terça-feira, 17 de agosto de 2010

Do Viajante


Hora de medos

É tempo de silêncio sem fundo, hora de medos.
Fugindo de olhares, a Lua tapa-se. As rãs calam o seu coaxar. Não se escuta o pio do noitibó. Está por se ouvir o refilar da noite. Do capim alto esvoaçam os pirilampos, rendilhando o espaço com luzes faiscantes.
As águas barrentas da lagoa encostam-se ao capim das margens procurando o manto perdido, a capa prateada que não desceu. Reina o mutismo entre as árvores de galhos por hábito faladores. Nem o vento se lhes chega para fazer rir as folhas.
Ele está ali, no escuro sem sombra, só no meio do silêncio, sentado numa raiz da mafumeira, rompida da terra para se ir banhar na cacimba. Sabe que, logo mais, será manhã, mas tal não o preocupa. O que o inquieta é esta hora de medos.

12 comentários:

Rogério Pereira disse...

Não sei quem lhe disse, quem lhe mentiu ou se foi de dentro de si que apareceu esse errado sentimento de inquientação. Não é tempo de silêncio sem fundo, nem hora de medos. É, isso sim, chegada a altura de responder à chamada pois as gaivotas já pousaram em terra e eu não tenho, só por mim, força bastante para percorrer todos os caminhos (e em terra vermelha á a savana a mais dura de atravessar).

(não sei amigo, se essa falsa hora, o afastou da homilia necessária...)

Marilu disse...

Querido amigo, os medos convivem conosco desde que nascemos, e alguns deles carregamos pela vida toda...Beijocas

acácia rubra disse...

Simplesmente inquietante.

Esta muito mais.

Beijo

Catsone disse...

Com essa descrição, tb eu fiquei com medo(s)...


Abraço.

Sylvia Rosa disse...

Chegou em boa hora e te aceito e fico muito feliz pela visita e comentario. Cá estou sem medo algum, abandonei-os todos numa estação de trem dentro de uma mala secreta, faça o mesmo, caso seja este seu momento.
Bj em tua alma.

Filoxera disse...

Mas ele sabe que é chegada a hora de encarar de frente essa inquietação.
Sabe que se encher o peito de ar e se erguer, comecará a enfrentar os seus medos.
Num esforço racional, mais forte que qualquer anteriormente empreendido, ele mentaliza-se de que assustará as sombras. E, assim, premiado pela sua coragem, dará os primeiros passos na chana selvagem.

Beijinhos.

maria teresa disse...

Todos nós temos medo, não seríamos humanos sensíveis se nunca o tivessemos sentido... mas nessa "hora do medo" sabemo-lo enfrentrar, numa luta por vezes desigual...mas vencemos! Depois da vitória, esperamos sem angústia pela nova hora do medo...
Abracinho

quicas disse...

Há silêncios e silêncios! E... nem todos são "hora de medos": quantos são, podem ser, horas de libertação de todos os medos!...
Um abraço, neste meu regresso, grato por suas simpáticas "boas vindas".

TERESA SANTOS disse...

Hora de medos ou hora de mistérios?
Essa não é a hora da cumplicidade Homem vs Natureza? Então, porquê os medos?...
Abraço, Mwata.

Ignoto Jardim disse...

Antigamente eu também sentia muito medo. A minha hora do medo era de madrugada, quando a cidade dormia, e só eu acordava, e me sentia estranhamente só. Ouvia as outra pessoa da casa respirando, tranquilas, e isso aumentava a minha solidão. Agora o medo passou, ou parece que anda escondido.Acho melhor assim!
Abração, Carlos!

Daniel Silva (Lobinho) disse...

"Ele está ali, no escuro sem sombra, só no meio do silêncio, sentado numa raiz da mafumeira, rompida da terra para se ir banhar na cacimba. Sabe que, logo mais, será manhã, mas tal não o preocupa. O que o inquieta é esta hora de medos."


Gostei tanto. Há poesia na fragilidade do ser, na vulnerabilidade da alma. Somos todos tao frágeis...

UM grande abraço

TERESA SANTOS disse...

Mwata, se me permites deixo uma palavra ao Lobinho.

"Somos todos tão frágeis..." mas, simultaneamente tão fortes, tão corajosos!