blogspot.com/2010/01/exilio-cores-e-odores.html

Meus respeitos,

mm

Rosa Carioca disse...

"a fumar um cigarro enrolado com a parte acesa virada para dentro da boca, como fazia a lavadeira da minha casa enquanto esfregava a roupa com o filho dormitando agarrado às costas por um pano envolvendo-lhe o peito."

Exactamente como fazia a "nossa" Ana. Bateu uma saudade... O que será feito dela?

Marilu disse...

Querido amigo Carlos, que resposta mais perfeita, afinal a vida é um verdadeiro Milagre...Lindo texto..Beijocas

Si disse...

Era disto mesmo que eu falava. Era desta escrita envolvente, destas estórias com sabor a compasso de espera entre este mundo e o outro. Aquele onde acontecem milagres de palavras saboreadas.

Maria Ribeiro disse...

Tocantes, as tuas histórias (vividas?), meu amigo querido! Nelas há sempre a lição de moral que norteia as sociedades e que nós já esquecemos...
UM BEIJO, CARLOS
Mª ELISA

acácia rubra disse...

Carlos:

Porque tudo, então, era tão simples, são estórias também elas cheias de aparente simplicidade.

A conclusão / resposta do velho Milagre ( "- Porque Deus me fez, e a minha mãe me disse assim!")
resume a vida aceite sem interrogações, simples porque a queríamos e a viamos desse modo.

O que nos fez mudar?

Beijo

Carlos Albuquerque disse...

Anónimo
Obrigado pelos grãos da nossa terra vermelha. Lá irei ao seu espaço.

Carlos Albuquerque disse...

Rosa Carioca
É mesmo! O que será feito da "sua" Ana?
Do meu Mwata sei que o tenho bem guardado nas minhas memórias.
Abraço

Carlos Albuquerque disse...

Marilu
É, hoje dá mesmo para dizer que a vida é um Milagre. O meu Mwata Milagre era, todo ele, vida.
Beijos

Carlos Albuquerque disse...

Si
Obrigado. Fico feliz em saber que gosta das estórias do Mwata, que tanto têm de mim.
Abraço

Carlos Albuquerque disse...

Maria Ribeiro
Que bom receber-te na minha cubata!
Histórias vividas?
Sim, vividas e vivendo nas minhas memórias.
Um beijo

Carlos Albuquerque disse...

acácia rubra
Vidas simples. Assim as queríamos, assim as viviamos.
O que nos fez mudar?
Não sei se mudei.
Continuo agarrado à vida simples, embora noutro mundo, este nada simples...
Beijo

Sandra disse...

Ola Bom dia!!
Saudades!!!
Me perdoe a minha ausencia..

AMIZADE

Não se poderia conceber a amizade se ela não fosse presidida pelo ternário simpatia-confiança-respeito, indispensável para nutrir o sentir que a constitui.

É pelo signo da amizade que se unem os homens, os povos e as raças, e é sob seus auspícios que há de haver paz na Terra.
Da Sabedoria Logosófica.
Carinhosamente,
Sandra

Carlos Albuquerque disse...

Sandra
Não há que perdoar ausências!
É sempre bem-vinda, quando puder e quiser.
Abraço

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Olá caro Carlos
Tenho andado ausente, porque estive de férias e depois a trabalhar no duro fora de Lisboa.
Regressei hoje e a partir de terça ou quarta feira espero voltar às visitas regulares.
Espero que esteja melhor.
Bom fds e um grande abraço

AFRICA EM POESIA disse...

lindo passar por aqui e sentir o "conto".
obrigada pelo momento
um beijo

Virgínia do Carmo disse...

Suponho que a sabedoria também é esta terna brisa de memórias que nos fazem crescer...

Muito bonito...

Um abraço

Maria João disse...

Haverá, nas memórias de muitos de nós, alguém mais velho, cuja sageza nos iluminou os olhos e a alma de meninos. Hoje, olhando para trás, ( porque chegou o tempo de ler todas as páginas já escritas), percebemos o quanto essa pessoa foi importante para a formação do nosso caracter e o quanto a aconchegamos, dentro de nós.

É comovente a ternura com que escreve sobre esse Homem imenso, de nome Milagre, que Deus fez e a mãe lhe disse assim!

Um beijinho

Luis disse...

Amigo Carlos Albuquerque,
Também por lá andei mas mais velho. As minhas filhas não tiveram um "Mwata" mas tiveram um "Sabonete" que tudo fazia para que as "mininas" andassem felizes! Também nunca o vou poder esquecer!!! Aquela terra vermelha está sempre na minha lembrança tal como cheiro quente da terra depois de uma chuvada!!!
Um abraço amigo e espero que se sinta melhor de saúde.