quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Gente pequena

Portugal transformou-se num país de gente pequena, proclamando-se sabedora. Gente que sabe de tudo. Gente apregoando muito saber, mas que, falando, é nada o que se lhe ouve. Que gente é essa, afinal? Ela responde: especialista!
São os médicos das companhias de seguros, quais capatazes de latifúndios, a cujas mãos vão parar sinistrados. A primeira coisa que fazem, antes mesmo de olharem para qualquer exame rotineiro a garantir diagnóstico, é afirmarem que a culpa, a responsabilidade portanto, não é da seguradora, mas do acidentado que não soube evitar o acidente. Doutores da mula ruça!
Sãos os jornalistas de trazer por casa, encostados a economistas de vão de escada e a juristas e analistas último modelo, topo de gama, válvulas à cabeça, falando, falando, dizendo zero, só nos azucrinando o juízo, feitos profetas da desgraça!
São os que se apresentam sabendo mais de combate aos incêndios do que quem anda de peito aberto, dando vida por vida, numa luta sem tréguas, abnegada, para os suster. Os bombeiros não há meio de chegarem, afirmam, os meios não vieram, continuam, mas não curam de evitar o lixo à volta das casas, nem de limpar o pedaço de mata que lhes pertence. E, logo mais, atirarão uma beata incandescente pela janela do automóvel e ajudarão a lançar foguetes de um qualquer arraial.
Sãos os que perante o infortúnio alheio encolhem os ombros, olham para o lado e assobiam, indiferentes à dôr que, por ora, lhes não toca.
Sãos os juízes que, a propósito de tudo e de nada, lançam a Justiça para uma mesa de ping-pong. Ora apanha lá esta puxada, se és capaz! E o Sindicato dos Magistrados, gente fina, que luta sabe-se lá porque direitos. Contra quem? Os magistrados. Contra quem? Os juízes. Contra quem? A Justiça!
Sãos os políticos, com algumas excepções, que dizem que a culpa é sempre dos outros, nunca deles. Falam de tudo, até de futebol, com assento garantido em mesas de comentadores, a troco de um cheque que lhes engorda a conta bancária. Sobre o que nos interessaria ouvir fazem silêncio!
São, são muitos mais. Enxameiam as rádios, jornais e televisões, roubando-nos o ar para respirar. Tornam o meu país cada vez mais pequeno.

14 comentários:

Marilu disse...

Meu querido amigo, muda apenas o País, mas os problemas são os mesmos, aqui no Brasil, pessoas morrem nas filas dos hospitais, sem sequer um Dr. olhar para ela, como se a vida nada mais importasse hoje. Justiça a ser cumprida, aqui ela só vale para os pobres os ricos compram os magistrados, enfim esse é o mundo em que vivemos...Beijocas

acácia rubra disse...

Subscrevo.

Beijo

TERESA SANTOS disse...

Querido Mata,
Especialista? Especialista e não só!
No que toca a responsáveis, seja qual for a sua área de competência, transformámo-nos num país sem alma, sem dignidade, sem respeito, onde vale tudo.
Resta-nos a consolação de ver que entre gente a "sério", aquela do povinho, o tal que aguenta tudo com uma coragem e dignidade notáveis, quando toca a ajudar o próximo ainda diz "presente".
Veja-se, a título de exemplo, a solidariedade entre vizinhos aquando dos fogos.
Abraço.

Catsone disse...

Caríssimo, reconheço essas críticas dos meus pensamentos. Só para te dizer que esses tais médicos de seguradoras há muito deixaram de ser médicos. Não gosto muito degeneralizar mas, nesse caso, penso que não escapa nenhum!
Já reparaste que, apesar dos telejornais mostrarem imagens aterradoras do Paquistão, não houve nenhuma campanha para angariaçãode fundos? Assobiamos todos para o lado, como dizes.
Resta-nos as pequenas alegrias do dia-a-dia, dos amigos, da família...
Anima-te!
Grande abraço.

MARIINHA disse...

Amigo Carlos,

Tudo o que refere nesse post é a mais pura das verdades. São gentalha, meu amigo, pura gentalha.
E é este tipo de pessoas que nos governa, que administra a justiça, que estão nos lugares de topo deste país. É uma tristeza completa.
Um abraço

Maria João disse...

Carlos

Este texto reflecte uma desilusão que partilho, em absoluto.
Ao longo dos anos tenho observado como tem crescido o pensamento hipócrita, a palavra vã e o acto oportunista de muitos. Daqueles que nos desgovernam, ano após ano, década após década e de muitos outros ( cada vez são mais) cuja aprendizagem de vida tem sido feita à custa do benefício pessoal e egoísta numa sede de poder competitivo incontrolável. Vale tudo e, nesse tudo, fica a desgraça de tantos outros ( cada vez menos ) que mantêm a honra da honestidade praticada e por isso um olhar atento, embora triste e profundamente desolado.
O meu receio, sinceramente, é que este vírus se alastre de tal forma que daqui a uns anos, não exista ninguém para escrever a denúncia, como o Carlos aqui escreveu, simplesmente porque se apagou da natureza humana a raiz primeira que o caracteriza, a dignidade.

Um beijinho muito grande meu amigo.

É sempre um prazer ler o que escreve e nessas palavras, aqui e lá no meu canto, o que sente e o que lhe faço sentir. É um prazer enorme, também, escrever para si.

Filoxera disse...

Onde ninguém é resposabilizado...
Beijinhos.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Masi pequeno e irrespirável, Carlos.
Bom fds

Rogério Pereira disse...

Chego aqui um pouco atrasado, passou um dia sobre este seu post e eu gostaria de ter chegado mais cedo. Andei por outras partes, procurando, apesar disto que escreveu, razões para me continuar a sentir português. Acho que vou encontrando algumas...

Mas pegando no seu rol de lástima proponho uma solução, embora não saiba ainda como a operacionalizar. Veja, atente bem:

Inventemos palavras novas, mutantes, que sejam acres e possam assumir elevada temperatura até se transformarem como brasas e, assim, lhes queimem a garganta funda e hipócrita. Inventemos outras, em forma de farpa aguçada, para lhes magoar as línguas pérfidas e longas. Inventemos outras, cortantes, que lhas encurtem dando-lhes dimensão humana. Inventemos ainda outras tantas palavras de chumbo que lhes faça vergar o troco pelo peso do discurso. Com essas palavras, assim inventadas, eles terão que recorrer ao dicionário normal dos homens como nós.
Temos duas missões: uma, a minha, como inventor de palavras; outra, a sua, colocá-las no sitio certo para serem usadas...

Quanto aos gestos e acções que denunciou, façamos qualquer coisa também... Na altura certa!

Boa?

Marilu disse...

Querido amigo, tenha um lindo final de semana...Beijocas

Fernanda disse...

Amigo Carlos!

Sabes a canção que diz "Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada", de certeza absoluta.
Pois estes não se limitam a comer, estes dizem e sabem de tudo... mas não fazem nada , nem dizem nada...
Estamos francamente cansados, desacreditados, desmotivados, não há pachorra para tanta "nojeira" pegada, tanta omnisciência e omnipotência ...

Estás coberto de razão em todos os aspectos citados, mas neste momento tenho muita vontade de falar num dos temas que abordas e muito bem.
Como coordenadora do Limpar Portugal no meu Concelho, fartei-me de alertar para o perigo dos materiais orgânicos deixados nas florestas, principalmente pelos madeireiros...
Eles levam os troncos e deixam todas as galhas e ficam impunes.
Como se já não bastasse todo o mato que cresce e ninguém limpa, nem as próprias autarquias que são os maiores detentores das áreas florestais.
Se o Estado não dá o exemplo, o povo nada faz...
Na altura, disseram-me que tudo isso não era lixo...que todo ele sendo orgânico se decomporia.
Verdade! mas e então os incêndios???
Vivemos para o dia de hoje, não há planeamento, não há nada...
Há quem nos tente comer as papas na cabeça...
Não... Basta !!!
Viva a Liberdade
Nós queremos viver
Tiremos-lhes o poder...

Beijinhos

Clecilene Carvalho disse...

Bom diaaaaaaa!
Sei que ando um "pouco" srsrsrsrs ausente, mas sempre penso no amigos.

Vim dizer oi... matar a saudade e dizer que este mês meu blog faz niver e venho oferecer, de coração, um selinho de comemoração, pois vc faz parte desta festa! Beijos.

maria teresa disse...

Estou triste, muito triste mesmo com o que observo à minha volta! E essa gente despudorada, funciona como um rastilho, como um vírus, e consegue contaminar outros...outros que fragilizados com as injustiças, acabam por baixar as fracas barreiras que têm e deixam-se contaminar...

Ricardo Calmon disse...

Verdade,escriba querido,Marilu razão tem,pois vivemos aqui na santa terra Brazilis situação semelhante,belo e atualíssimo post,o ensejo aproveito para te abraçar e te falar de saudades..................
Bem vindo sempre a campos meus de girassois

viva la vida