terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A Vespa e os Catuítis

Peitos-Celeste, é como se chamam os passaritos que ali estão. Em umbundo, a língua banta falada pelos ovimbundos, povos do Centro e Centro-Sul de Angola, e ainda na Namíbia, também dão pelo nome de catuítis. São abundantes em Angola. Na Ilha de Luanda, por exemplo, habitavam (agora já lá não moram…) as casuarinas nelas nidificando aos milhares. Fazem de qualquer poça uma piscina, adoram o banho. São tidos como jóias da ornitologia angolana. O macho é cantor de trinado bonito. A fêmea esforça-se, mas não passa de um chilreio piado. Deixa-se domesticar facilmente e reproduz-se em cativeiro. Tive-os às dezenas num grande viveiro no quintal da minha casa em Luanda, coabitando com outras espécies, especialmente com os bicos-de-lacre, a que no linguajar kaluanda chamávamos Januários.
Trago-os aqui para vos deixar esta lenda umbundo:
Marimbondo
 A Vespa (em quimbundo, língua mais falada em Luanda, diz-se marimbondo) tinha o filho doente. Foi ao Onganda (curandeiro). Depois das dissaquelas (mezinhas) feitas disse o Onganda à Vespa:
- Vai pedir uma pena ao Peito-Celeste e tapa com ela o teu filho.
A Vespa assim fez e o filho curou-se.
Tempos depois adoeceu o filho do Peito-Celeste. A mãe Peito-Celeste consultou o mesmo Onganda, que receitou:
- Pede uma asa à Vespa e cobre o teu filho com ela.
A mãe Peito-Celeste seguiu o conselho, mas a Vespa disse-lhe que só tinha duas asas e que se lhe desse uma não poderia voar e morreria.
Desanimada a mãe Peito-Celeste regressou ao ninho.
A Vespa e o filho ficaram tristes por não poderem ceder uma asa ao catuíti. Puseram-se a pensar e decidiram compensar o passarito. A partir daquele dia, e ainda hoje assim é, as vespas passaram a fazer o seu ninho por baixo ou perto do ninho do Peito-Celeste para protegerem o pássaro e os filhos.
(Amigos, solidários e fraternos como os seres da espécie humana...)
Januários
                                                    

8 comentários:

folha seca disse...

Caro Carlos Albuquerque
Felizes aqueles que tiveram oportunidade e ainda têm, mesmo que só nas memórias que lhe habitam os pensamentos de apreciar e perceber o comportamento no mundo animal (no outro).
Sinto que no comportamento dos outros animais (os humanos) houve uma degradação de "sentimentos" soprado pelo mundo consumista em que caímos. Cada um por si. Palavras como solidariedade e fraternidade, perderam o real significado.
Foi bom recordar.
Abraço
Rodrigo

acácia rubra disse...

Gostei de conhecer esta lenda umbundo.

Sabes,em S. Tomé tinha no jardim uma gaiola em forma de casa com janelas de vidro em que a minha mãe colocara umas cortinas de plástico. Estava dividida em secções. Tínhamos peitos celestes, bicos de lacre, viúvas negras, piriquitos...

Quando os meus pais vieram de férias e eu estava cá já com 9 anos, trouxeram três gaiolões com pássaros das diferentes espécies. Alguns nidificaram cá. Outros regressaram connosco. No dia da minha 1ª comunhão, os rapazes a jogarem à bola acertaram com esta numa gaiola que caiu de uma altura ainda considerável. Morreram uma série de pássaros e eu chorei que me fartei. Só não lhes bati porque os rapazes era muitos e eu estava com o vestido ainda.

Quanto à lenda, sabes que enquanto nós não aprendermos a olhar para Natureza e dela tirarmos os ensinamentos devidos, não chegaremos lá. Os amigos contam-se por os dedos de uma mão a que já faltam alguns; a solidariedade é inexistente ou quando se vê é para ser notícia na televisão e a fraternidade perdeu o significado etimológico.

O Homem está cada vez com um umbigo maior. Essa será a doença dos próximos anos. Terá cura? Quero acreditar que sim, mas sei que ainda hei-de passar por muita e muita gente e pensar 'este umbigo é maior do que aquele'.

Fico por aqui...

Beijo

TERESA SANTOS disse...

Meu Mwata,

Como sempre, linda a tua lenda, lindos os peito-celeste, lindos os bicos-de-lacre, ou melhor, os Januários.

Sabes que um dos meus sonhos - que nunca irei realizar por falta de espaço - foi ter um viveiro?

Adoro aves, todas!

Este texto?
E o "material" que tenho para enriquecer o meu caderninho?!

Abraço muito grande, meu Mwata.

BRANCAMAR disse...

Muito linda esta lenda e quanto à conclusão já tenho dito e repito que o Homem perdeu a identidade à medida que se foi afastando da natureza.

Esta é uma fantástica lição para todos nós.

Beijos
Branca

acácia rubra disse...

Carlos

Está tudo bem contigo?

Carinhosamente, um beijo

Filoxera disse...

Que engraçada, a lenda...

E estas aves são lindas!

Beijinhos.

Fê-blue bird disse...

Meu AMIGO:
Tanta riqueza e sabedoria nesta lenda umbundo.
Os Peitos-Celestes são lindos, e fazem-me lembrar os passarinhos azuis de que tanto gosto :)
O amigo deve ter tantas histórias, tantas recordações.

beijinhos

Maria João disse...

Eu diria Carlos...

Há na natureza, inúmeros seres que são amigos, bem mais solidários e fraternos que os seres da espécie humana...

Obrigada!
Um abraço caloroso, nesta manhã fria.