segunda-feira, 2 de agosto de 2010

De regresso




O entoar da azinheira

O sol abrasava, inclemente. O corpo quis, os pés deixaram que os passos fossem. Naquele banco, debruado a ocre, sentei-me a respirar a sombra da azinheira. Um golpe de vento, e chegou-se-me um som vindo de cima. Olhei. Lá estavam, tremelicando, as pequenas e verdes folhas aconchegando, protegendo num gesto de sabedoria profunda, as bolotas que hão-de crescer para a dieta dos porcinos que, por sua vez, alimentarão os humanos. Os galhos mais franzinos balançavam. A azinheira cantava!
Não era, propriamente, um canto, mas um entoar de memórias. Por ali fiquei, um tempo, a ouvi-la, enquanto para lá da sua copa a luz do sol ia passando sobre os campos. A dada altura a azinheira mostrou-se-me com feição de gente. Gente fraterna e solidária, mas também sombreada pelo medo, avermelhada pela brutalidade desde sempre sobre ela exercida. Deixou-me ver foices ceifando searas, costas vergadas ao peso do trabalho da recolha dos frutos de terra, e dedos encrespados premindo gatilhos, roubando vidas a mando da ganância e da imbecilidade da espécie humana. Pareceu-me, ainda, observar-lhe um sorriso trazido da última Primavera, rir de menina, tímido e receoso de que a mudança anunciada não passe de novo fingimento da História.
Instantes depois, não sei se muitos se poucos, que por aqueles sítios o tempo não é de medida comum, a azinheira transfigurou-se revelando-me um rosto de mulher adulta, esquecida dos medos, caçadora de sonhos, a querer mudar o curso errado do Destino, fugindo das armadilhas armadas pela cegueira da História. Deixei o banco. Metemo-nos a caminho do vizinho povoado branco e acolhedor, refulgente de sol, a aldeia de Vaiamonte tomada aos mouros por D. Sancho II em 1240, para logo a doar à Ordem de Santiago. Parámos à porta da “Tasca do Chico”. Entrámos para tomar uns cafés.
- Normais? Perguntou, simpático, quem estava do lado de dentro do balcão.
O espaço era pequeno, mas nele cabia a idade da aldeia. Corpos secos, rostos sulcados de alto a baixo, testas rugosas como casca de sobreiro deixando ver páginas e páginas dos livros daquelas vidas, chapéus nas cabeças. Mãos dadas, umas a copos de vinho, outras a garrafas de cerveja. Olhares trocados em silêncio, falando do que as palavras, por certo poucas e baixas, não seriam capazes: a surpresa de ali verem entrar um casal estranho pedindo, apenas, dois cafés.
Palavras, disse-as eu à saída: Boa tarde!
De regresso à zona do banco da azinheira perguntei o que havia para ver. Aqui nada há para ver, mas muito, tudo, para desfrutar. Foi o que, em boa hora, fizemos, viajando pelo Alto Alentejo. Ao voltarmos para a beira da lezíria, na bela Região do Oeste onde vivemos, viemos com uma grande saudade das gentes e terras daquele pedaço de Portugal onde nada é longe nem perto, é tudo já ali, embora o ali seja, a mais das vezes, para lá do sol posto!
Para trás ficaram as azinheiras entregues à meticulosa tarefa de irem desenhando e escrevendo a paisagem alentejana, elas que, diz quem sabe, vivem mil anos!

15 comentários:

Malu disse...

Pois se regressastes, seja bem-vindo novamente.
Beijinho, meu amigo

Clecilene Carvalho disse...

Que lindo texto... que delica descrição! Consegui visitar mentalmente o lugar. Beijos.

acácia rubra disse...

E um regresso cheio de coisas boas para contar e nos fazer sentir.

Mais uma vez um texto cheio de lirismo e visualismo, capaz de encher a alma de quem lê, porque a tua ficou plena da lonjura e da simplicidade alentejana.

Beijo

Paula disse...

Querido amigo, seja muito bem vindo, espero que suas férias tenham sido agradabilissímas. Lindo texto, como sou filha de pais portugueses, revivi as histórias que eles contavam. Tenha uma linda semana...Beijocas

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Seja bem vindo, Carlos. Bela homenagem ao Alentejo que, não sendo a minha região preferida, tem o condão de me despertar sensações que não consigo encontrar em nenhuma outra parte deste país.

Dulce disse...

E que forma linda de regressar, meu amigo, levando-nos em seu passeio a conhecer terras e gentes do Alentejo, a desfrutar da companhia da amigavel azinheira... Obrigada por isso e tenha um feliz regresso.

rosa-branca disse...

Meu amigo, a falar de azinheiras, mulheres, gatos cães ou galinhas e capoeiras o amigo é eximio na escrita. Quem tem alma tem mesmo e quem a não tem, ninguém a consegue encontrar (nem o próprio). Adorei o seu texto(como sempre) faz-nos beber até á ultima gota. Já reparou? Se fossr cerveja eu andava sempre com a tosga... Beijos meu amigo e continuação de boas férias

TERESA SANTOS disse...

Olá Mwata,
E pronto, finalmente a minha "orfandade" terminou!
Obrigada por nos emprestares os teus olhos, obrigada pela mão sábia que conduz não apenas aos lugares, mas às raízes, ao Homem, à essencia: neste caso o Alentejo nas suas gentes.
Abraço, Amigo.

Manuela Freitas disse...

Carlos,
Um retorno cheio de inspiração escrevendo sobre esse Alentejo da minha alma, zona do nosso país que me agrada especialmente.
Um grande abraço,
Manuela

(CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

Bela volta, xará. Belo texto e vamos conhecendo um pouco do Alentejo. Um abraço

Rogério Pereira disse...

Caro Carlos,

Sei dar um valor especial ao seu texto. Conheci azinheiras porque partilhei com elas a terra. Conheço-lhes o sussurrar. Sei o que é dar sombra a quem lhe procura a frescura. Sei. Sei, porque fui árvore e acabo, há pouco, de sair dessa metamorfose sobressaindo dessa natureza para me meter noutra... Documentei isso, também num post, para eu ler e não esquecer...
Por isso dei valor a este seu texto!
Não esqueça, Carlos, do que essa azinheira lhe disse. Ela foi minha companheira...

Abraço

Maria João disse...

Carlos

Que bom sabê-lo de volta e, como se isso só por si não chegasse, a oferecer-nos a reflexão profunda dos sulcos esculpidos, nos rostos das gentes que encontrou e dos seus silêncios e da Azinheira que lhes bebeu a História, sabe-se lá de quantos anos. Memórias e sentires translúcidos que, apenas aos olhos atentos e sábios, se revelam por inteiro.

Que bom sabê-lo de volta, meu amigo!

maria teresa disse...

Regressou! Que bom! Ainda por cima pela porta grande, com um lindíssimo texto a homenagear o Alentejo.
Espero que as dores não tenham sido suas companheiras...
Abracinho

Filoxera disse...

Deixo um beijinho e depois voltarei também. Para ler e sorrir, certamente.

Ignoto Jardim disse...

Que lugar encantador! Sem dúvidas, vc teve um bom descanso, e voltou renovado, pois quando viajamos tudo se faz novo!