sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Do Viajante

Hora vulgar (II)
Deixa os ninhos dos bicos-de-lacre na amoreira do quintal, deitando, lá de cima, a sombra protectora sobre a pitangueira medrando arrimada ao muro. Leva os passos para a fita de alcatrão, o seu caminho de ir e voltar, a rua que, suavemente, passem os buracos das últimas chuvadas, um aqui outro além cobertos por lama crestada, vai ao encontro da esquina ao fundo. Dobra a acácia, deixando-lhe um passar de mão que, sabe ele, ela recebe como cumprimento. Por um carreiro de areia faz agora seguir o seu andar, até ao largo de terra batida. Hoje, porque é cacimbo, anda a chuva por outras bandas, a crosta do largo está solta, levantada em poeira pelo vento que sopra e lhe faz mover repetidas vezes as pestanas, parecendo persianas em correria.
Pouco lhe importa. Vai ao encontro do tamarindeiro, ali erguido, conhecido desde o tempo em que a vida ainda não tinha dado tantas voltas por ele, tantas, mas poucas. Sempre o encontra, como se a árvore estivesse a aguardar, sabe lá o quê. Não é a primeira vez que se pergunta: de que estará ela à espera?
Não sabe ele, mas sei eu, que daqui o acompanho, há mais de uma hora, desde que saiu de casa, onde deixou, para além do que já se disse, ainda uma papaieira à esquerda da entrada do portão ladeado pela buganvília vermelha, um pé de caxinde no canteiro das escadas da varanda, e outras formosas criações da flora do seu jardim.
Disse que sei. Não faltei à verdade. O tamarindeiro espera que ele se lhe encoste e ali fique. Deixemos os dois.
O encontro está hoje a ser diferente. Senta-se. Dá as costas ao peito da árvore. Sucede o que nunca antes acontecera – escuta o gemer da seiva do tamarindeiro, correndo por ele acima, na tarefa urgente de dar verde às folhas, de tornar mucefes os tamarindos já crescidos. Ao som da corrente do sangue da árvore, vai ele pensando que os amigos com quem ontem falou têm razão. Esta terra vai ser de gentes livres, todas as gentes, incluindo as dos musseques. Vai nascer um homem novo trazido pela bandeira da Liberdade. Vai ser assim!
Mas não foi!
Muitos cacimbos depois soube ele, estando já em paragens distantes, que, afinal, o tal homem novo ficara por chegar. No país que seria o da Liberdade tudo era velho, a alvorada fizera-se noite, só havia solidão, desistência e predadores. Uns passaram a alimentar-se de outros. A História voltara a fingir. Sofreu, então, a grande desilusão da sua vida.

(Esta a história que ele escreveu para a hora vulgar que o fez despertar, como prometido ficou num dos posts anteriores)

3 comentários:

Si disse...

Amargo de boca este que ficou no paladar de tantos que viam este brilho no futuro da terra que os viu nascer...

acácia rubra disse...

As cores vivas desta descrição em que o pormenor é dado com toda a precisão contrastam com a desilusão de quem com a terra da Liberdade sonhou.

Sonhos que se foram, mas que alimentam o presente da memória.

Beijo

Rogério Pereira disse...

"Vai nascer um homem novo trazido pela bandeira da Liberdade. Vai ser assim!
Mas não foi!"
Ainda não foi...
A História nunca mente
nem se desvia...
apenas se adia!

Assim,
Pode regressar a essa ilusão
exactamente ao mesmo ponto que estava, quando se desiludiu...

Abraço