segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Do Mwata (Saudade)


Saudade
No andar das minhas saudades abre-se uma clareira, um espaço sem caminho, uma terra a que faltam chão e céu, em que ar não há, para onde uma se escapa e se perde. É a saudade do que nunca verei, das palavras que ficarão por dizer, do sono que não terei, do sonho que não virá. Da tristeza, sempre saudosa dos instantes felizes.
É a saudade das flores que nascerão, sem que as veja, dos rebentos brotados, da dor que me não magoará. Do olhar reluzente em que deixarei de mergulhar. Das carícias de mãos de veludo. Dos murmúrios e sussurros, que ficarão por escutar. Da vidraça da janela do meu olhar. Do colo do meu descanso e aconchego. Da Lua e das estrelas, espreitando noites de amor sob as casuarinas sopradas pela brisa nascente nas águas da Kyanda.
É a saudade de outras saudades, inquietas e agitadas, mas também de meiga e profunda ternura. É a saudade do mar e rios porque nadei na minha infância, do mundo que mudará sem que o veja. Duma véspera que chegará sem amanhã. Da embriaguês com os odores da terra vermelha beijada pelo choro das nuvens. Das tempestades vencidas.
É a saudade da escola, da fisga de caçador furtivo, das correrias por aventuras loucas, do gesto destemido, na guerra, do tremor do medo a segurar a paz, do assobio reunindo amigos, da ximbica aprendida. Da rebeldia. Do grito da Liberdade. Do encontro com a consciência. Das fogueiras crepitantes, dos merengues nas rebitas mussequeiras. Das denguices requebradas das meninas do baile, do calor enleante das esteiras. Das sementes encantadas de tamarindo, do beijo da pitanga. Da ardência dos caluquetas. Do país que estive quase a ter.
É a saudade de ausências e presenças, do meu outro eu, companheiro de muitas andanças. Do relinchar dos cavalos à solta do meu espírito. Do choro sozinho da solidão.
É a saudade do barro que um dia amassei, moldando o amor com que vivo, no arco-íris da minha tribo.
É a saudade desta saudade fugitiva, que, num dongo sem leme, me leva para anoiteceres e alvoreceres desconhecidos.
(Reedição de um texto de 2009)

Saudade

Saudade – O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...
 (Pablo Neruda, in "Crepusculário" - Tradução de Rui Lage)

8 comentários:

Rogério Pereira disse...

Nem li Neruda...
e tranquiliza-me o facto de ser reedição
Não sei como cabe
saudade assim, e tanta,
em teu coração...

Nem sei o que te dizer...
A não ser,
que temos a mesma Pátria. Bela.
E ambos temos saudades dela...

acácia rubra disse...

Carlos

Tu sabes, como eu, onde fomos buscar esta saudade que nos revela quando abrimos o livro nas primeiras páginas e ficamos a soletrar, por mero prazer, aquilo que sabemos tão cimentado nas mais pequenas palavras, quando delas absorvemos significados e significantes...

"É a saudade de outras saudades, inquietas e agitadas" que nos levam, de mansinho, por rios onde nos deixamos boiar conscientes. Um dia, seja ele de sol ou de chuva, ouçamos ou não a vida a correr ao nosso lado,haveremos de ver o mar. E, como caravelas de velas presas, navegaremos sem saudade.

Julgo saber o que estás a pensar - quanta melancolia!
Bebi o teu texto como se bebe um vinho raro... com devoção.Porque escreveste o que eu gostaria de escrever e não o sei fazer.

Obrigada por escreveres desta maneira que me emociona.

Carinhosamente, um beijo

São disse...

Ai, Carlos, que estou sem saber o que escrever...só lhe consigo dizer que gostei imenso!

Um abraço enorme.

Fê-blue bird disse...

Meu amigo, como encontrar as palavras certas para definir a sensação que me ficou depois de ler o seu maravilhoso texto.
E depois para alvoraçar mais o pobre coração de alguém que tenta escrever poesia, um poema onde mergulhei em êxtase.
Estou literalmente de boa aberta e coração apertado.

beijinhos comovidos

folha seca disse...

Caro Carlos Albuquerque
A saudade em geral prende-se com o passado. Podemos em muitos casos "matar" essas saudades. Há saudades que são só isso, em geral acompanhadas de grandes tristezas. Mas as "saudades do futuro" aquelas a que podemos chamar de sonhos estão a ser destruídas e isso encerra uma tristeza imensa. Mas não, não podemos deixar roubar esses sonhos, essas utopias.Não me pergunte como. Não sei a resposta, mas ela há de aparecer.
Grande abraço
Rodrigo

Tenho lá uma canção com este título.

Filoxera disse...

Que lindo, este post de saudade, oom o sabor doce da liberdade.
Já tinha SAUDADES de ler textos destes...
Beijinhos.

Maria João disse...

E saudade é tudo isso, que faz nascem nos lábios as palavras, no agora que temos. Saudade é um tempo, passado e futuro que ainda sabemos dizer, enquanto as palavras não nos deixarem.
E este é um texto para ler e reler, não só porque fala em saudade, mas porque nos aconchega a alma.

Obrigada!

Um abraço amigo

Reflexo d'Alma disse...

Saudade...
estive vendo a foto que tem no perfil e lembrei:nos ja nos lemos e depois nos perdermos.
Mas sempre é tempo de
trasformae
saudade em
renovo.
Bjins entre sonhos e delírios