quinta-feira, 1 de julho de 2010

Dores

Aos visitantes da minha cubata, aos amigos.

Tal como um artesão que com afã desbasta a madeira para lhe dar forma, e dali fazer obra que se veja, tenho passado os dias (e parte das noites) a tentar civilizar as dores, a ver se acabo com o constante desentendimento, mesmo rivalidade, entre mim e elas.
As dores, incómodas, inoportunas, inibidoras, quais jagodes, persistem na batalha. Desviando-me da conservadora e tradicional prescrição médica, tenho procurado as minhas picadas, por elas andando, ensinando o corpo a fugir das tendinites teimosas e a evitar a chamada à liça de músculos pouco dispostos a esforços, ou dominados por fibroses resultantes das quinze cirurgias já feitas.
Descobri que uma posição estudada, embora fugindo à normal postura do esqueleto (a que médicos torcem o nariz), resulta, quase sempre, mais eficaz que um medicamento a droga manipulada com o objectivo de curar, mas que a mais das vezes se fica pela intenção. O meu objectivo tem sido o de evitar o conflito das articulações, quer da anca esquerda que já vai na quinta prótese, como do joelho do mesmo lado que, desgraçado, se vê em papos de aranha para responder ao esforço suplementar que lhe é exigido. Desta aprendizagem não resultou obra perfeita, mas já colhi alguns frutos. Entro e saio do automóvel, conduzindo-o com todo o à vontade. O segredo está em não torcer o corpo, mas em rodá-lo como estando sobre esferas oleadas. Sentado, as dores ausentam-se, só surgindo de pé, ao tentar o passo sem as canadianas, ou após duas ou três horas de estar deitado, acordando-me, claro! Qualquer distracção no manejar suave e atento do corpo e pronto, lá vêm as dores aos gritos! Apesar das dores por vezes serem de tamanho a que é difícil deitar a mão, continuarei pelas minhas picadas até que numa próxima ida ao cirurgião este possa descobrir novos caminhos.
Longe vai o tempo de me encolerizar, e ainda bem. Se assim não fosse passava a vida numa irritação permanente por, não sofrendo de qualquer doença, padecer de uma “falha mecânica” que me tolhe.
Para além de tudo o que são, as dores têm, ainda, a imaginação como coisa malquista. O pensar esgota-se-me na procura de as amainar. Esta tem sido a razão da minha ausência. Agora, um pouco mais senhor da situação (aprendo a viver com a dor) está a regressar o tempo de voltar ao vosso convívio, que muito prazer me dá.
Desculpem o arrazoado.
Um obrigado a todos os que se manifestaram preocupados.


16 comentários:

Dulce disse...

Carlos
Admiro sua coragem, meu amigo e a forma como lida com suas dores. Uma lição para muitos, acredite.
E que bom que o temos novamente em sua cubata!...Que bom!...
Beijos

TERESA SANTOS disse...

Querido Mwata,
Não sabia que estavas nessa luta, por vezes uma luta tão desigual. Acredita que sei bem do que falas! Conheço o "jogo" que temos que fazer para apaziguar as malvadas, tentar enganá-las, tentar viver com elas. Hoje mais um comprimido, amanhã menos um esforço, depois...? Depois ver-se-á!
Bem-vindo às nossas cubatas e, apenas um voto sincero: força querido Mwata. Era só o que faltava, que umas dores miseráveis derrubassem o nosso Amigo!
Abraço grande.

Maria João disse...

Meu amigo

Algo me dizia, o que agora confirmo...

A dor, é uma entidade tão misteriosamente poderosa, que só quem já com ela conviveu, em momentos e intensidades diferentes, consegue saber exactamente o quanto elas nos esgotam e incapacitam. O segredo, para além da droga que muitas vezes apenas a atenua, é fintá-la com os tais jeitos e truques especiais, por forma a conseguir o tão desejado alívio... mesmo que os médicos torçam o nariz (porque isto da dor, cada um é que sabe o que melhor a alivia).
Fico muito contente por sabê-lo novamente com ânimo para voltar. Sinal de que elas, as ditas, não levam a melhor, perante tão grande guerreiro!

Sinceras melhoras
Um beijinho

MEUS PENSAMENTOS disse...

não esta sendo facil...eu imagino,mais espero confiante em DEUS o seu retoorno ao nosso convivio,saudades,marcinha.

maria teresa disse...

Um abraço ao "meu" guerreiro, àquele que sabe lutar em desigualdade de circunstâncias, o inimigo é forte mas a coragem do Mwata, supera e vai continuar a superar, a força do adversário.

Brown Eyes disse...

Carlos espero que consigas vencer as dores. Imagino o quanto dificil têm sido para ti estes dias. Beijinhos

Agulheta disse...

Querido amigo!As minhas desculpas por andar pouco por aqui,mas estou de férias,hora num filho hora no outro,venho ver os comentários e tento responder,a NET,é tãolenta por aqui que mal consigo fazer alguma coisa,hoje está melhor um pouco,mas temos de fazer barulho com os servidores,sabem pedir o dinheiro e dizerem que "dão isto e aquilo mas é treta somente.O meu amigo é um guerreiro lutador,todo esse sofrimento não é para qualquer um,mas a vida e as coisas nos vão ensinado a viver.Desejo de coração que tudo corra bem,com amizade.Beijinho

Marilu disse...

Querido amigo Carlos, vi você no blog da Lisibero e vim conhecer teu espaço...encantador...Entendo tuas dores pois tenho Fibromialgia, e são aquelas dores que ninguem acredita que possa doer o corpo todo, tem vezes que quero ficar deitada e nunca mais ter que me mover. FRemédios não fazem efeito, faço acunpuntura, mas é tudo paleativo...enfim...temos que tentar levar a vida. Espero que você melhore...tenha um lindo final de semana..Beijocas Tomei a liberdade de seguir seu blog....(se tiver um tempinho de uma passadinha no Devaneios)

Luis disse...

Amigo Carlos Albuquerque,
Pelo arrazoado que nos trouxe calculo como mal se sente quando as dores apertam... E os medicamentos que nos dão para as evitar fazem mal ao estomago e de que maneira!
Espero que consiga, com com o seu jeito, dominar essas malvadas e que o médico lhe resolva essa situação!
Desejo-lhe as suas melhoras e um bom Domingo.

acácia rubra disse...

Sei o que isso é!

Estive em estado de "desgraça" três anos sem poder exercer a minha actividade e quase me poder mexer pois as dores esqueléticas desenvolveram as de postura e as musculares. Foi terrível. Fui operada mas como o Carlos aprendi a confraternizar com elas. Hoje tenho-as mas, perante outras mais graves de conhecidos e amigos, dou-me por feliz por ter as minhas e não as dos outros.

Beijo solidário e com votos de recuperação breve

Si disse...

Continuo à espera de poder ler aqui mais estórias do Mwata e do Viajante, que me levem à África que não conheço e que tanto me fascina.
Força, Carlos, espero que ganhe rapidamente essa luta desigual.

Rosa Carioca disse...

Nem consigo imaginar pelo que passa. Fez-me lembrar de minha mãe que também sentia imensas dores quando se levantava ou quando fazia algum movimento repentino. Dizia ela: "Elas acompanham-me sempre, já estou acostumada."
Quanta força, quanta coragem...
Que as suas o abandonem de vez.

Manuela Freitas disse...

Olá Carlos,
Pelo que escreveste a situação não é nada fácil, vale a tua coragem e determinação em lutares contra essas dores que te querem aniquilar.
Desejo as tuas melhoras e que depressa encontres solução para esses problemas.
Um grande abraço,
Manuela

Ignoto Jardim disse...

Que interessante a sua crônica! observando apenas do ponto de vista literário, veja como às vezes, o asunto pode nao ser tão atrativo, mas o modo de dizer sim! Vc pegou um assunto até banal, as dores físicas que nos acometem, e transformou em algo quase poético. Gostei muito, e posso até ousar dizer: em tudo, há poesia, até nas dores físicas.Vc agora ficou, aos meus olhos virtuais, tão mais humano, mais gente, não apenas um nick ou um blog, um blog a mais, nesse universo de blogs da internet.
Tb tenho meus problemas físicos, mas consigo (ainda) abstrair, e nao penso neles.Só me lembro que carrego esses problemas quando tenho que retornar ao médico.
Em todo caso, faço votos que vc melhore logo, e escreva sempre, nesse seu estilo interessante! Eu nao sabia o que era "cubata" fui ao dicionário e aprendi!
Um grande abraço.

rosa dourada/ondina azul disse...

Muita coragem para suportar todos esses momentos!

Um abraço com muita amizade,

MARIINHA disse...

Pensava que o Carlos depois da operação tivesse ficado com menos dores. Deve ser complicado, mas o ser humano acaba por se adaptar a tudo. Até a viver com dores. Mas não há medicamentos para as atenuar? As melhoras.