sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Numa sexta-feira

Pouco mais que um ponto era, a um palmo da fronteira, aquele pedaço nos confins Norte da terra e das gentes por ele amadas. Dum lado e doutro a guerra para onde fora mandado, corpo fardado, alma despida e desarmada, espírito à solta. As armas incendiavam as noites e ardiam os amanheceres. Sangrava-lhe o coração sempre que sabia de vidas perdidas do lado de lá. No seu não havia baixas.
Naquela sexta-feira a noite chegou apressada, de um tom amordaçado no silêncio. Olhou para o céu, a ver o que lá se dizia. Nada nele tendo encontrado trouxe o olhar de volta. Quis dizer algo, sem saber que palavras tinha para o fazer. Sentiu-se algemado.
Adormeceu.
De manhã o céu continuava lá em cima, vagamente recortado por farrapos de nuvens de branco esmaecido, baço, como baço tudo era à volta. O sol teimava em não se mostrar.
Olhou em redor e viu serem maiores os muros da cela estreita em que vivia.
Levantou-se.
Percorreu-o a dor das mãos sangrando pelo esforço de tentar libertar-se das algemas.

7 comentários:

São disse...

Arrepiante.

Fez-me lembrar os campos de concentração....

Um abraço, Carlos

folha seca disse...

Caro Carlos Albuquerque
Li e reli esta estória, não conseguindo concluir se trata de ficção ou realidade.
Sabe? Quando leio algo sobre alguem que passou por carceres em qualquer parte do mundo, fico emocionado até às lágrimas porque recordo o meu Avô e as estórias de 14 anos de prisão em Peniche, Caxias e Angra do Heroísmo.
Abraço
Rodrigo

Rogério Pereira disse...

"Dum lado e doutro a guerra para onde fora mandado, corpo fardado, alma despida e desarmada, espírito à solta. As armas incendiavam as noites e ardiam os amanheceres. Sangrava-lhe o coração sempre que sabia de vidas perdidas do lado de lá. No seu não havia baixas."

Pois meu amigo, acho que isto (todo o texto e esta parte) é prova provada de que Sua Alma também não foi fardada...

Abraço

Fê-blue bird disse...

Meu amigo, estou completamente de acordo com o nosso amigo comum Rogério.
E também não sei se é ficção ou realidade tal a intensidade e emoção deste seu texto.

beijinhos e bom fim de semana

Carlos Albuquerque disse...

Rodrigo (Folha seca) e Fê
Não se trata de ficção.
É, tão só, o recordar de uma guerra por onde andei forçado, às avessas e de passo trocado. Um recordar com palavras de agora que, na altura, se me não chegaram.

Anónimo disse...

Carlos

As palavras chegaram-te agora. E de que modo. Vistas por fora mas muito sentidas por dentro.

Beijo

Laura

Evanir disse...

Carlos li emocionada sua postagem
onde você fala das amizades virtuais .
Eu meu amigo querido poço afirmar que são essas amizades que a 6 anos me ajudam viver.
E onde encontro carinho e consigo por algumas horas amenizar os problemas sérios de saúde que a bastante tempo assola os meus dias.
São muitas amizades de uma fidelidade incrivel faz com que meus dias sejam melhores e mais bonito.
Quando alguém deixa de visitar meu blog por algum tempo vou logo tentar saber se esse amigo (a) esta tudo bem.
Sua postagem realmente é muito especial .
E sua amizade muita mais especial ainda.
Um abraço meu eterno carinho.
Evanir